"Você só pode estar brincando", ela soltou, se jogando na cadeira velha e meio bamba da sala de jantar, apoiando a cabeça nas mãos, o cabelo bagunçado e ruivo caindo sobre o rosto sardento como folhas alaranjadas de outono. Estava furiosa demais. Nem o cabelo ela penteou, muito menos tomou um banho rápido, porque a Danica, sua madrasta, ligou às cinco da manhã chorando como se fosse caso de vida ou morte.
Agora, sentada ali encarando as manchas de água antigas no tampo barato de madeira compensada, Marybeth tentava entender que parte daquele plano maluco envolvia vida ou morte. Se soubesse que era só mais uma cagada do pai, teria desligado na cara da Danica e voltado a dormir. Era cedo demais para qualquer um estar acordado, ainda mais num sábado.
"Papai, fala alguma coisa." Marybeth parou de mirar as manchas por um segundo e olhou pro pai, com o desespero estampado nos olhos.
"Querida-" ele começou, com aquela voz melada que só usava quando estava enrolando alguém no trabalho.
"Não!" Marybeth tapou os ouvidos com força e sacudiu a cabeça, numa tentativa inútil de negar a realidade. A voz dele, aquela voz, ela já tinha ouvido tantas vezes antes, assistindo impotente enquanto ele manipulava gente inocente com suas palavras doces. Só que agora era ela quem estava do outro lado. Ela era a próxima vítima dele. E por causa da ganância dele, ela teria que ir no cartório na Rua Strand dali a três horas pra casar com um cara que nunca viu na vida. Um homem que poderia ter o dobro da idade dela, talvez até um golpista ou, pior, um bandido daqueles perigosos. Nenhuma hipótese era absurda, considerando os "amigos" do pai.
"É só por um ano, amorzinho", Danica entrou no papo toda doce, os olhos azuis marejando com lágrimas de crocodilo. Ela nem era tão mais velha que Marybeth assim. Oito anos apenas. Mas o álcool cobrou seu preço. A cara dela parecia de quem estava sempre bêbada, mesmo sóbria. Culpa do trabalho no Royal Lights, um cassino todo espalhafatoso que ficava do outro lado da cidade.
"Sério mesmo, minha linda-" Danica tentou continuar, mas se calou rapidinho quando Marybeth lançou um olhar atravessado.
Rangendo os dentes, Marybeth perguntou: "Se é só um ano então, por que você não casa com ele?"
"Até faria isso, mas como seu pai deve um dinheirão, só dá mesmo pra oferecer aquilo que ele mais valoriza", respondeu Danica, repetindo o que já tinha falado antes.
"Não entendo onde eu entro nessa história", resmungou Marybeth. "Eu tenho a minha própria vida, sabe?"
"Sim, só que você não tem um homem, querida", o pai interrompeu, com aquela sinceridade irritante. "E também já tá ficando mais velha, Flor. Suas amigas já tão se casando. Tem umas até grávidas-"
"Eu só tenho vinte e oito!", ela retrucou, levantando e andando de um lado pro outro na cozinha apertada. Vinte e oito não era exatamente a beira da morte.
"Sei disso, querida. Mas, por favor, faça isso pelo seu querido papai?"
Marybeth desviou o olhar da janela, completamente incrédula. "Pai, você vive enganando as pessoas! Isso tudo é uma loucura sem tamanho. Por que você não vai a um banco e pega um empréstimo como qualquer pessoa normal? Gente comum não obriga a filha a casar com um estranho pra pagar dívida!"
"O Lionel tá com o nome tão sujo que nem sonha em conseguir crédito. E nenhum banco quer saber de mim depois daquele rolo com os cartões, mesmo eu tendo sido inocentada", Danica se explicou, esfregando com força os braços ossudos. Marybeth já imaginava que a madrasta tava tendo outra crise de abstinência. Ela já tinha perdido a conta de quantas vezes Danica tentava largar o Tik, ficava limpa por meses, pra depois voltar pro vício do nada. Era doloroso de ver, especialmente nas fases mais intensas - ela chegava a se coçar toda até sangrar.
Marybeth segurou as mãos dela e as abaixou, antes que voltasse a cutucar a pele. Virando-se pro pai, perguntou: "Quanto exatamente você deve pra esse cara?"
"Muito", disse ele.
"Quanto é esse muito?" O silêncio respondeu. Mas ela insistiu. "Cinquenta mil?"
Ele negou com a cabeça.
"Cem?"
Outra negativa, dessa vez mais enfática.
"Meu Deus, pai! Não me diga que é um milhão?"
"Quase isso", sussurrou Danica.
"Pai! O que foi que você fez? Como conseguiu essa dívida absurda? E por que não consegue simplesmente me dizer quanto é o valor?" Marybeth afundou as mãos no rosto, respirando rápido demais. Ela não entendia como alguém desempregado conseguia afundar tão fundo.
"Desculpa." Foi só isso que ele disse, não importava quanto Marybeth pressionasse. E isso deixava ela mais irritada ainda.
Cansada de tentar ser a única adulta na sala, ela desabafou tudo, jogando na cara dele cada uma das loucuras que ele já tinha feito - desde os golpes de pirâmide até as dívidas que quase deixaram eles na miséria.
"Flor, você sabe que eu nunca quis te machucar, e eu não fui preso por nenhuma daquelas coisas."
Marybeth soltou um riso amargo. "Isso porque você sempre soube escapar das enrascadas, pai. Não é que você fosse inocente!"
Seu pai não era o homem mais sortudo do mundo, mas ele certamente sabia como usar seu charme e inteligência para se livrar de qualquer encrenca, saindo apenas com multas e penas suspensas. Sua lábia lhe rendeu o apelido de Slippy. Era escorregadio que só. E Marybeth cansou disso. Cansou da vida de vigarista barata dele, de agir sem pensar nas consequências.
"Sabe de uma coisa?" disse ela, a voz só um pouco acima de um sussurro. "Eu costumava odiar a mamãe. Culpava ela por ter ido embora. por ter deixado a gente. Mas agora vejo que foi a melhor decisão da vida dela. Eu queria tanto que ela tivesse me levado junto!"
"Isso não é justo-" Ele nem conseguiu argumentar. Marybeth se levantou de uma vez, girou nos calcanhares e saiu da casa como um furacão, batendo a porta fininha com tudo.
Desceu a escada correndo e só quando chegou no carro parou pra lembrar que tinha esquecido o envelope com os dados do futuro "marido" em cima da mesa da cozinha.
Ela não queria ter que voltar lá depois de sair daquele jeito, mas se quisesse resolver isso direito, sem acabar realmente casada, não tinha escolha. Então voltou, pegou o envelope com raiva e saiu de novo, sem nem olhar direito pro pai, que chorava feito criança no colo da Danica.