Ayla olhou para as palavras, e seu estômago se revirou com uma onda violenta de náusea. Em seguida, ela jogou o celular no banco de madeira ao lado dela, suas unhas cravadas tão profundamente nas palmas das mãos a ponto de quase rasgar a pele. Ela não voltaria de jeito nenhum, preferindo morrer a deixar que eles a vendessem para um bandido de rua.
Nesse momento, um rangido estridente de pneus ecoou pela rua.
Um Ford sedan velho parou na beira da calçada, enquanto uma fumaça preta e espessa saía do escapamento e formava uma nuvem de cinzas no ar. Ayla tossiu, abanando com a mão na frente do rosto.
Com um rangido metálico nauseante, a porta do motorista se abriu e
um homem saiu. Ele usava uma jaqueta jeans desbotada e barata, como se já tivesse sido lavada mil vezes. Porém, as roupas não combinavam com seu corpo enorme. Seus ombros eram largos, e sua presença imponente imediatamente dominou o ambiente.
Drake estreitou seus olhos escuros, seu olhar atravessando o ar empoeirado e se fixando em Ayla, que parecia pequena ali no seu vestido simples. Ele deu um passo em direção a ela.
Ao vê-lo se aproximar, Ayla ficou tensa, dando um passo cauteloso para trás. A presença do homem era sufocante, carregada de uma intensidade sombria que a fez se sentir aterrorizada.
"Você é... o filho de Phillip Moran?", ela perguntou com a voz trêmula.
Drake enfiou uma mão no bolso e curvou os ombros, numa tentativa de esconder sua postura perfeita.
"Sim, sou eu", ele grunhiu, forçando um sotaque forte do Brooklyn nas suas palavras, disfarçando a pronúncia clara e educada de um bilionário de Wall Street.
Ayla soltou um suspiro de alívio, e seus ombros relaxaram. Em seguida, ela pegou sua bolsa de lona e tirou duas folhas de papel impressas, as estendendo para ele.
"Aqui está o acordo", disse ela, com os olhos arregalados e desesperados.
Drake pegou os papéis finos, enquanto seus olhos percorriam o texto barato e mal formatado. Ele teve que morder a bochecha para não rir, achando que aquilo era uma desculpa completamente patética para um documento legal. Erguendo uma sobrancelha, ele se fez de desentendido e perguntou com uma voz lenta e confusa:
"O que é isso?"
Ayla achou que ele não havia entendido as palavras difíceis, então sua expressão se suavizou para um olhar paciente e gentil.
"Isso só diz que nossas finanças ficarão separadas. Não vou tocar no seu dinheiro, e você não tocará no meu. Vamos morar juntos, mas seremos independentes", ela explicou suavemente.
Drake olhou para os olhos claros e sinceros dela, e algo estranho se agitou no seu peito. Ele odiava caçadoras de dinheiro e todo esse acordo que seu pai havia lhe imposto. Mas, ao olhar para ela, esse ódio pareceu se dissipar por um instante.
Ele precisava testá-la, vê-la fugir.
"Olhe, moça. Sou motorista de Uber e acabei de ser banido de uma conta corporativa. Mal consigo ganhar o suficiente para comer. Talvez eu nem consiga pagar o aluguel no próximo mês. Tem certeza de que quer se casar com um fracassado?", perguntou Drake num tom ríspido, esfregando a nuca.
Ayla não se deixou intimidar. Erguendo o queixo, ela disse com firmeza:
"Tenho um emprego. Sou professora e recebo um salário fixo. Posso pagar metade das contas. Se você não conseguir, eu posso arcar com o restante."
As palavras atingiram Drake em cheio, o fazendo cerrar o maxilar. Ele a encarou, procurando a mentira nos seus olhos, mas não encontrou nada. Um brilho sombrio e indecifrável surgiu nas suas pupilas.
Pegando uma caneta de plástico barata do bolso, ele rabiscou seu nome na última linha.
Então, eles entraram na prefeitura. O prédio estava lotado, e o ar estava impregnado com um cheiro de perfume barato e suor. Acostumado com coberturas luxuosas e privativas, ele detestava aquele lugar sujo e cheio de gente.
De repente, uma mulher corpulenta passou por eles, seu cotovelo atingindo as costelas de Drake com força.
Uma irritação repentina surgiu no peito de Drake, que se virou com um palavrão na ponta da língua, prestes a repreender a mulher descuidada. No entanto, ele viu Ayla o olhando com os olhos arregalados e pedindo desculpas, o fazendo engolir o insulto e soltar um suspiro pesado e irritado. Esfregando as costelas, ele assumiu a postura de um motorista exausto que não tinha energia para brigar.
Ayla o puxou pela manga da camisa até o balcão.
"Você está com sua identidade?", ela perguntou, o tratando como um dos seus alunos do ensino fundamental.
Drake piscou, perplexo com o fato de que ninguém falava com ele assim desde que era criança.
A funcionária atrás do vidro parecia entediada. "Vocês dois estão se casando por vontade própria?"
Drake olhou para as mãos de Ayla, cujos nós dos dedos ficaram brancos de tanto segurar o balcão.
"Sim", ele respondeu, sua voz baixa e firme.
"Sim", Ayla repetiu. Embora sua voz estivesse trêmula, a determinação absoluta no seu tom era inconfundível, mostrando que ela estava determinada a romper com seu passado.
O carimbo de metal pesado foi batido no papel, o som ressoando pelos ouvidos de Ayla. Em seguida, dois certificados de casamento foram entregues, oficializando o vínculo legal entre eles.
Ayla pegou sua cópia, seus olhos ardendo com lágrimas que ameaçavam cair. Soltando um suspiro longo e trêmulo, ela sentiu o fardo esmagador no seu peito finalmente se dissipar. Agora, ela estava segura.
Drake olhou para sua cópia, o canto da sua boca se contraindo num sorriso frio e discreto. O plano para se livrar do seu velho havia começado oficialmente.
Quando eles se viraram para sair do saguão e caminhavam em direção às portas de vidro, Drake avistou de relance um sedã preto discreto parado do outro lado da rua. Não era o Maybach de sempre, mas Drake conhecia os veículos furtivos do seu pai. Instantaneamente, ele mudou sua postura, curvando os ombros para a frente para parecer derrotado e insignificante.
A janela traseira do sedã se abriu o suficiente para revelar o rosto severo de Phillip Moran. Ayla reconheceu o homem mais velho imediatamente, sabendo que foi ele quem organizou tudo isso. Ayla o levou para fora e até a calçada, parando a uma distância respeitosa.
"Senhor Moran, conseguimos", disse Ayla num tom educado, erguendo o certificado para que ele pudesse vê-lo pela janela.
Phillip acenou com a cabeça em satisfação, embora seus olhos observassem as roupas patéticas e desbotadas do filho com uma irritação contida. Então, seu rosto se enrijeceu numa expressão de autoridade absoluta enquanto sua voz ecoava bruscamente pela janela aberta, sem deixar espaço para discussão:
"Ótimo. Agora, vocês dois vão morar juntos imediatamente. Não vou deixar meu filho morar na rua enquanto está casado. Vocês vão morar sob o mesmo teto, ou o acordo será cancelado."
Os olhos de Ayla se arregalaram em choque, e seu coração disparou. Ela virou a cabeça, olhando para Drake em busca de ajuda.
Drake cerrou os dentes, encarando o pai e percebeu a ameaça silenciosa nos olhos do velho. Ele havia planejado deixá-la num hotel e ir embora, mas agora seu pai estava o forçando a agir.
Soltando um suspiro pesado e fingido, Drake deu de ombros.
"Tudo bem. Vamos morar juntos", ele murmurou, interpretando o papel de filho derrotado.