Respirei fundo, sentindo o ar gelado queimar meus pulmões, e apertei a alça da minha bolsa gasta. Você consegue, Clara. Você precisa conseguir.
Minha avó, dona Marta, estava deitada em uma cama de hospital do outro lado da cidade, conectada a máquinas que custavam mais por hora do que eu havia ganhado em toda a minha vida. O aviso do hospital fora claro: ou eu apresentava um comprovante de renda substancial e um plano de saúde corporativo de primeira linha até o fim da semana, ou ela seria transferida para o sistema público, onde a fila para a cirurgia que ela precisava levaria meses. Meses que ela não tinha.
Eu tinha vinte e um anos, um diploma recém-conquistado com muito suor e noites em claro, e absolutamente nenhuma experiência no mundo corporativo de alto escalão. Conseguir a entrevista final para a vaga de Assistente Júnior na Vance Enterprises já tinha sido um milagre, um erro do algoritmo de triagem de currículos, ou talvez uma piada cruel do destino. Mas eu não podia recuar. Eu engoliria meu medo, minha insegurança e qualquer orgulho que ainda me restasse.
Empurrei as pesadas portas giratórias de cristal e entrei no saguão. O contraste com a rua foi imediato. O ar lá dentro cheirava a dinheiro, cera de mármore e poder puro. Homens em ternos italianos que custavam o equivalente a um ano do meu aluguel andavam apressados, sussurrando em fones de ouvido invisíveis. Mulheres com saltos agulha e posturas impecáveis cruzavam o piso espelhado sem fazer um único ruído. Eu, com minha saia preta comprada em uma loja de descontos e meu cabelo castanho preso em um coque para parecer mais velha, me sentia uma intrusa. Uma presa fácil no meio de predadores.
Fui até a recepção, minhas mãos suando frio.
- Clara Martins. Tenho uma entrevista final com a Diretora de Recursos Humanos, Sra. Sterling - minha voz saiu um pouco trêmula, mas eu pigarrei, erguendo o queixo.
A recepcionista, uma loira de beleza plástica e olhar entediado, digitou algo em seu tablet sem sequer piscar.
- Centésimo andar. O elevador executivo à direita.
Agradeci com um aceno nervoso e caminhei até as portas prateadas. O elevador subiu em um silêncio sepulcral, a pressão nos meus ouvidos sendo a única prova de que estávamos cortando dezenas de andares em segundos. Meu estômago revirou, uma mistura de ansiedade e falta de café da manhã. Quando as portas se abriram no 120º andar, prendi a respiração.
O andar executivo não parecia um escritório. Parecia o saguão de um hotel cinco estrelas ou um museu de arte moderna. O piso era de madeira escura e polida, as paredes decoradas com obras de arte abstratas, e o silêncio era tão denso que quase zumbia. Havia uma mesa de recepção monumental esculpida em um único bloco de mármore negro.
Atrás dela, uma mulher mais velha, com cabelos grisalhos cortados em um chanel afiado e óculos de aros vermelhos, me avaliava como se eu fosse um inseto sob um microscópio.
Sra. Sterling.
- Srta. Martins - a voz dela era gélida, cortante. - Você está exatamente dois minutos adiantada. A pontualidade é a única virtude aceitável aqui. Sente-se.
Ela apontou para uma cadeira de couro branco à frente de sua mesa. Caminhei com passos rígidos e me sentei, mantendo a postura reta, cruzando os tornozelos como havia treinado.
- Seu currículo é medíocre para os padrões da Vance Enterprises, Srta. Martins - ela começou, folheando um arquivo com unhas perfeitamente esmaltadas de vinho. - Formada em uma universidade estadual, notas excelentes, mas nenhuma experiência internacional, nenhum estágio em empresas da Fortune 500. Você tem vinte e um anos e a presença de alguém que acabou de sair do ensino médio.
Senti meu rosto esquentar, mas mordi a parte interna da bochecha. Pense no hospital. Pense na avó.
- Eu sou extremamente dedicada, Sra. Sterling. Aprendo rápido, não tenho distrações na minha vida pessoal e estou disposta a trabalhar quantas horas forem necessárias para provar meu valor. Eu preciso desta oportunidade.
Ela parou de folhear o arquivo e ergueu os olhos para mim. Havia um brilho calculista por trás das lentes vermelhas.
- O fato de você ser uma lousa em branco é a única razão pela qual está sentada aqui. As últimas três assistentes seniores do Sr. Vance tinham currículos impecáveis, diplomas de Harvard e Yale. E todas foram demitidas chorando antes do fim do primeiro mês. O Sr. Vance não precisa de alguém que ache que sabe administrar a empresa. Ele precisa de alguém que obedeça. Cegamente. Silenciosamente. Sem questionar.
O nome fez um arrepio descer pela minha espinha. Arthur Vance. O CEO. O bilionário mais temido de Wall Street, frequentemente chamado pela mídia de "O Lorde de Gelo". Homem de poucos sorrisos, nenhuma aparição pública desnecessária e uma reputação de destruir impérios concorrentes antes do café da manhã.
- Eu posso seguir ordens - respondi, tentando soar firme, embora meu coração batesse como um tambor desgovernado.
Sra. Sterling suspirou, abrindo uma gaveta e tirando um calhamaço de papéis grossos. Ela deslizou o documento sobre o mármore até mim, junto com uma caneta-tinteiro de ouro.
- Este é um acordo de confidencialidade. Ele estipula que absolutamente nada do que você vir, ouvir ou deduzir neste andar pode ser compartilhado com qualquer pessoa fora deste prédio. Se você violar isso, os advogados do Sr. Vance não apenas a processarão até a última geração da sua família, como garantirão que você nunca mais consiga um emprego legal no país. O salário inicial é de cento e vinte mil dólares anuais, com bônus de performance e pacote de saúde premium com cobertura total retroativa para dependentes a partir do momento da assinatura.
Meus olhos se arregalaram. Cento e vinte mil dólares. Isso era muito mais do que o dobro da média para uma assistente júnior. E o plano de saúde... aquilo salvaria a vida da minha avó. Minhas mãos tremeram levemente quando peguei a caneta. Sem ler as letrinhas miúdas que com certeza selavam minha alma ao diabo, assinei todas as páginas onde havia um "X".
Sra. Sterling recolheu os papéis, seu semblante tão impenetrável quanto antes.
- Bem-vinda à Vance Enterprises. Agora, ouça com muita atenção, Clara. Porque eu não vou repetir as regras, e o Sr. Vance certamente não tem paciência para ensinar funcionários novos.
Endireitei-me na cadeira, pronta para anotar mentalmente as rotinas de reuniões, preferências de café ou formatações de relatórios. O que veio a seguir, no entanto, foi bizarro.
- Regra número um, e a mais importante: O Sr. Vance nunca deve ser tocado. Sob nenhuma circunstância.
Pisqui, confusa.
- Tocado? A senhora quer dizer... sem apertos de mão?
- Quero dizer tocado - ela repetiu, a voz baixando um tom, como se estivéssemos falando de uma maldição antiga. - Sem apertos de mão. Sem esbarrões casuais no corredor. Sem entregar papéis diretamente nas mãos dele; você os colocará sobre a mesa e dará um passo para trás. Se for servir algo, use a bandeja, pouse na mesa, afaste-se.
Tentei processar a informação. Um bilionário no topo do mundo que não podia ser tocado?
- Ele usará luvas de couro a maior parte do tempo. Não olhe para elas. Não pergunte sobre elas. Não aja de forma estranha - continuou a Sra. Sterling, enumerando nos dedos. -
Regra número dois: Não o encare diretamente nos olhos por mais de três segundos. Ele acha isso insolente. Regra número três: O silêncio é ouro. Não fale a menos que seja diretamente questionada. Não faça "perguntas amigáveis" sobre o dia dele. Ele não é seu amigo, não é seu mentor, ele é seu empregador. Você é uma máquina programada para facilitar a vida dele.
Engoli em seco. Aquele lugar não soava como um escritório de alta tecnologia; soava como a corte de um rei tirano da Idade Média.
- Eu entendi, Sra. Sterling. Sem toques. Sem perguntas. Invisível e eficiente.
Ela pareceu levemente satisfeita.
- Bom. Você será a assistente júnior da Sra. Montgomery, a assistente sênior. Sua mesa fica no anel externo da suíte executiva. Venha, vou mostrá-la o seu lugar. E, Clara...
Levantei-me, arrumando a saia, e esperei.
- Não se deixe enganar pela aparência dele - ela sussurrou, e por uma fração de segundo, achei ter visto uma sombra de genuíno temor passar pelos olhos velhos da Diretora de RH. - O Sr. Vance pode parecer a perfeição esculpida em mármore, mas ele é perigoso. Mantenha sua cabeça baixa, faça o seu trabalho e vá para casa. Garotas inocentes como você tendem a ser esmagadas neste andar.
Caminhamos por um longo corredor atapetado que abafava completamente os nossos passos. Passamos por salas de reuniões vazias, com mesas de vidro quilométricas e telas gigantes. O cheiro de café forte misturado com algum perfume cítrico caríssimo pairava no ar.
No fim do corredor, entramos na "Suíte Presidencial". Era um espaço colossal em plano aberto. No centro, havia um imenso aquário de vidro fumê do chão ao teto. O escritório do CEO. As paredes de vidro eram controladas eletronicamente; naquele momento, estavam opacas, impedindo qualquer pessoa de ver o que acontecia lá dentro.
A poucos metros dessa fortaleza de vidro, havia duas mesas brancas e minimalistas. Uma, perfeitamente organizada, pertencia à Sra. Montgomery, que não estava presente. A outra,
ligeiramente menor, seria minha.
Sentei-me na cadeira ergonômica que devia custar o triplo do meu guarda-roupa. A tela do computador já piscava com o meu nome e dezenas de pastas com relatórios para organizar. Sra. Sterling deu as últimas instruções sobre senhas e se retirou, deixando-me sozinha no silêncio daquela antessala.
Respirei fundo. Eu estava dentro. O dinheiro do hospital estava garantido. Tudo o que eu precisava fazer era seguir regras e trabalhar feito uma condenada. Seria fácil. Eu já era invisível para o mundo de qualquer maneira; ser invisível para um bilionário não seria diferente.
Tirei meus cadernos velhos da bolsa e comecei a abrir os e-mails na tela. Dez minutos se passaram. Depois vinte.
Foi então que o ambiente mudou. Não houve nenhum som. Nem o toque de um telefone, nem o bater de uma porta. O ar ao meu redor ficou subitamente pesado, denso, elétrico. Os pelos dos meus braços se arrepiaram sob a lã do casaco.
Levantei os olhos do monitor, atraída por uma força invisível em direção ao escritório de vidro no centro do andar.
A parede de vidro fumê, antes totalmente opaca, estava clareando lentamente, tornando-se translúcida. O sistema eletrônico estava sendo desativado por dentro.
Lá estava ele. Arthur Vance.
Ele estava de pé, de costas para a parede de vidro, olhando para a imensidão da cidade através da janela panorâmica do seu escritório. Ele vestia um terno preto que abraçava ombros largos e uma postura rígida, imponente. O cabelo escuro caía ligeiramente fora de ordem sobre o colarinho branco e imaculado.
Ele estava a pelo menos dez metros de distância, isolado em sua caixa de vidro à prova de som, e ainda assim, a presença dele parecia preencher cada milímetro quadrado do meu pulmão, roubando meu ar.
De repente, ele girou sobre os calcanhares.
Meu instinto foi desviar o olhar, lembrar da maldita regra número dois da Sra. Sterling, mas meu corpo congelou. Eu não consegui mover um músculo.
O olhar de Arthur Vance encontrou o meu através do vidro divisório.
Seus olhos eram da cor de um céu de tempestade prestes a desabar. Cinzas, frios, predatórios. E eles estavam fixos em mim. A garota de roupas baratas e cabelos mal arrumados
que ousava respirar o mesmo ar que ele.
Pude ver suas mãos descansando sobre a borda de mogno de sua mesa. Eram mãos grandes, longas. E, como avisado, estavam rigorosamente cobertas por luvas de couro preto feitas sob medida.
Ele não piscou. Eu não respirei.
O aviso da Diretora de RH ecoou na minha mente, muito mais sombrio agora do que há vinte minutos: O Sr. Vance nunca deve ser tocado. Sob nenhuma circunstância.
Um calafrio desceu pela minha espinha, misturando um terror com algo muito mais quente, muito mais perigoso, que se instalou no fundo do meu ventre. Engoli em seco, forçando meus olhos trêmulos a voltarem para a tela do computador, sentindo o peso do olhar daquele predador intocável queimando minha pele à distância.