Era leve. Pateticamente leve. Um tubo de protetor labial que havia vencido há três anos e um livro de medicina com a lombada quebrada em três lugares.
- Assine aqui - disse Escudo, entediado.
Arcana assinou. Sua caligrafia havia mudado. Costumava ser arredondada, feminina. Agora eram linhas afiadas e irregulares, que pareciam capazes de rasgar a pele.
Ela caminhou em direção à pesada porta de aço. A campainha soou, um zumbido longo e irritado que vibrou em seus dentes. A porta deslizou.
Arcana saiu.
O sol a atingiu como um golpe físico. Ela recuou, erguendo o braço para proteger os olhos. O ar não cheirava mais a alvejante e repolho velho. Cheirava a poeira, escapamento e algo aterrorizantemente aberto.
Ela abaixou o braço. Esperava câmeras. Esperava o flash das lâmpadas que a cegaram cinco anos atrás, quando foi arrastada algemada.
Não havia nada.
Apenas uma estrada vazia e uma única limusine preta parada no acostamento.
As janelas tinham um insulfilm tão escuro que pareciam poças de óleo. O carro estava lá, sinistro e silencioso. Parecia um carro fúnebre.
Arcana ajustou a gola de seu sobretudo. Era o mesmo que usava no dia em que foi presa. A bainha estava desfiada e o tecido estava apertado em seus ombros. Ela era franzina na época. A prisão arrancou a gordura e construiu músculos no lugar.
Ela caminhou até o carro.
O motorista saiu. Usava luvas brancas. Não olhou para o rosto dela. Abriu a porta traseira e encarou o horizonte, como se olhar para ela fosse contaminá-lo.
Arcana entrou.
O ar condicionado a atingiu instantaneamente, congelando o suor em seu pescoço. A porta se fechou com um baque, selando-a em um vácuo com cheiro de couro.
À sua frente estavam sua mãe, Triunfo, e sua irmã, Gema.
Triunfo segurava uma taça de cristal com champanhe. Ela não ofereceu uma a Arcana. Olhou para o casaco gasto da filha com um curvar de lábios que sugeria que ela sentia o cheiro de algo apodrecendo.
Gema se espremeu no canto do assento de couro. Parecia aterrorizada.
- Feche as cortinas - disse Triunfo. Foi a primeira coisa que disse à filha em cinco anos. - Não vou permitir que os paparazzi consigam uma foto do seu rosto.
Arcana estendeu a mão e fechou a cortina de veludo. Seus movimentos eram fluidos, controlados. Ela se recostou, a coluna sem tocar o assento.
- Você parece um fantasma - disse Gema. Sua voz era aguda, quebradiça. - A comida lá dentro deve ter sido lixo. Você está esquelética.
Arcana olhou para a irmã. Não piscou. Apenas observou o pulso de Gema vibrar em sua garganta.
Gema estremeceu e desviou o olhar.
Triunfo abriu sua bolsa de pele de crocodilo. Tirou um documento grosso e o jogou na pequena mesa de nogueira entre elas.
Aterrissou com um tapa pesado.
- Assine - disse Triunfo. - A família arranjou uma mesada. Você pega o dinheiro, vai para a Europa e nunca mais volta a Nova York. Você está morta para esta cidade.
Arcana olhou para baixo. Acordo de Renúncia de Fundo Fiduciário. Acordo de Confidencialidade.
- E se eu não assinar? - perguntou Arcana. Sua voz estava rouca pelo desuso.
- Gavião e eu vamos noivar no mês que vem - deixou escapar Gema, um sorriso cruel tocando seus lábios. - Ele não precisa da ex-noiva presidiária rondando por aí.
Ela enfiou a mão na própria bolsa, tirou um cartão de crédito preto e o jogou na mesa. Ele deslizou pela madeira polida e parou ao lado dos documentos.
- Aqui. Para uma passagem de ônibus para fora da cidade. Não diga que nunca te demos nada.
O dedo de Arcana se contraiu. Apenas uma vez.
- Você não tem vantagem nenhuma - disparou Triunfo, tomando um gole de seu champanhe. - Você é uma mancha nesta família. Você assina ou morre de fome.
Arcana se inclinou para frente. O ar no carro mudou. Tornou-se pesado, sufocante. Uma leve onda de náusea a percorreu, uma companheira familiar nas últimas semanas. Ela a empurrou para baixo, transformando a fraqueza em gelo.
- Vocês me mandaram para lá - disse Arcana suavemente. - Você e Gavião. Temos muita contabilidade para fazer.
O rosto de Triunfo ficou vermelho. Ela abriu a boca para gritar.
O carro foi jogado violentamente para o lado.
Metal guinchou contra metal. O impacto jogou Arcana contra o painel lateral. A taça de champanhe de Triunfo estilhaçou, espalhando líquido e cacos por toda parte.
- Madame! - a voz do motorista estalou pelo interfone, em pânico. - Estamos sendo abalroados! Três SUVs! Sem placas!