Eu me tornei uma história de advertência, a chef talentosa que não conseguiu manter o marido nem proteger suas ideias. Minha reputação foi destruída e fui forçada a desaparecer.
Por seis anos, eu me reconstruí das cinzas, administrando minha própria pequena confeitaria, encontrando paz em minha vida tranquila e ferozmente independente.
Eu pensei que esse capítulo estava encerrado.
Mas então eles invadiram minha loja, prontos para me destruir mais uma vez. Eles vieram para estilhaçar minha nova vida, mas cometeram um erro fatal.
Eles não tinham a menor ideia de quem era meu novo marido.
Capítulo 1
Meu marido roubou a minha vida. Ele não apenas pegou o conceito inovador de sobremesas, ele levou tudo que importava. Seis anos atrás, meu mundo desmoronou, não deixando nada além de poeira e o gosto amargo da traição.
Eu observava Daniel, meu marido, meu mentor, do outro lado da cozinha. O celular dele, geralmente colado em sua mão, estava agora virado para baixo no balcão. Ele não parava de olhar para o aparelho, um tique nervoso no maxilar. Este não era o Daniel confiante que eu conhecia. Este era um homem escondendo algo.
Meu estômago se revirou. Tentei afastar a sensação inquietante, mas ela se agarrou a mim como o cheiro de açúcar queimado. Nós sempre fomos uma equipe, a ambição dele alimentando a minha. Ou assim eu pensava.
Decidi que falaria com ele esta noite. Precisávamos limpar o ar, qualquer que fosse o "ar" a ser limpo. Meu coração batia forte com uma mistura de medo e esperança ingênua.
Na manhã seguinte, os papéis do divórcio chegaram. Não por ele. Por um advogado de quem eu nunca tinha ouvido falar. O envelope era grosso, o papel, nítido. Parecia um soco no meu peito. Minhas mãos tremiam enquanto eu lia as palavras. Tinha acabado. Simples assim.
Dias depois, seu novo relacionamento estava em todas as redes sociais. Daniel, de braços dados com Celina, minha estagiária, a garota que eu pacientemente ensinei a temperar chocolate e a confeitar ganache. Seus sorrisos eram doentiamente brilhantes, uma declaração pública da minha substituição.
Eu me tornei o sussurro em todos os restaurantes, a história de advertência em todas as escolas de culinária. "Pobre Alice", diziam eles, "tão talentosa, mas não conseguiu segurar o homem nem as receitas." A humilhação era um rubor constante e ardente em minhas bochechas. Eu só queria desaparecer.
E eu desapareci. Seis anos. Seis anos de silêncio, de reconstrução, de aprender a respirar novamente. Eu ressurgi em um canto tranquilo de São Paulo, dona do "O Grão Dourado", uma pequena confeitaria de doces finos. Minha vida era simples, meticulosamente elaborada e ferozmente independente.
O sino acima da porta tocou, um som geralmente associado à alegria. Mas desta vez, ele enviou um calafrio pela minha espinha. Daniel Roberson estava ali, emoldurado pela porta. Ele parecia mais velho, um pouco mais pesado, mas ainda possuía aquele carisma irritante que um dia me cativou.
Seus olhos varreram a confeitaria aconchegante, depois pousaram em mim, atrás do balcão. Seu queixo caiu. A muralha cuidadosamente construída ao redor do meu coração rachou apenas um milímetro. Ele não esperava me ver. O choque em seu rosto era quase cômico. Quase.
Ele se recuperou rapidamente, um sorriso ensaiado se formando. Do tipo falso, aquele que ele usava para investidores e críticos.
"Alice", disse ele, sua voz um pouco alta demais, um pouco casual demais. "Que surpresa."
Eu não vacilei. Apenas olhei para ele, minha expressão em branco.
"Posso ajudar, senhor?"
Era uma pergunta profissional, dita sem calor.
Seu sorriso vacilou.
"Senhor?" Ele riu, um som oco. "Este lugar é seu?"
"Sim", respondi, minha voz firme. "O Grão Dourado. Somos especializados em doces artesanais. Como posso ajudá-lo hoje?"
Ele engoliu em seco, seu olhar percorrendo a loja. O cheiro de brioche quente, avelãs torradas e baunilha vinha da cozinha. Era a mesma sinfonia de aromas que um dia preencheu nossa casa, nosso sonho compartilhado. Seu rosto se contraiu.
Ele se lembra, pensei. Ele se lembra do que jogou fora. Foi uma satisfação silenciosa, uma pequena vitória em uma guerra que eu pensei ter perdido.
Ele não se moveu. Apenas ficou ali, uma estranha mistura de curiosidade e desconforto gravada em suas feições. Clientes entravam e saíam, alheios à história que se desenrolava diante deles. Eu me mantive ocupada, limpando o balcão, arrumando uma nova leva de tortinhas de limão. Qualquer coisa para evitar seu olhar.
"Alice", ele finalmente disse, sua voz mais suave agora, quase um apelo. "Nós costumávamos falar sobre um lugar como este, lembra?"
Uma risada amarga ameaçou escapar. Eu me lembrava. Eu me lembrava de tudo.
A memória me atingiu, nítida e repentina. Éramos jovens, vibrantes, cheios de sonhos. O braço dele estava em volta de mim, me puxando para perto enquanto desenhávamos ideias em um guardanapo. O aroma de café e possibilidade enchia o ar.
"É isso, Alice", ele sussurrou, beijando o topo da minha cabeça. "Nosso império. Construído com o seu talento e a minha visão. Faremos o mundo provar a magia."
Eu acreditei nele. Em cada palavra. Eu derramei meu coração e minha alma naquela visão compartilhada, confiei a ele meus sonhos, meu próprio futuro.
Agora, parada aqui, o cheiro do meu brioche enchendo minha confeitaria, o contraste era brutal. Ele não era meu futuro. Ele era um fantasma de um passado que eu havia enterrado meticulosamente.
"Temos uma promoção nos nossos financiers clássicos hoje", ofereci, minha voz plana, me puxando de volta para o presente. "São feitos com farinha de amêndoas e manteiga noisette, do jeito que você sempre gostou."
A ironia tinha gosto de cinzas na minha boca. Ele amava aqueles doces. Ele me amava.
Seus olhos se arregalaram, um brilho de algo indecifrável passando por eles. Culpa? Arrependimento? Eu não me importava.
O toque agudo de seu telefone cortou o silêncio. Ele o pegou, atrapalhado, seus movimentos bruscos. Seu rosto empalideceu ao ver o identificador de chamadas. Ele se virou de costas para mim, sua voz baixa, quase frenética.
"Celina, eu te disse que ia me atrasar um pouco. Sim, estou só... resolvendo uma coisa."
Minha raiva, há muito adormecida, se agitou. Celina. O nome era um sussurro venenoso em minha mente. A garota que me olhava com uma admiração tão inocente, apenas para cravar a faca mais fundo do que qualquer outra pessoa. Eu já senti uma fúria ardente, um desejo de vingança. Mas aquela era uma Alice diferente. Esta Alice estava calma. Indiferente. Quase.
Ele desligou, os ombros caídos. Evitou meu olhar, um rubor subindo por seu pescoço.
"Alice, eu... eu posso explicar."
Eu me abaixei sob o balcão e peguei uma pequena caixa cuidadosamente embrulhada. Dentro, havia um único financier, perfeitamente dourado.
"Não precisa", eu disse, minha voz desprovida de emoção. "Este é por conta da casa. Pelos velhos tempos."
Empurrei a caixa pelo balcão em sua direção.
Ele olhou para o financier, depois para o meu rosto. Seus olhos, antes tão cheios de um futuro que havíamos planejado, estavam agora nublados por um arrependimento desesperado e patético. Ele sabia exatamente o que aquilo significava. Um presente de despedida. Um encerramento final e inequívoco.
Ele murmurou algo, um som engasgado que não consegui decifrar, e virou nos calcanhares, quase correndo para fora da porta. O sino soou como o acorde final de uma melodia esquecida.
"Quem era aquele, Alice?" Lina, minha jovem aprendiz, perguntou, com os olhos arregalados de curiosidade. Ela não o tinha visto direito, apenas as costas de sua figura em retirada.
"Apenas um velho conhecido", respondi, forçando um sorriso. "Agora, vamos focar nessas casquinhas de macaron. Lembre-se, precisão é a chave."
Lina, sempre observadora, franziu a testa.
"Ele parecia muito... intenso. E um pouco triste. Não como o tipo arrogante de que você às vezes me fala."
Eu apenas assenti, um pequeno sorriso de conhecimento brincando em meus lábios. Ah, ele já foi arrogante. O rei de seu próprio pequeno império, construído sobre meus sonhos roubados. Ele ainda era, em seu próprio mundo. Mas no meu mundo, ele era apenas um cliente que saiu sem comprar nada.
Pensei que seria o fim. Um encontro casual, um fantasma exorcizado. Mas enquanto eu trancava "O Grão Dourado" naquela noite, o sol poente lançando longas sombras, um pavor frio se instalou em meu estômago. O passado raramente fica enterrado.
Caminhei para casa, o ar frio da noite um contraste gritante com o calor que me esperava. Arthur, meu marido, provavelmente já estava em casa, preparando o jantar. Sua força tranquila, seu apoio inabalável, era a base da minha nova vida. Era uma vida que eu valorizava, uma vida que eu protegeria a todo custo.
Mal sabia eu que o fantasma do meu passado apenas começara a se agitar. E amanhã, outro espectro, ainda mais venenoso, chegaria, ameaçando estilhaçar a paz frágil que eu havia construído. O sino tocaria novamente, anunciando uma tempestade.