Livros e Histórias de Yan Huo San Yue
Nem Uma Palavra Sobre Mim
Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital. O braço direito enfaixado e a cabeça a latejar, um cheiro forte a desinfetante no ar. A minha mãe dormia numa cadeira ao meu lado, mas Pedro, o meu marido, não estava lá. Peguei no telemóvel e vi dezenas de chamadas dele. E uma mensagem que me encheu de um nojo gélido: "Inês, onde estás? A Cláudia não para de chorar. O veterinário disse que o Miau pode não sobreviver à noite. Preciso de ficar aqui para a apoiar. Liga-me quando vires isto." Nem uma única palavra sobre mim. Decidi ligar-lhe. A voz ansiosa do Pedro, sem preocupação genuína, soou: "Finalmente! Onde te meteste? Estou aqui no veterinário, a Cláudia está..." "Pedro", interrompi, a minha voz assustadoramente calma. "Eu tive um acidente de carro." Houve um silêncio. Depois, o suspiro de irritação dele. "Um acidente? Estás bem? O carro ficou muito danificado? Sabes o quão caro é o seguro." Mesmo depois de dizer que estava no hospital, a voz chorosa da minha "melhor amiga", Cláudia, apareceu ao fundo. "Pedro, o veterinário quer falar connosco... Oh, desculpa, estás ao telefone? Inês? Desculpa, a culpa é toda minha. O Pedro está aqui a consolar-me. Ele tem sido um anjo." Um anjo. O meu marido, um anjo para ela, enquanto eu quase morria. Foi então que a decisão se solidificou. "Pedro", disse eu, a minha voz agora firme. "Vamos divorciar-nos." Ele explodiu. "Divórcio? Estás a ser egoísta, Inês! Um pequeno acidente e já queres acabar com tudo?" Um pequeno acidente. Não aguentei mais. Estava farta. Ele podia ter ficado com a Cláudia e o gato. Eu queria a minha vida de volta. Mas a luta estava apenas a começar.
A Mulher Que Sobreviveu ao Fogo e à Mentira
Acordo num hospital. A minha barriga, que por meses carregara vida, estava terrivelmente lisa. O meu bebé, devido numas semanas, desapareceu, levado pelo incêndio no nosso prédio. Liguei ao Miguel, o meu marido, mas ouvi irritação na sua voz. "O que foi, Clara? Estou ocupado." Ao fundo, a voz mimada da Sofia, preocupada com o gato dela, Tufas. "Miguel, perdi o bebé," disse, rouca. Ele prioritizou o gato medroso da Sofia a mim, presa no inferno. Mandou-me "resolver isso" e desligou. A tristeza deu lugar a uma clareza cortante. Os meus sogros ligaram, acusando-me de "drama", defendendo-o. Quando Miguel enfim veio, só viu a sua própria raiva sobre o divórcio, ignorando a minha dor. Eu enfrentei o inferno sozinha, perdi tudo. Como podiam esperar que eu perdoasse? Como fui tão cega, engolindo humilhações por amor? O lugar do meu amor por ele é um buraco vazio. "Vamos divorciar-nos," anunciei. Peguei na canja "simpática" da Sofia e atirei-a ao chão. "O meu problema são vocês os dois," revelei. O choque nos seus rostos valeu ouro quando mostrei as mensagens: o plano deles para me abandonar. "Agora, desapareçam da minha vida." Desta vez, eu renasceria das cinzas.
