Vou de metrô até Manhattan. O vagão está cheio. Chego ao prédio da TechNova, a maior empresa de tecnologia dos Estados Unidos. O arranha-céu fica no centro de Nova Iorque. Entro pela porta de serviço, pego meu carrinho de limpeza e começo o trabalho no décimo andar.
A supervisora me chama.
- Marcela, o Sr. Roberto quer que você limpe a sala dele agora.
Subo no elevador privativo até o último andar. Entro na sala dele. As paredes são de vidro e mostram a cidade lá fora. A mesa é grande, de madeira escura. Ele está de costas, falando ao telefone. A voz dele é grave e firme.
- Quero o relatório em uma hora. Sem desculpas.
Começo a limpar o canto da sala. Passo o pano com cuidado nos vidros. Estico o braço para alcançar uma prateleira mais alta. Meu cotovelo bate no copo de café. O líquido derrama na manga do terno dele e na calça.
Ele vira devagar e olha para mim. Ainda segura o telefone.
- Limpe isso. Agora.
Minhas mãos tremem. Pego o pano e tento limpar. O café se espalha mais.
- Desculpe, senhor. Foi sem querer - digo baixo.
Ele dá um passo à frente.
- Olhe o que você fez. Este terno custa mais que o seu salário anual. Você é incompetente?
Fico calada. Seguro as lágrimas. Preciso do emprego. Meu pai está doente e os remédios são caros. Não posso perder este trabalho. Continuo tentando limpar em silêncio.
- Saia. E mande outra pessoa da próxima vez.
Saio da sala com as pernas fracas. No corredor, vejo Klarice e outras duas garotas da limpeza perto da copa. Elas estão falando baixo.
- Ele parece um robô - diz Klarice. - Sem emoção nenhuma.
Eu me aproximo.
- Meninas, falem baixo. Acabei de sair da sala dele. Derramei café no terno dele.
Klarice ri.
- Claro que ele parece um robô. Nunca vi ele sorrir.
Uma voz grave soa atrás de nós.
- Interessante teoria.
Nós viramos. Roberto está ali, mãos nos bolsos, olhar frio.
Klarice fica pálida.
- Sr. Roberto... era só brincadeira. Eu não quis...
- Você está demitida - diz ele. - Recolha suas coisas em dez minutos. E leve essa cara de sujeira com você.
Klarice começa a chorar e tenta explicar. Ele não muda a expressão.
Sinto um aperto no peito. Apesar de Klarice falar demais, não acho certo demiti-la por isso. Dou um passo à frente.
- Senhor, por favor. Foi só conversa de corredor. Ela não quis ofender. Não precisa demiti-la.
Ele vira para mim. O olhar dele é duro.
- Você de novo. Se me incomodar mais uma vez, Marcela, será a próxima a sair. Entendeu?
Assinto sem falar. Meu coração bate forte. Ele me encara por alguns segundos, depois vira e sai pelo corredor.
Fico ali, tremendo, com o peso do dia ainda no corpo e o barulho da cidade de Nova Iorque do lado de fora das janelas.