Já é tarde, quando passo pelos portões de ferro retorcido da casa da minha família. Hoje, particularmente, resolvi vir ver como estavam meus pais e meus avós. Com o trabalho no hospital, mal tenho tempo de vê-los. Porém, quando piso para o interior da sala, penso que deveria ter ido direto para o meu apartamento. Esse assunto de noivado está acabando com o resto de paciência que me sobra, mas estou a um passo de acabar com toda essa safadeza, da parte da minha "noiva", é claro.
- Boa noite, mamãe. Oi, vovó - entro em casa e vejo minha mãe e avó sentadas na sala, conversando alegremente. Dou um beijo na testa de cada uma e me sento na poltrona de frente para elas. - Estão bem animadas, querem dividir o assunto? - pergunto, mas já estou curioso para saber o que está rolando.
- Estamos falando sobre o seu casamento. A Stefany está retornando ao país, então, estamos bem animadas - diz minha avó, que está sentada ao lado da minha mãe.
Não consigo controlar a cara de desgosto que o assunto me traz, e as duas logo percebem. Não é segredo para ninguém que eu não quero me casar, principalmente com Stefany Costa. Nunca gostei dela, mas meus avós insistem nesse casamento, especialmente por eu ser filho único.
Stefany é o tipo de menina mimada, que gosta de tudo do seu jeito. É a mais velha de duas irmãs. Crescemos praticamente juntos, eu sendo mais velho que ela, pelo menos seis anos. Estudávamos na mesma escola, onde ela enchia a boca para dizer que era minha namorada, mas nunca aceitei esse título. Dei graças por terminar os estudos e iniciar a faculdade; como escolhi um curso totalmente diferente do dela, ela acabou indo embora para outro país, retornando ao menos uma vez ao ano para visitar a família.
Ela é uma mulher muito bonita, sempre foi, não posso negar. Desde menina, encantava o sexo oposto, embora evitasse se envolver com eles, pelo menos na minha presença. Até porque, tinha que se mostrar perfeita, pois era minha prometida, e eu sempre gostei de tudo muito certo. Mas, eu já tinha ouvido, escondido é claro, que um amigo ou outro havia "pegado" ela no escurinho, no caminho de casa.
A partir do momento em que ouvi isso pela primeira vez, decidi, ali naquela hora, nunca mais me envolver com ela, pois não era digna. Eu já não a suportava, então, para mim, aquilo foi a gota d'água. Porém, como eu iria provar que ela era esse tipo de pessoa? Como iria entrar na cabeça dura dos meus avós que ela estava traindo o compromisso feito? Pois bem, tudo se comprova com testemunhas ou provas concretas, e era isso o que eu estava fazendo: juntando tudo.
Certamente, eu já havia avisado que não me casaria. O motivo? Também expliquei. Mas fazer nossos avós entenderem estava bem complicado. Deixava então o assunto rolar e somente ouvia, até que chegasse o momento certo, que estava bem próximo, aliás.
- Vocês sabem a minha opinião quanto a esse assunto. Stefany não é a santa que se propaga para todos - falo, levantando-me da poltrona, onde estava confortavelmente instalado.
- Esse compromisso foi selado por nós. Escolhemos a melhor do nosso círculo social, então não me venha com essa que não irá se casar! - Minha avó diz, novamente.
- Fico imaginando a pior - resmungo para mim mesmo, mas elas ouvem.
- O que disse, seu pirralho? - Minha avó levanta a cabeça e me desfere um olhar digno de reprovação. - Eu não aceito outra neta que não seja ela. Stefany pode ter seus defeitos, mas é uma boa menina, estudiosa e educada.
- Só essas qualidades ela possui, né, vovó? Porque honrar com o nosso compromisso, isso ela não fez muito bem.
- Esse assunto novamente?! Sugiro que o guarde para você. Logo sua noiva estará de volta, e já iremos marcar um jantar entre a família para decidirmos as datas comemorativas. - Minha mãe apenas observa a guerra que se instala ali, toda vez que a palavra "casamento" é mencionada.
- Estou cansado desse assunto. Vou para o meu quarto, o plantão foi pesado hoje.
- Volta aqui, menino! Eu ainda não terminei de falar! - Estou subindo a escada, quando ouço minha avó gritar da sala, porém minha mãe tenta acalmá-la.
- Calma, mamãe. Deixe que falo com ele.
Termino de subir os degraus, indo diretamente para o meu conforto, mais conhecido como quarto. Ali, eu tinha a tranquilidade e sossego de que tanto gostava, principalmente pós-plantão. Fui direto para o banheiro, deixando meu jaleco pendurado devidamente em seu lugar. Mesmo estando sujo, tomo muito cuidado, por ser meu objeto de trabalho mais importante.
Ligo a ducha na água quente, para tomar um banho relaxante, porém rápido. Assim que termino, a desligo e me enxugo, enrolando a toalha na cintura. Estou com os músculos tensos, então me jogo confortavelmente em minha cama. Permaneço ali por vários minutos, com os olhos fechados, apenas buscando relaxar meu corpo. Quando sinto o meu celular vibrar, já até imagino quem seja, por isso, nem me atrevo a olhar a tela, apenas atendo à chamada.
- Estragou o meu momento de paz. O que é raro!
- É um privilégio para você a minha ligação, então não reclame. Deveria ter escolhido outra profissão. - Meu melhor amigo, Alex, fala do outro lado da linha.
- O que você quer? Fala logo! Estou cansado e quero continuar com meu momento de paz.
- A Abigail me ligou para dizer que encontrou a Stefany. Ela disse que, entre dois a três meses, estará de volta.
- Tão rápido assim? Sabia que estava voltando, mas não esperava que fosse agora.
- Então, liguei para informar o noivinho feliz. - Ele dá uma gargalhada alta, o que me faz afastar o telefone do ouvido.
- Idiota! Sempre feliz com a desgraça alheia, né?! Mas isso será por pouco tempo, logo acabo com essa alegria toda.
Conversamos mais um tempo, marcamos um jantar e, enfim, desligamos. Agora sim, poderei curtir o meu bom e delicioso quarto. Porém, uma batida na porta me faz repensar no descanso. Não é possível! Autorizo a entrada da pessoa atrás da porta, então a maçaneta gira e minha mãe entra.
- Oi, meu filho. Posso entrar?
- Claro, mamãe, entre. Vou vestir uma calça e já retorno - falo, levantando-me e indo em direção ao meu closet. Retorno em seguida, devidamente vestido, com uma calça e uma camiseta. Encontro minha mãe sentada na beirada da minha cama, onde me coloco ao lado dela. Ela pega em minha mão e começa:
- Filho, me desculpe por sua avó. Sabemos que, às vezes, ela excede um pouquinho, então a perdoe. - Ela inicia com o famoso pedido de desculpas de sempre. Meus pais são mais maleáveis, principalmente quando o assunto é o meu casamento.
- Eu sei, mamãe, por isso já não discuto mais. Simplesmente a deixo falar. Contudo, eu não estou feliz com esse assunto, especialmente conhecendo a Stefany como eu a conheço.
- Eu e seu pai te apoiamos em suas decisões. Apenas faço parte das conversas com sua avó pelo fato de respeitá-la. No entanto, o mais importante, meu filho, é a sua felicidade. Somente faça o que é correto, como sempre te ensinamos.
- Sim, mamãe, eu agradeço muito pelo apoio seu e do papai. Isso me deixa bem mais aliviado. Realmente, eu não quero me casar. Apesar de estar muito bem posicionado na minha carreira, sinto que ainda não é o momento de tomar uma decisão, pelo menos, não agora.
- Só quero que escolha alguém que realmente te faça feliz. Irá acontecer naturalmente. Você já não é mais um menino, meu filho. Eu e seu pai já estamos ficando velhos, queremos netos correndo pela casa. - Ela fala e sorri; eu retribuo o sorriso gentil que ela me direciona.
Meus pais se casaram novos. Devido à diversão, ela acabou ficando grávida e foi obrigada a se casar. Apesar disso, eles se amavam muito. Na época, minha mãe ainda estava decidindo o que fazer da vida, e acabou não cursando faculdade, deixando essa parte para o meu pai, que já estava estudando medicina.
Quando ele se formou, montou um pequeno consultório, onde minha mãe o ajudava com as consultas. Os pacientes foram chegando e as especialidades do meu pai foram aumentando, o que acarretou ter que admitir alguns funcionários. Porém, três anos após, aquele espaço também ficou pequeno. E em poucos anos, ele conseguiu construir um hospital.
Hoje, sou o responsável pelo hospital. No início, ficava por conta somente dos atendimentos, o que mais amo. Então, meu pai decidiu se aposentar, e foi quando assumi a presidência.
Sou feliz assim. Atualmente, aos trinta e quatro anos, montei uma equipe ótima que me ajuda com tudo. Portanto, posso finalmente exercer minha função: ser médico em tempo integral. Foi complicado no início, pois meus pais diziam que eu deveria tomar conta de tudo. Mas, com muita conversa, eles aceitaram o que eu tinha em mente, e sou muito grato por isso.