Estava grávida?
Grávida de um filho de Pierce.
Meu melhor amigo. Minha primeira paixão.
Ao sair do hospital, mal conseguia esperar para contar a novidade a ele. Fiquei imaginando qual seria sua reação. Será que gritaria de felicidade? Será que me beijaria? Meu Deus, eu mal conseguia conter a alegria.
Cobri o rosto quente com as mãos enquanto fantasiava. Mas, no instante em que senti o frio da aliança simples no meu dedo, meu coração, que batia descontrolado, começou a se acalmar.
Quase me esqueci de que Pierce não era exatamente o tipo de homem que se animava com a ideia de ter filhos. Ainda mais porque nosso casamento havia sido arranjado pela família dele.
Pierce era um verdadeiro cavalheiro, tanto como amigo quanto como marido. Sempre que fazíamos amor, era atencioso, mas também cuidadoso. Costumava dizer que não havia motivo para acrescentar novas amarras entre nós se ainda não estivéssemos prontos.
De certa forma, aquele bebê não estava nos planos.
Minha mente ficou cada vez mais inquieta enquanto eu estava sentada no carro.
Seria uma boa notícia para ele?
E se Pierce ainda não estivesse pronto para ser pai?
"Senhora, está tudo bem? Quer que eu ligue para o chefe?", perguntou Luke, meu motorista particular, preocupado ao notar minha expressão tensa.
Luke era confiável, quase como alguém da família. Mas, se eu fosse compartilhar aquela notícia, queria que Pierce fosse o primeiro a saber. Ele era o pai do meu bebê.
"Não", respondi, balançando a cabeça e oferecendo a Luke um sorriso tranquilizador. "Ele ainda está no voo. Falo com ele depois."
Assim, eu poderia ver sua reação de perto, nas expressões mais sinceras do rosto dele.
Eu sempre fora boa em ler Pierce.
Fechei os olhos e me lembrei do primeiro dia em que nos conhecemos. O sorriso radiante dele sob a luz do sol era tão bonito que ele parecia um príncipe. Muito antes de nos tornarmos melhores amigos, eu já tinha me apaixonado por ele à primeira vista.
Mas era um amor não correspondido. Eu sabia disso muito bem.
Abaixei o vidro do carro para tomar um pouco de ar fresco, mas acabei avistando, por acaso, nosso antigo colégio. Aquele sentimento amargo voltou a preencher meu peito.
Pierce era meu primeiro amor.
Mas eu não era o dele.
No colégio, eu não passava de uma nerd sem graça aos olhos dos outros, enquanto Pierce Anderson era o quarterback brilhante do time. Todo mundo se surpreendia por sermos amigos. Mesmo com as provocações e rivalidades que surgiam ao nosso redor, eu adorava estar perto dele.
Pouco a pouco, percebi que não queria ser apenas sua amiga.
Mas, justo quando estava prestes a confessar meus sentimentos, outra garota entrou na vida dele.
Sacudi a cabeça, tentando afastar aquelas lembranças antigas e dolorosas. Apertei a aliança fria no dedo e disse a mim mesma que o passado era passado.
Pierce havia dito que tudo entre eles tinha acabado.
Agora eu era sua esposa, que carregava seu filho no ventre.
Enxuguei as lágrimas dos cantos dos olhos e abri a porta da nossa casa.
Meu coração se acalmou ao respirar aquele cheiro familiar.
Nosso lar.
Não era tão luxuoso quanto a mansão da família dele, mas era acolhedor. Pierce e eu tínhamos decorado tudo juntos, com nossas próprias mãos. Nós gostávamos daquele lugar.
Sim, eu devia estar pensando demais.
Aquela mulher estava fora das nossas vidas havia muito tempo. E, nos últimos três anos, meu casamento com Pierce tinha sido tão bonito quanto um conto de fadas.
Olhei para o relógio na parede.
Àquela altura, Pierce já devia ter desembarcado. Ele estava viajando havia mais de um mês por causa dos negócios da nossa família. Era o presidente da ADE, o maior grupo de revistas de moda, e eu ocupava o cargo de vice-presidente.
Não éramos apenas parceiros de vida. Também éramos excelentes parceiros de trabalho.
Eu sentia muita saudade dele.
Disquei seu número imediatamente. Queria ouvir sua voz, saber quando chegaria em casa. Prepararia uma boa refeição para ele, e ele me recompensaria com um beijo doce. Talvez, depois, pudéssemos fazer amor com a mesma paixão da noite anterior à viagem.
Ops.
Quase me esqueci de que agora estava grávida.
Precisava contar isso a ele primeiro. Depois, poderíamos pensar em outra coisa.
Eu sorria, imaginando nosso reencontro, quando meu coração despencou ao ouvir a voz de uma mulher do outro lado da linha.
"Alô?"
Desliguei de imediato.
O celular escorregou da minha mão e caiu no chão. Meu corpo começou a tremer sem controle.
Não.
Não podia ser ela.
Não podia ser Lexi.
Ela já estava fora das nossas vidas.
Eu devia ter ouvido errado.
Corri até a geladeira, tentando me acalmar com a ajuda de um pouco de álcool. Mas, no instante em que toquei a garrafa de vinho, me lembrei das palavras da médica. Me lembrei do meu bebê.
Eu precisava ser cuidadosa pelo meu filho.
Me virei, peguei uma caixa de leite e caminhei até o sofá.
Não sabia o que havia me feito reconhecer aquela voz como sendo de Lexi. Quer dizer, Lexi e eu nunca fomos próximas.
Lexi Gilbert era o tipo clássico de beldade loira capaz de deixar os homens enlouquecidos. No colégio, era a líder de torcida popular, enquanto Pierce era o quarterback estrela.
Ela combinava muito mais com ele do que uma nerd como eu, não é?
Não era de surpreender que ele tivesse se apaixonado por ela.
Meu orgulho não suportava ver o homem que eu amava enlouquecer por outra mulher. Então, por um tempo, tentei me afastar deles em silêncio. Mas Pierce se recusava a sair da minha vida.
Toda vez que me afundava em um mar de livros e estudos para esquecê-los, ele aparecia à minha porta, me chamando para sair. Eu não conseguia dizer não ao sorriso encantador dele. Não conseguia dizer não quando dizia que era seu dever, como meu melhor amigo, me levar para conhecer o mundo real.
Para não destruir nossa amizade, só pude esconder meu coração partido. Continuei interpretando em silêncio o papel de melhor amiga ao lado dele, enquanto assistia ao seu rosto se iluminar por causa de outra garota.
Finalmente reuni coragem para estudar no exterior quando soube que Pierce estava planejando pedir Lexi em casamento.
Mas nunca imaginei que a avó dele me ligaria, pedindo que eu voltasse.
Voltei às pressas, apenas para encontrar um Pierce sem nenhuma vida no olhar.
Lexi havia ferido seu coração de forma brutal.
Meu querido garoto ensolarado tinha desaparecido, e meu coração sangrou por ele.
A partir daquele momento, comecei a odiar Lexi.
Eu tinha desistido do homem que amava por ela. Como ela ousava machucá-lo daquele jeito?
Aquela bruxa.
Pierce não contou a ninguém o que havia acontecido. Apenas disse que tudo entre ele e Lexi tinha acabado.
Então a avó dele arranjou nosso casamento.
Não entendi por que Pierce aceitou até o dia em que o ouvi dizendo que, se não fosse para se casar com Lexi, qualquer outra pessoa serviria.
Aquilo doeu.
Doeu demais.
Mesmo assim, entrei naquele casamento sem pensar duas vezes. Meu querido garoto estava destruído, e eu queria consertá-lo, mesmo que isso me arruinasse no processo.
Acabei adormecendo em casa, tomada pela insegurança e pela preocupação.
Despertei no meio da noite ao sentir alguém acariciando meu rosto.
Abri os olhos lentamente e percebi que tinha dormido na sala de estar.
Alguém me ergueu do sofá.
Reconheci de imediato aquele cheiro e aquele toque. Olhei para ele com as pálpebras pesadas.
"Pierce..."
"Hmm", murmurou enquanto caminhava em direção à escada. "Por que dormiu no sofá?"
Fitei seu rosto enquanto ele me deitava suavemente na cama.
Pierce acariciou meu cabelo e beijou minha testa.
Sempre fora tão gentil. Era por isso que eu o amava tanto. Mesmo quando fazíamos amor, era cuidadoso com meus sentimentos.
Depois de mais de um mês separados, meu corpo sentia falta dele. Meu coração queria ele.
"Onde você estava? Fiquei esperando por você", murmurei, acariciando seu rosto.
"Só encontrei um amigo. Você disse que estava me esperando. Era algo urgente?"
Olhando para aquele rosto gentil, de repente não quis estragar o momento.
Então fechei os lábios entreabertos e engoli a verdade mais uma vez.
Amanhã.
Talvez amanhã eu tivesse coragem de enfrentar todos os enigmas.
Sacudi a cabeça e fiz um bico, dizendo que estava com sono.
Ele riu baixinho e me acomodou com cuidado na cama. Quando estava prestes a se afastar, depois de me dar um beijo de boa noite, entrei em pânico por algum motivo.
Segurei ele com força e o beijei com toda a paixão que tinha dentro de mim. Tentei tirar a roupa dele, quis que ele me tocasse, cada vez mais intensamente.
Eu sentia tanta falta dele.
Eu o queria desesperadamente.
Sentia que a única forma de encontrar paz era deixá-lo entrar em mim outra vez.
Precisava ter certeza de que ele ainda era meu.
"Espera, Kels", ele me interrompeu, prendendo minhas mãos inquietas contra a cama. "Pensei que tivesse dito que estava com sono e precisava descansar."
"Mas acho que agora estou com ainda mais saudade de você."
Olhei para ele com inocência e consegui ver o desejo brilhando em seus olhos. Mas não entendi por que aquela chama se apagou tão depressa.
Antes, Pierce ficava feliz quando eu tomava a iniciativa.
Como se percebesse minha confusão, riu baixinho e beliscou meu nariz de brincadeira.
"Vou só tomar um banho. Estou cheirando a álcool."
Apenas assenti e o observei caminhar em direção ao banheiro.
A sonolência voltou a me atingir, então fechei os olhos para tirar um cochilo.
Mas, quando abri os olhos de novo, já era manhã.
Pierce estava ao meu lado, colocando uma bandeja de comida sobre a mesinha de cabeceira.
"Ei!" falei sorrindo ao perceber tudo o que ele tinha preparado.
Ele tinha feito café da manhã para mim.
Direto na cama.
Não existia nada mais fofo no mundo.
Pierce sorriu e sentou ao meu lado.
"Bom dia."
Também sorri e me acomodei melhor na cama. Ele puxou a bandeja e deixou ela ao meu lado.
Ergui uma sobrancelha, inclinei a cabeça e encarei seu rosto bonito.
Seus olhos eram de um castanho profundo. As sobrancelhas, espessas e escuras, combinavam perfeitamente com aquele olhar. O nariz era alto e bem desenhado, e os lábios, finos e avermelhados.
Ele parecia um bad boy sexy de verdade, sem exagero.
Até o Damon Salvatore ficaria sem graça ao lado dele.
Nenhum outro homem chegava aos pés do Pierce Anderson.
"O que é isso aí? É suborno? Você me deixou esperando à toa ontem à noite."Ele não riu.
Soltou um suspiro pesado e, com delicadeza, colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Em seguida, segurou minha mão e fitou meus olhos.
"Tenho uma coisa para te contar."
Meu coração acelerou.
Pensei no bebê em meu ventre.
Ele tinha algo para me contar.
Eu também tinha algo para contar a ele.
"O-o que foi?", perguntei, sentindo minha voz tremer.
Pierce respirou fundo.
"Você sabe que é importante para mim, não sabe?"
Assenti devagar, com os lábios entreabertos. Não conseguia responder.
Estava com medo do que ele estava prestes a dizer.
Tinha um péssimo pressentimento.
"Você era minha melhor amiga antes de nos casarmos. É uma das poucas pessoas que realmente valorizo..."
Escondi os punhos cerrados sob o lençol.
Não sabia por que estava me dizendo tudo aquilo, mas as lágrimas já se acumulavam nos cantos dos meus olhos.
"Kelly..." Ele fez uma pausa e fechou os olhos com força antes de me encarar novamente. "Eu... acho que chegou a hora de nos divorciarmos."
"P-Pierce..."
Meu coração se apertou.
Ele sorriu, como se estivesse tentando me consolar.
"Sei que você também não tem sentimentos por mim. Só se casou comigo por causa dos meus avós. Fez isso porque os ama. Agora chegou a hora de buscarmos nossa verdadeira felicidade, Kelly."
Sacudi a cabeça.
"D-do que você está falando, Pierce?"
"Lexi voltou. Meu primeiro amor voltou."