As paredes antigas tinham pequenas rachaduras perto das janelas, o sofá da sala afundava no meio e o piso de madeira rangia sempre que eu passava rápido demais pelo corredor estreito. Mas ainda era minha casa. A única coisa realmente minha naquele mundo.
A casa que minha mãe deixou.
Respirei fundo.
Ainda tinha cheiro dela em alguns lugares. Principalmente no quarto. Lavanda e livros antigos. Às vezes eu odiava perceber isso porque fazia meu peito doer de um jeito silencioso.
Peguei os pratos da pia e comecei a lavá-los rapidamente.
- Ótimo, Anastasia... veterinária durante o dia, garçonete durante a noite e empregada doméstica na madrugada.
Minha própria voz ecoou na cozinha vazia.
Ninguém respondeu.
Nunca respondia.
Sorri sem humor e continuei esfregando a panela enquanto meus olhos viajavam pela pequena cozinha iluminada pela luz fraca da manhã. Sobre a mesa havia apostilas abertas de anatomia animal, contas atrasadas e um pacote de macarrão instantâneo pela metade.
Vida glamourosa.
Muito glamourosa.
Desliguei a torneira e enxuguei as mãos na calça moletom larga. Olhei o relógio pendurado perto da geladeira e praguejei baixo.
Atrasada.
De novo.
Corri pelo corredor estreito até meu quarto. As roupas estavam espalhadas na cadeira porque eu não tive energia para guardar nada durante a semana. Peguei a primeira calça jeans limpa que encontrei e uma blusa preta simples.
Enquanto vestia a roupa, meus olhos pararam no espelho rachado encostado perto da cômoda.
Os mesmos olhos azuis de sempre me encararam de volta.
Minha mãe costumava dizer que eles eram "azuis demais para esse mundo".
Quando eu era criança, adorava ouvir isso.
Agora só me faziam chamar atenção sem querer.
Peguei minha mochila da faculdade, enfiei os livros lá dentro e saí correndo de casa depois de alimentar Misha, minha gata cinza mal-humorada que me observava em cima da geladeira como se eu fosse uma decepção constante.
- Eu sei que estou atrasada.
Ela miou.
- Você parece minha consciência peluda.
Outro miado.
Fechei a porta antes que começasse a conversar seriamente com um gato. O que provavelmente era um sinal preocupante sobre minha saúde mental.
O vento frio da manhã bateu no meu rosto enquanto eu caminhava rápido pela rua. O bairro onde eu morava era antigo, simples e silencioso demais naquela hora. Algumas pessoas já estavam saindo para trabalhar, outras abriam pequenos comércios enquanto eu praticamente corria até o ponto de ônibus.
Minha vida era sempre uma corrida.
Correr para estudar.
Correr para pagar contas.
Correr para sobreviver.
E mesmo assim parecia que eu nunca alcançava nada.
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A faculdade estava um caos.
Assim que entrei no prédio principal, ouvi gente falando alto, passos apressados e o som irritante de alguém arrastando cadeira pelo corredor. Ajustei a mochila no ombro enquanto tentava não parecer uma pessoa completamente destruída pelo cansaço.
- Anastasia!
Virei o rosto e vi Clara vindo na minha direção segurando um copo de café.
- Você parece morta.
- Obrigada. Você também está linda hoje.
Ela riu.
- Você dormiu?
- Tecnicamente? Sim.
- Quantas horas?
Pensei por alguns segundos.
- Duas... talvez três se eu contar o cochilo no ônibus.
Clara fez uma careta.
- Você vai acabar desmaiando em cima de uma vaca qualquer durante a aula prática.
- Pelo menos seria uma morte memorável.
Entramos juntas na sala.
As próximas horas passaram em um borrão de anotações, explicações sobre procedimentos clínicos e tentativas desesperadas minhas de manter os olhos abertos. Eu amava veterinária. Amava de verdade. Era a única coisa na minha vida que fazia sentido.
Quando eu estava estudando animais, sentia que ainda existia alguma parte boa no mundo.
Pessoas mentiam.
Pessoas abandonavam.
Pessoas destruíam umas às outras sem culpa.
Animais não.
Eles apenas sentiam.
No intervalo, sentei no chão do corredor com um salgado barato e comecei a revisar minhas anotações enquanto ignorava a dor nas costas.
Meu celular vibrou.
BECK:
"NÃO ATRASA HOJE."
Revirei os olhos imediatamente.
Eu:
"Boa tarde pra você também."
BECK:
"Boa tarde nada. O inferno vai lotar hoje."
Franzi a testa.
Eu:
"Evento?"
Ela demorou alguns segundos para responder.
BECK:
"Só vem."
Ótimo.
Isso nunca significava coisa boa.
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Quando saí da faculdade já estava escurecendo.
Corri literalmente até o ponto de ônibus, quase tropeçando no meio-fio enquanto tentava colocar o casaco ao mesmo tempo. Meu cabelo escapava do coque e o vento gelado fazia meus olhos lacrimejarem.
O ônibus demorou uma eternidade.
E, quando finalmente chegou, veio lotado.
Perfeito.
Fiquei em pé o trajeto inteiro enquanto revisava mentalmente tudo que ainda precisava pagar naquele mês.
Energia.
Internet.
Material da faculdade.
Remédio da Misha.
Talvez comida também fosse importante.
Quando desci perto da boate, a primeira coisa que percebi foi a quantidade absurda de carros luxuosos parados na entrada.
Mercedes.
BMW.
SUVs pretos enormes.
Homens de terno espalhados do lado de fora.
Seguranças demais.
Meu estômago apertou automaticamente.
A boate já era frequentada por gente rica normalmente, mas aquilo estava diferente.
Parecia... mais pesado.
Mais perigoso.
A música vibrava tão forte que dava para sentir no peito antes mesmo de entrar.
Empurrei a porta dos funcionários e fui recebida pelo caos habitual dos bastidores. Gente correndo, garçons carregando bandejas, maquiagens sendo retocadas às pressas e ordens gritadas de um lado para o outro.
- Anastasia! Finalmente! - Beck apareceu prendendo o próprio cabelo escuro em um rabo de cavalo.
- Eu literalmente cheguei no horário.
- Milagre histórico.
Ignorei o comentário e comecei a colocar o avental preto do uniforme.
- O que vai ter hoje?
Beck olhou rapidamente por cima do meu ombro antes de se aproximar um pouco mais.
- Nada confirmado... mas ouvi dizer que tem homens muito ricos vindo.
- Isso não é novidade aqui.
- Não. Mas esses são diferentes.
Franzi a testa.
- Diferentes como?
Ela abaixou ainda mais a voz.
- Perigosos.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa-
- NÃO ESTÁ NA HORA DE FOFOCA!
A voz do gerente ecoou pelo salão dos funcionários como um tiro.
Todo mundo se calou imediatamente.
Virei o rosto e encontrei Augusto vindo na nossa direção com aquela expressão amarga de sempre.
- Se vocês terminarem de conversar talvez consigam trabalhar antes do amanhecer.
Beck revirou os olhos discretamente.
Eu apenas abaixei a cabeça e terminei de ajeitar o avental.
- Área VIP vai exigir atenção máxima hoje - Augusto continuou. - Quero sorriso no rosto, agilidade e ninguém fazendo merda.
Os olhos dele pararam em mim por um segundo maior do que o necessário.
- Principalmente você, Anastasia.
Engoli seco.
- Sim, senhor.
Ele saiu logo depois, gritando ordens para outra pessoa no corredor.
Beck soltou o ar devagar.
- Um dia eu juro que coloco veneno no café desse homem.
- Você fala isso todo sábado.
- Porque todo sábado ele merece.
Acabei rindo baixo.
Mas, mesmo tentando ignorar aquela sensação estranha no meu peito... alguma coisa naquela noite parecia errada.
Como se o ar estivesse anunciando uma tempestade antes dela começar.
E eu ainda não fazia ideia de que minha vida estava prestes a mudar no momento em que eu colocasse os pés na área VIP daquela boate.