Veyra esboçou um sorriso sem graça.
"Desculpe. Você deve comandar uma empresa ou coisa parecida. Tem jeito de chefe."
"Eu? Não." A mulher acenou com a mão bem-cuidada. "Mas meu protetor, sim. Quando não viajo de executiva, ele manda um jatinho particular."
"Um protetor", repetiu Veyra. "Deve ser difícil encontrar alguém assim."
"Nem tanto." Os lábios da mulher se curvaram num sorriso. "Sou subordinada dele. Vivo cometendo erros custosos no trabalho. Ele me dá bronca até eu chorar e depois..." Ela sorriu, deixando o resto para a imaginação.
Um leve arrepio percorreu a espinha de Veyra, embora ela não soubesse explicar o porquê. "Engraçado", disse ela devagar. "Meu marido também tem uma colega assim. Vive cometendo erros."
"Você é casada?" A mulher percorreu Veyra com um olhar avaliador. "Por falar nisso, a esposa dele deve ter mais ou menos a sua idade."
Em seguida, examinou as próprias unhas.
"Ele diz que já se cansou dela há muito tempo. Que tocar nela parece mexer em uma coisa velha. Muito menos interessante do que me ver jogar o cabelo."
O estômago de Veyra se revirou, daquele jeito que acontece antes de entender o motivo.
"Falei que queria passar o feriado com ele", continuou a mulher, satisfeita consigo mesma. "Então ele disse à esposa que precisava trabalhar."
Foi então que Veyra viu.
O anel no dedo da mulher.
Um diamante lapidado exatamente como a aliança que ela havia perdido no ano anterior.
Ficou paralisada.
Caspian é apenas um funcionário comum, pensou. Então se acalme. Anéis parecidos não significam nada.
Mesmo assim, não conseguia desviar os olhos.
"Essa é uma aliança de casamento", disse Veyra, estranhando o som da própria voz. "Você se casou com ele?"
"Essa daqui?" A mulher, que havia se apresentado como Xiomara, ergueu a mão e admirou a pedra sob a luz da cabine. "Fiz ele tirar da esposa e me dar."
O ar sumiu dos pulmões de Veyra.
"Sinceramente, não queria causar problemas para ela", disse Xiomara. "Mas, no dia do meu aniversário, ela sofreu um aborto espontâneo e arrastou ele para o hospital. Passei o dia inteiro sozinha."
Sem perceber, Veyra levou a mão ao ventre.
A lembrança voltou inteira, fria como gelo: a placa congelada no caminho de volta do mercado, a queda que não vira chegar, três meses de gravidez e, depois, nada além de sangue sobre o concreto gelado.
Caspian permanecera ao lado da cama durante três dias, sem dormir. Quando acordou, Veyra descobriu que a aliança desaparecera junto com o bebê.
"Vai ficar tudo bem", dissera ele, com a voz falhando. "Vamos ter outro bebê. Vou mandar fazer uma aliança nova para você."
"Não faça isso", respondera. "Estão demitindo funcionários. Guarde o dinheiro. Quando puder, me dê outra."
Na época, acreditara que aquilo era um pequeno sacrifício. Não sabia que estava abrindo mão da própria aliança para uma mulher que nem sequer conhecia.
"Então ele deu a aliança da esposa para você", disse Veyra com cautela.
"No começo, não queria. Disse que compraria uma melhor para mim." Xiomara inclinou a mão, acompanhando o brilho que deslizava pelo diamante. "Mas aquela coisa velha se acha superior só porque é a esposa. Se ninguém colocar ela no devido lugar, vai acabar achando que é dona do mundo."
"Quando uma mulher se deixa chegar a esse ponto de humilhação", acrescentou Xiomara, quase com doçura, "não tem mais salvação."
Os dedos de Veyra encontraram a barra da manga e se fecharam sobre o tecido.
"Se ele gasta tanto com você, deve pagar uma fortuna para manter a esposa calada."
Xiomara riu com leveza e se inclinou para tão perto que o perfume virou uma barreira entre as duas.
"Essa é a melhor parte", sussurrou. "Aquela mulher patética nem sabe que ele é dono de uma empresa."
"Por que esconder isso dela?", perguntou Veyra.
Algo dentro dela ainda alimentava a esperança - tola e teimosa - de que houvesse uma explicação, qualquer uma, que não levasse ao desfecho que já imaginava.
"Que diferença faria?" Xiomara virou as unhas na direção da janela. "Ela já desperdiçou os melhores anos da vida se matando de trabalhar ao lado dele enquanto ele construía tudo. Se você fosse homem e finalmente tivesse vencido na vida, continuaria gastando dinheiro com uma esposa acabada? Dinheiro nenhum traz a juventude de volta."
Veyra viu o próprio reflexo no vidro da cabine: bochechas fundas, olheiras marcadas, dez anos de dificuldades gravados na pele.
Já fora mais bonita. Já se parecera com Xiomara.
"Sabe, amiga, você ainda tem um restinho de beleza", disse Xiomara, examinando Veyra. "Uns retoques estéticos não fariam mal. Seu marido não anda muito interessado ultimamente, não é?"
Veyra ficou em silêncio.
"Meu protetor me dá meio milhão por mês só para as despesas do dia a dia", acrescentou Xiomara sem que ninguém perguntasse, indiferente. "Procedimentos estéticos são pagos à parte."
"Há quanto tempo..." Veyra precisou se obrigar a continuar. "Há quanto tempo isso está acontecendo?"
"Desde doze de junho do ano passado." Xiomara voltou a conferir as unhas, já entediada com a pergunta.
Veyra apertou a manga com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.
Doze de junho.
O dia em que sua mãe precisara de quinhentos mil dólares para uma cirurgia que nunca chegara a fazer.
Caspian implorara por ajuda a todos os conhecidos e voltara com trezentos e cinquenta mil.
"É tudo o que tenho", dissera entre lágrimas.
Veyra acreditara. Conseguira juntar mais oitenta mil por conta própria e, ainda assim, vira a mãe morrer porque faltavam setenta mil dólares.
"Me perdoe", murmurara Caspian contra o cabelo dela. "Não sirvo para nada. Nem consegui salvar sua mãe."
Em vez de enxugar as próprias lágrimas, Veyra enxugara as dele.
"Você deu tudo o que tinha. Já é mais do que suficiente. Espere só mais um pouco", dissera.
Ele agarrara a mão dela como um homem se afogando e jurara que não sofreriam para sempre.
Mas tivera os outros cento e cinquenta mil durante todo aquele tempo.
"Que curioso", disse Xiomara, observando Veyra agora com interesse genuíno. "A mãe daquela mulher precisou de exatamente quinhentos mil naquele mesmo mês."
Veyra encarou Xiomara sem dizer uma única palavra.
Xiomara piscou.
"Ele pretendia pagar. No começo."
"Você ficou com o dinheiro", disse Veyra. "Como mesada."
"Ah, por favor! Ele tem muito mais de onde saiu aquele dinheiro. Só falei uma coisa: assim que a mãe dela morresse, aquela mulher ficaria sem família. Sem ter para onde ir. Se um dia descobrisse que ele me sustenta, jamais teria coragem de fazer escândalo." Xiomara sorriu, satisfeita como uma gata. "Eu queria uma peça da Chanel naquele mês. Custava quinhentos mil, por coincidência."
"Não tem medo de que ela descubra?"
"Sou esperta demais para isso." Xiomara se espreguiçou, satisfeita. "A ideia foi minha. Ele diria à esposa que juntara tudo o que podia e deixaria ela acreditar que dera o máximo de si. Assim, ficaria grata demais e se sentiria culpada demais por não ter conseguido o restante. Nunca desconfiaria que havia outra mulher na história."
Então, como se fosse apenas um detalhe sem importância, acrescentou a última peça.
"A parte irritante é que ele só concordou porque queria garantir que, caso alguém me descobrisse, a preciosa esposa não abandonaria ele." Xiomara bufou. "Tsc. Tem mulher que nasce com sorte."
O tapa acertou o rosto de Xiomara antes mesmo que Veyra percebesse que decidira bater.
"O que há de errado com você?" guinchou Xiomara, levando a mão à bochecha.