Passo as noites aqui em cima dessa cruz, vendo as pessoas lá embaixo.
Elas parecem pequenas e totalmente indefesas, consigo sentir o que elas estão sentindo pelo cheiro do seu sangue.
Vejo aquela senhora, sua expressão é de cansaço, mas seu sangue transmite satisfação pelo dia finalizado, já aquela jovem que talvez tenha uns 20 e poucos anos está sorrindo com os amigos, mas seu sangue transmite uma tristeza profunda, um vazio que parece que nunca será preenchido.
Aquele rapaz que parece ter por volta de 30 anos com a moça em seus braços a beija intensamente, mas seu sangue transmite repulsa pelo ato.
Essas pessoas nem sabem que eu existo, não porque a Madre Margareth e o Bispo Bento me mantêm em segredo, mas porque aos meus oito anos tive um trágico acidente e causei a morte de uma criança da mesma idade que a minha.
Frequentava a escola católica como toda criança dessa vila. Tinha uma criança, que era muito próxima a mim: Alice. Nesse dia ela estava brincando perto do escorregador, acidentalmente ela se cortou em uma pedra pontiaguda quando apoiou as pequenas mãos no chão para se levantar.
Foi a primeira vez que o sangue mudou de cheiro pra mim, em vez de sentir sua dor, senti desejo de provar aquele sangue que tinha o aroma adocicado, quando percebi, já estava com meus dentes cravados no pescoço de Alice, ela não soltou um grito de dor, soltou um gemido baixinho de incômodo, o gosto de seu sangue era viciante para mim, não consegui me controlar e senti sua vida se esvaindo em meus braços.
Cada segundo que sentia sua vida indo, eu sentia uma forte sensação de satisfação e ao mesmo tempo angústia. Os adultos estavam tentando me afastar dela, as crianças gritavam e choravam, seu sentimento era de terror; só consegui parar quando não restava mais vida em seu corpo. Bispo Bento entrou em desespero ao saber o que aconteceu, o que dizer aos pais sem revelar que ele protegia na sua congregação um monstro como eu.
Tiveram que me manter longe de todos para a segurança deles e, de certa forma, a minha também.
Já se passaram oito anos, e nesta manhã a Madre Margareth conversou comigo dizendo que muita coisa iria acontecer e não poderia ser evitada, e esses acontecimentos poderiam mudar toda a minha vida.
O que a Madre quis dizer com isso? Não faço ideia, só sei que todos me olham diferente, sinto pelo cheiro do sangue deles que me temem.