Vivian fechou os olhos por um único segundo. Ela inspirou profundamente, enchendo os pulmões com o ar estéril e condicionado do quarto, e quando expirou, não era mais Vivi, a mulher. Era Vivian Kensington, a esposa. Seus músculos faciais, treinados ao longo de três anos de disciplina rigorosa, se moldaram em um sorriso suave e acolhedor. Era uma máscara feita de carne e osso, mas parecia tão pesada quanto ferro.
A porta da frente bateu com força no andar de baixo. Passos pesados ecoaram na escada de mármore.
A porta do quarto se abriu bruscamente.
Julian Kensington trouxe a tempestade com ele. Seu terno estava úmido, seu cabelo desgrenhado, e o cheiro de uísque caro se agarrava a ele como uma segunda pele. Ele não olhou para ela. Ele nunca mais realmente olhava para ela. Para ele, ela era apenas um acessório no quarto, como o relógio ou as cortinas.
"Você ainda está acordada", ele murmurou, tirando o paletó com um gesto displicente. Ele o estendeu sem virar a cabeça, esperando que ela estivesse lá.
Ela sempre estava lá.
Vivian deu um passo à frente, seus pés descalços silenciosos no tapete felpudo. Ela pegou o paletó. O tecido estava frio e úmido contra a ponta de seus dedos.
"Estava chovendo muito forte", ela disse suavemente. "Eu não consegui dormir."
"Tive uma reunião até tarde. Não pergunte." Julian afrouxou a gravata, seus movimentos bruscos e impacientes.
Vivian se virou para pendurar o paletó no mancebo. Foi quando ela viu.
Era um único fio de cabelo.
Estava preso na lã escura de sua gola, brilhando como um filamento de fio de ouro sob a iluminação embutida. Era longo. Muito mais longo que o dela. E era loiro. O cabelo de Vivian era de um castanho profundo e intenso.
Sua respiração engasgou em sua garganta, um som minúsculo e fraturado que a chuva engoliu.
Ela se inclinou mais, apenas alguns centímetros. O cheiro a atingiu então. Não era apenas uísque e chuva. Por baixo das notas masculinas, havia algo enjoativo. Algo doce. Baunilha e almíscar pesado.
Midnight Rose.
Era um perfume que ela conhecia. Tinha visto o frasco em revistas. Era jovem, agressivo e desesperado por atenção.
A bile subiu por sua garganta, quente e ácida. Seu estômago se contorceu em um nó tão apertado que era fisicamente doloroso. Seus dedos tremeram enquanto ela arrancava o cabelo dourado da gola. Parecia que estava segurando uma lâmina de barbear.
"Vivian? Água", Julian ordenou do outro lado do quarto.
Ela deixou o cabelo cair no bolso de seu roupão de seda. "Já vou."
Sua voz estava firme. Como sua voz podia estar tão firme quando seu mundo estava desmoronando?
Ela serviu um copo de água da jarra de cristal na mesa de cabeceira. Suas mãos tremiam, a água ondulando no copo. Ela forçou seu aperto até que os nós de seus dedos ficassem brancos.
Julian já estava indo para o banheiro. Ele jogou o celular na mesa de cabeceira. O aparelho caiu com a tela para cima.
Vivian pousou a água. Ela não deveria olhar. Ela sabia que não deveria olhar.
A tela se acendeu.
Uma notificação.
Candy: Você deixou suas abotoaduras na minha mesa de cabeceira. Já estou com saudades.
O quarto girou. O chão parecia se inclinar sob seus pés. Vivian encarou o nome. Candy. Parecia uma piada. Parecia o desfecho cômico de uma tragédia que ela não sabia que estava protagonizando.
O chuveiro do banheiro foi ligado, o fluxo de água abafando o silêncio.
Vivian não chorou. Ela não conseguia. O choque foi absoluto demais, congelando suas lágrimas antes que pudessem se formar. Ela se moveu com a precisão de um robô. Pegou seu próprio celular, o desbloqueou e o posicionou sobre a tela de Julian.
Clique.
Ela tirou uma foto da mensagem. Depois, tirou uma foto do horário.
Ela enfiou a mão no bolso e tirou os pequenos sacos plásticos transparentes que guardava para suas joias. Ela colocou o longo fio de cabelo loiro dentro e o selou.
Seu coração martelava contra suas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. Tum. Tum. Tum. Era tão alto que ela tinha certeza de que Julian podia ouvi-lo por cima do barulho do chuveiro.
Ela entrou no closet, seu santuário. Ajoelhou-se junto ao cofre escondido atrás de uma fileira de casacos de inverno. Seus dedos voaram sobre o teclado numérico. Lá dentro, aninhado entre seu passaporte e sua certidão de nascimento, havia um laptop que ela não usava há meses.
Ela o abriu. A luz azul da tela iluminou seu rosto pálido.
Ela navegou para um servidor seguro na nuvem que havia nomeado de Project Liberty. Ela carregou a foto da mensagem de texto. Registrou a data e a hora da descoberta do cabelo.
Então, ela abriu um rascunho de e-mail endereçado a Harper Hayes.
Harper era a advogada de divórcio mais implacável da cidade. Ela era um tubarão de Louboutins.
Vivian digitou, seus dedos frios e rígidos.
Assunto: Ativação.
Corpo: Eu tenho a prova. Inicie o Plano B.
Ela apertou enviar.
O chuveiro foi desligado.
Vivian fechou o laptop com força, o enfiou de volta no cofre e o trancou. Ela se levantou, alisando seu roupão de seda. Viu seu reflexo no espelho de corpo inteiro.
Ela parecia a mesma. Essa era a parte mais aterrorizante. Ela parecia exatamente a esposa obediente e submissa que Julian pensava possuir. Mas por trás de seus olhos, algo havia morrido. E outra coisa havia nascido.
Ela voltou para o quarto no exato momento em que Julian saía do banheiro, com uma toalha enrolada na cintura. O vapor saía em nuvens atrás dele.
"Você separou meu pijama?", ele perguntou, sem olhar para ela.
"Na cadeira", disse Vivian.
Ele deixou a toalha cair e vestiu a calça de seda. Subiu na cama, virando-se de costas para ela imediatamente.
"Luzes", ele resmungou.
Vivian apagou o abajur. A escuridão inundou o quarto, pesada e sufocante. Ela subiu em seu lado da cama, ficando o mais perto possível da beirada sem cair.
Julian se mexeu. Seu braço envolveu a cintura dela.
Vivian congelou. Cada músculo de seu corpo enrijeceu. A pele dele parecia ferro em brasa contra seu lado. O cheiro de seu sabonete não conseguia mascarar o aroma fantasma de Midnight Rose que persistia em sua memória.
"Vem cá", ele murmurou, sonolento.
"Eu... estou com dor de cabeça, Julian", ela sussurrou. "Acho que estou pegando alguma coisa."
Ele resmungou, irritado, e retirou o braço. "Tudo bem. Só não me passe a doença."
Em poucos minutos, sua respiração se estabilizou em um ronco.
Vivian ficou deitada no escuro, encarando o teto. Ela podia sentir o fantasma do anel em seu dedo. Ela o deslizou para fora, segurando o pesado diamante na palma da mão. Parecia frio. Parecia uma algema.
Ela o colocou na mesa de cabeceira. Então, depois de um longo momento, ela o pegou e o deslizou de volta no dedo.
Ainda não.
Ela precisava de mais. Ela precisava de tudo.
Lá fora, a tempestade continuava, mas a tempestade dentro de Vivian estava apenas começando.