Ela tinha dezoito anos, cabelos escuros que a mãe insistia em prender em coques apertados demais, e um jeito de andar ensaiado - costas retas, queixo erguido, passos curtos - que Dona Beatriz corrigia com um simples "Anastácia" sempre que a filha esquecia de se comportar como uma Vilaça.
- Uma Vilaça não corre. Uma Vilaça não grita. Uma Vilaça não se mistura - dizia a mãe, como quem repete um mantra havia dezoito anos.
Anastácia nunca soube dizer quando começou a sentir que essas frases não combinavam com ela. Talvez desde sempre. Havia algo em seu peito que parecia empurrar contra as paredes da casa, contra as regras, contra o próprio nome que carregava como um sobrenome pesado demais para o corpo.
Seu pai, Ricardo Vilaça, era dono de uma rede de hospitais particulares espalhados pelo estado - um homem de temperamento calculado, que tratava a filha com a mesma cortesia distante que reservava aos investidores. Amava-a, Anastácia sabia disso, mas era um amor com hora marcada, entre uma reunião e outra, entre um voo e outro.
A mãe era diferente. Beatriz Vilaça tinha um jeito de olhar para Anastácia que ia além do orgulho comum de uma mãe. Havia ali um cuidado quase desesperado, como se a filha fosse uma peça rara que pudesse quebrar a qualquer descuido. Ela nunca deixava Anastácia andar sozinha pela cidade, nunca permitia que a filha dormisse fora, nunca relaxava quando Anastácia chegava dez minutos atrasada.
- Você não entende o mundo lá fora, minha filha - dizia Beatriz, os dedos apertando o colar de pérolas no pescoço, um gesto que Anastácia reconhecia como nervosismo, embora nunca soubesse explicar o porquê daquele nervosismo tão constante.
Havia, é claro, os privilégios. Anastácia tinha carro com motorista, professores particulares de francês e piano, um guarda-roupa maior que o quarto de muita gente. Tinha tudo, exceto a coisa mais simples: a sensação de que aquela vida lhe pertencia de verdade.
Às vezes, deitada na cama enorme demais para uma pessoa só, ela tinha um sonho antigo, recorrente desde a infância. Nele, era muito pequena - um bebê, talvez - e via, embaçado como quem olha por trás de um vidro molhado, o rosto de uma mulher desconhecida. Não a mãe. Uma mulher de olhos cansados, cabelo preso de qualquer jeito, que a segurava com um misto de urgência e ternura, caminhando depressa por um corredor comprido, branco, cheio de portas fechadas.
O sonho nunca ia além disso. Anastácia acordava com o coração disparado, uma sensação estranha de perda que não conseguia nomear, e levava minutos para lembrar onde estava - no seu quarto, na sua cama, na sua vida de sempre.
Contava esse sonho para poucas pessoas. A mãe, uma vez, quando tinha doze anos, ficou pálida ao ouvir a descrição e mudou de assunto tão rápido que Anastácia aprendeu a nunca mais tocar no tema em casa.
- Sonhos não significam nada, querida - foi tudo que Beatriz disse, antes de sair do quarto com pressa incomum.
Anastácia cresceu, então, aprendendo a guardar aquele sonho como quem guarda um segredo que nem sabe se é seu.
Formou-se no colégio mais tradicional da cidade em julho daquele ano, um mês antes de completar dezoito anos, com notas impecáveis e um discurso de despedida que a mãe revisou linha por linha. Devia entrar na faculdade de Direito em breve, seguindo os passos que já estavam traçados havia muito tempo - a faculdade certa, o estágio certo, o noivo certo, um dia.
Mas naquele fim de tarde de agosto, quando pediu à mãe para caminhar até a praça perto de casa sozinha, pela primeira vez, algo em Anastácia já sabia, sem saber, que sua vida estava prestes a se partir ao meio.
- Só até a praça, mãe. Cinco minutos a pé. Eu levo o celular.
Beatriz hesitou tanto tempo que Anastácia quase desistiu. Mas então a mãe suspirou, como quem cede a uma batalha que sabe perdida, e assentiu.
- Volte antes de escurecer.
Anastácia saiu de casa com o coração leve pela primeira vez em muito tempo, sem imaginar que, a poucos quarteirões dali, um rapaz chamado Noah também caminhava até a mesma praça, carregando consigo uma vida inteiramente diferente - e um destino que já estava, havia dezoito anos, entrelaçado ao dela.