Elisa sorriu, balançando a cabeça.
- Isso é exagero.
- Não é, não.
As duas atravessaram o corredor até o velho ipê amarelo no canto do pátio, onde costumavam passar o intervalo desde o primeiro ano do ensino médio.
A amizade havia começado quase por acaso. Marina tinha dificuldade em Física, e Elisa, naturalmente paciente, sentara ao lado dela depois da aula para explicar uma lista de exercícios. Desde então, estudar juntas virou rotina.
Enquanto Marina abria a lancheira, Elisa observou o movimento ao redor.
Era estranho pensar que aquele seria o último ano naquela escola. O terceiro ano sempre parecia distante. Agora estava ali. Em poucos meses, começaria a maratona de vestibulares, provas, inscrições e despedidas.
A escola levava isso a sério. Todos os anos, dezenas de alunos conquistavam vagas nas universidades mais concorridas do país, e a direção acompanhava cada estudante durante todo o processo. Em breve começariam as reuniões individuais com a equipe de orientação profissional.
Era um privilégio estudar ali. Ela e Evandro sabiam disso melhor do que ninguém. Os dois haviam conquistado as vagas depois de um processo seletivo rigoroso, não por indicação, nem por sorte.
Entraram pelas notas.
- Minha mãe comentou que já saiu a programação da feira de profissões - Marina disse, entregando metade do pacote de biscoitos. - Vai ter gente da USP, Unicamp, FGV, Mackenzie... até palestra sobre bolsas.
- Eu vi o aviso hoje cedo.
- Você já decidiu de vez?
Elisa assentiu.
- Administração.
Marina sorriu, como se a resposta fosse óbvia.
- Eu sabia.
- Como?
- Você vive organizando tudo. Faz planilha para estudar, controla horário, ajuda o Evandro... até seus resumos têm índice.
Elisa riu baixinho. Talvez Marina tivesse razão. Gostava de colocar ordem nas coisas. Era mais fácil quando tudo podia ser organizado em listas.
Pessoas eram muito mais complicadas.
- E você continua firme em Medicina?
- Desde criança. Ah, já ia esquecendo... Minha mãe perguntou se você quer ir lá em casa esse fim de semana. Ela está naquela fase de testar receita nova. Semana passada foi um desastre de bolo de cenoura.
- Eu vou se o Evandro puder ir também.
- Claro que pode. Meu pai até perguntou dele semana passada, disse que separou uns livros de ciências que acha que ele vai gostar.
Elisa sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro. A casa de Marina tinha esse efeito nela, um tipo de alívio que não sabia explicar direito, só sentia, como quando se tira um sapato apertado depois de um dia inteiro em pé.
O pai de Marina, médico, fazia perguntas que pareciam interesse de verdade. A mãe, professora, puxava assunto sobre faculdade e futuro como quem fala sobre o tempo.
As duas ficaram um instante em silêncio, observando colegas comentarem animados sobre a comissão de formatura. O assunto aparecia todos os dias: vestido, convite, baile, fotos. A expectativa era do tamanho do medo do vestibular.
- Imagina a gente estudando na capital ano que vem? - Marina comentou. - Dividindo apartamento...
Elisa desviou os olhos.
Na mochila havia um caderno azul. Nele, escondia tudo o que pesquisava havia semanas: universidades, notas de corte, programas de bolsa, datas de inscrição. Os professores diziam que, mantendo aquele desempenho, ela tinha excelentes chances de conseguir bolsa integral.
O problema nunca fora entrar na faculdade. O problema era conseguir ir.
Ainda não comentara nada em casa. Nem com o pai, nem com a mãe. Pensar em deixar Evandro sozinho fazia um aperto silencioso crescer dentro do peito.
- Você ficou quieta.
Elisa voltou a olhar para a amiga.
- Só estava pensando.
- Em quê?
Ela hesitou.
- Que este ano vai passar muito rápido.
Marina sorriu.
- Então a gente aproveita enquanto pode.
O sinal anunciou o fim do intervalo. As duas voltaram para a sala ainda conversando sobre redação, vestibulares e a quantidade absurda de simulados prometidos para o semestre.
Durante as aulas seguintes, Elisa conseguiu esquecer qualquer preocupação. Por algumas horas, era apenas mais uma aluna do terceiro ano, a garota que sempre respondia primeiro em Biologia, que ajudava os colegas antes das provas.
Quando o último sinal tocou, o pátio se esvaziou rápido, todo mundo com pressa numa sexta-feira. Elisa se despediu de Marina com um aceno e atravessou o corredor até o portão lateral, onde a van escolar já esperava, motor ligado, o motorista Seu Ademir conferindo a lista de nomes numa prancheta gasta.
Evandro já estava lá, no banco de sempre, perto da janela, a mochila pesada no colo. Ergueu os olhos do celular emprestado da escola só o suficiente para confirmar que era ela, e voltou a atenção para o joguinho de labirinto.
- Como foi a prova de Matemática? - Elisa perguntou, sentando ao lado dele e ajeitando a alça da mochila que escorregava do ombro do irmão.
- Fácil. - Ele deu de ombros, mas havia um brilho discreto no jeito de dizer aquilo. - O professor falou que só eu e mais dois terminaram antes do tempo acabar.
- Viu? Eu falei.
A van foi se enchendo aos poucos, vozes e risadas ocupando o espaço apertado entre os bancos. Seu Ademir fechou a porta de correr com o barulho metálico de sempre, conferiu o retrovisor e deu partida.
Elisa encostou a cabeça no banco e observou o portão da escola ficar para trás.
Fechou os olhos por um segundo, tentando guardar aquele intervalo tranquilo, como quem guarda uma moeda no bolso antes de uma despesa que sabe que vai chegar.
Sabia, sem precisar pensar muito, que dali a poucos minutos a paisagem lá fora começaria a mudar. E, com ela, o mundo que os dois estavam prestes a reencontrar, o mundo que deixava, todos os dias, um pouco antes de chegar em casa.