"Você sempre foi boazinha demais, Sera", ele debochou, rasgando minha pele enquanto eu implorava por misericórdia.
Eu morri naquela sala fria e escura, engasgando com meu próprio sangue e com o gosto amargo da traição.
Mas eu não continuei morta.
Acordei ofegante, agarrando um peito que estava liso e sem cicatrizes.
O calendário na minha mesa de cabeceira marcava 12 de maio de 2018.
Cinco anos atrás. A mesma manhã em que eu deveria assinar o contrato de casamento que selaria meu destino.
Olhei para o papel sobre a penteadeira.
Na minha vida passada, eu o assinei com a mão trêmula.
Desta vez, abri meu Zippo de prata e observei as chamas devorarem o nome de Lucas.
Eu não fiz uma mala com vestidos. Fiz uma mala com uma pistola e uma pilha de dinheiro.
Eu estava indo para o Rio de Janeiro.
Havia apenas um homem perigoso o suficiente para me ajudar a destruir as famílias de São Paulo.
Entrei no clube de luta clandestino, cruzei o olhar com o homem mais letal da sala e sorri.
"Dante Castilho", eu disse.
"Estou aqui para fazer de você um Rei."
Capítulo 1
Serafina POV
A sensação fantasma de uma faca serrilhada rasgando minha pele me acordou aos gritos, embora o som tenha morrido na minha garganta.
Meus pulmões se esforçavam, desesperados por um ar que não cheirasse a mofo e sangue seco. Arranhei meu peito, esperando encontrar o corte que Lucas havia deixado ali, mas meus dedos encontraram uma pele lisa e intacta.
A seda cara da minha camisola grudava no meu corpo encharcado de suor.
Eu não estava no porão. Eu não estava morta.
Tateei em busca do celular na mesa de cabeceira. A luz me cegou por um segundo antes que os números entrassem em foco.
12 de maio de 2018.
Cinco anos atrás. Cinco anos antes de Mila envenenar minha mãe. Cinco anos antes de Lucas Veiga, o homem com quem eu deveria me casar, ver seus homens me arrastarem para a escuridão.
Sentei-me na beira da cama, minhas mãos tremendo. O silêncio da mansão Monteiro era pesado, sufocante. Lá embaixo, eu sabia que meu pai provavelmente estava bebendo um uísque caro em seu escritório, orgulhoso por ter garantido uma união com a família Veiga.
Sobre a penteadeira estava o contrato. O papel era grosso, cor de creme e irrevogável. Um casamento arranjado com Lucas Veiga, um chefe em ascensão que eventualmente se tornaria um monstro.
Levantei-me. Minhas pernas pareciam fracas, mas minha mente se aguçava a cada segundo. O pavor da câmara de tortura estava desaparecendo, substituído por uma pedra fria e dura no centro do meu peito.
Caminhei até a penteadeira e encarei o espelho. A garota que me olhava de volta tinha vinte e um anos, era linda e ingênua. Mas seus olhos eram antigos. Eram os olhos de uma mulher que tinha visto o próprio túmulo.
Peguei o contrato.
Na minha vida passada, eu o assinei. Tentei ser a Princesa da Máfia perfeita. Tentei ser gentil com Mila, a filha ilegítima do meu pai, mesmo quando ela me olhava com uma inveja que podia descascar a pintura da parede.
Essa bondade me matou.
Caminhei até a lareira. Não me preocupei em procurar um fósforo. Usei o isqueiro que Lucas me deu de presente de noivado, um Zippo de prata gravado com nossas iniciais.
Acendi a chama. Ela dançou, faminta e brilhante.
Segurei a ponta do contrato de casamento contra o fogo. O papel se curvou, ficando preto, depois cinza. Observei as chamas devorarem meu nome. Observei-as devorarem o nome de Lucas.
Parecia a primeira respiração profunda que eu dava em anos.
Não fiz mala de roupas. Roupas eram pesadas. Fiz uma mala de dinheiro. Abri o cofre atrás do quadro da Virgem Maria - um cofre que meu pai achava que só ele sabia a combinação. Peguei cada maço de notas lá dentro.
Peguei meu passaporte.
Fui até a escrivaninha e puxei uma folha de papel timbrado. Não escrevi um adeus choroso. Não implorei por perdão.
*Eu me demito.*
Duas palavras. Era tudo o que eles mereciam.
Deslizei uma pequena pistola com cabo de madrepérola para dentro da minha bolsa. Era uma peça decorativa, feita para uma dama, mas ainda podia fazer um buraco em um homem se ele chegasse perto demais.
Saí pela porta do meu quarto e não olhei para trás. O corredor estava escuro. Movi-me como um fantasma, do jeito que aprendi a me mover quando tentava evitar o temperamento de Lucas no futuro.
Saí pela entrada de serviço. O ar da noite estava frio contra minha pele quente.
Um sedã preto esperava no final da entrada de carros. Eu havia chamado o serviço três minutos depois de acordar.
"Para onde, senhorita?", perguntou o motorista, seus olhos me analisando pelo retrovisor.
"Para o aeroporto", eu disse.
"E depois?"
"Rio de Janeiro", sussurrei.
São Paulo era uma jaula. O Rio era uma selva. E na selva, você não precisava de pedigree. Você só precisava de dentes.