Apenas uma fila de táxis indiferentes e uma rajada de fumaça de escapamento com gosto de borracha queimada e solidão.
Ela tirou o celular do bolso. A tela se acendeu, o brilho ardendo em seus olhos cansados. 14 de outubro.
Nenhuma mensagem não lida. Nenhuma chamada perdida. Nenhuma de Caden. Nenhuma do gerente da casa. Nem mesmo do lembrete automático de calendário que ela costumava compartilhar com o marido.
Eulalie soltou um suspiro curto e seco que não chegava a ser uma risada. Ela abriu o aplicativo da Uber, seus dedos pairando por um segundo antes de digitar o destino: Holloway Penthouse.
O motorista era um homem chamado Tariq, com um painel cheio de bonecos de cabeça oscilante e uma necessidade de preencher o silêncio. Ele falou sobre o tempo, o trânsito, o aumento do preço dos bagels. Eulalie olhava pela janela, observando o borrão cinzento da Expressway. Seus ouvidos zumbiam, um zunido agudo que abafava a voz de Tariq.
Cinco anos atrás, o casamento deles tinha sido uma fusão estratégica - o legado impecável e tradicional da família Bradford higienizando o capital implacável e novo-rico dos Holloway. Caden precisara do nome irrepreensível da família dela para garantir seus primeiros investidores bilionários, e ela, tolamente, acreditara que ele realmente a queria. Ela trocara sua brilhante carreira de programadora pelo papel de uma esposa-troféu perfeita, pensando que o amor eventualmente se seguiria ao contrato.
- Grande noite para a cidade, hein? - perguntou Tariq, gesticulando vagamente para o rádio.
Eulalie piscou, concentrando-se no som metálico que vinha dos alto-falantes. A voz de um repórter de entretenimento cortou a estática.
- ...e todos os olhos estão no Plaza Hotel esta noite, onde a queridinha da tecnologia Adalynn Pennington está oferecendo uma grande celebração pelo lançamento de seu mais novo produto. Dizem os rumores que a lista de convidados é exclusiva para o um por cento mais rico da cidade...
A mão de Eulalie voou para o cinto de segurança, agarrando a tira de nylon até que suas unhas se cravassem em sua palma. A dor era aguda, ancorando-a na realidade. Adalynn. Sua meia-irmã. A mulher que havia tomado a atenção de seu pai, o legado de sua família e, agora, aparentemente, o tempo de seu marido no dia de seu aniversário.
- Sim - sussurrou Eulalie, com a voz rouca. - Grande noite.
O carro parou em frente à fachada de calcário do prédio na Fifth Avenue. O porteiro, um rapaz chamado Leo, olhou duas vezes quando a viu sair de um Toyota Camry em vez do carro da família.
- Sra. Holloway? - Leo se apressou, estendendo a mão para a bagagem dela. - Nós... nós não sabíamos que a senhora voltaria hoje.
- É uma surpresa, Leo - disse ela, colocando um dedo nos lábios. A mentira tinha gosto de cinzas em sua língua. Ela não os estava surpreendendo. Estava salvando as aparências.
A viagem de elevador até a cobertura pareceu uma subida ao cadafalso. Os números subiam - 20, 30, 40. Seu coração martelava contra suas costelas, um ritmo frenético e irregular. Ela verificou seu reflexo nas portas de latão polido. Seu rosto estava pálido, sem maquiagem, com olheiras escuras manchando a pele sob seus olhos. Ela parecia um fantasma.
Ghost. O antigo apelido de seus dias de programação brilhou em sua mente. Ela o afastou.
As portas do elevador se abriram silenciosamente.
O hall de entrada era um campo minado de papel de seda colorido e fitas enroladas. Um par de mocassins de couro italiano de Caden estava jogado de qualquer maneira perto do aparador, ao lado de um par minúsculo de tênis brilhantes.
Risadas vinham da sala de estar. Era o som de Elara, sua filha de cinco anos. Um som que geralmente enchia Eulalie de calor, mas hoje, a arrepiou. Era uma risadinha aguda e ofegante, do tipo que Elara só dava quando conseguia exatamente o que queria.
Eulalie deixou a mala perto da porta e pisou suavemente no tapete persa. Ela se moveu para trás do biombo de ébano laqueado que separava o hall da sala de estar, espiando pelas frestas.
A cena diante dela estava banhada na luz quente e dourada do lustre.
Caden Holloway estava de joelhos. O implacável investidor de risco, o homem que aterrorizava salas de reuniões, estava ajoelhado no carpete, segurando um unicórnio de pelúcia enorme com uma fita rosa em volta do pescoço.
- Papai! - Elara pulava no sofá, seus cachos balançando. - A tia Adalynn vai adorar! É a edição limitada!
Caden sorriu, um sorriso genuíno, que enrugava os cantos dos olhos, que Eulalie não via dirigido a ela há anos. Ele alisou a crina do unicórnio. - Claro que vai, Elara. Foi você quem escolheu.
A respiração de Eulalie falhou. Sua mão foi ao peito, pressionando com força.
Três meses atrás, ela tentara comprar aquele mesmo unicórnio para Elara. Caden havia zombado, chamando-o de "tralha" e "berrante". Ele lhe dissera para comprar blocos de madeira educativos em vez disso.
- A mamãe disse que unicórnios são bobos - chilreou Elara, pegando o brinquedo e o abraçando. - Mas a Adalynn diz que eles são mágicos.
- A tia Adalynn está certa - disse Caden, levantando-se e tirando um fiapo de suas calças. - É melhor irmos. Não queremos nos atrasar para a festa dela.
A bolsa de Eulalie escorregou de seus dedos dormentes. O fecho pesado de ouro bateu no chão de mármore com um estalo seco.
O som estilhaçou o quadro doméstico.
Caden se virou bruscamente. Seus olhos a encontraram instantaneamente. O calor evaporou de seu rosto, substituído por uma máscara de surpresa irritada. Seu maxilar se contraiu.
Elara congelou, o unicórnio agarrado ao peito. Seus olhos se arregalaram e, então, instintivamente, ela deu um passo para trás, movendo-se para trás da perna de Caden.
- Eulalie? - A voz de Caden era monótona. - Você voltou. Por que não mandou uma mensagem para o Carter te buscar?
Eulalie abriu a boca, mas sua garganta estava seca, fechada. Ela engoliu em seco. - Hoje é 14 de outubro.
Caden olhou para seu relógio Patek Philippe, distraído. - Eu sei a data. A festa de lançamento da Adalynn é hoje à noite. Estamos atrasados.
Ele não entendeu. Ele, de verdade, honestamente, não se lembrava.
Eulalie olhou para Elara. Sua filha espiava por trás das calças de terno caras de Caden, olhando para a mãe como se ela fosse uma estranha que havia interrompido um jogo particular.
- A mamãe voltou em uma hora ruim - Elara sussurrou alto para o pai. - Temos que ir ver a Adalynn.
As palavras foram pequenas, mas atingiram Eulalie com a força de um golpe físico. Seus joelhos fraquejaram. Ela estendeu a mão para se apoiar na parede.
- Martha vai te ajudar a desempacotar - disse Caden, já se virando, descartando a presença dela como uma inconveniência logística. Ele pegou Elara no colo. - Vamos, pequena. Não vamos deixar a princesa esperando.
- Tchau, mamãe! - Elara acenou, sua atenção já voltando para o brinquedo em suas mãos.
Eles passaram por ela. Caden cheirava a sândalo e ao uísque caro de que gostava. Ele não parou para beijá-la. Nem sequer roçou em seu braço.
As portas do elevador se fecharam, engolindo seu marido e sua filha, deixando Eulalie parada sozinha no centro da vasta e silenciosa cobertura.
Ela olhou para o chão. Um cartão havia caído da pilha de papel de embrulho.
"Para a Melhor Tia Adalynn."
Eulalie agachou-se lentamente. Suas articulações estalaram. Ela pegou o cartão. Seus dedos não tremiam. Uma calma estranha e fria se espalhava por suas veias, congelando as lágrimas antes que pudessem se formar. Ela encarou o cartão até as palavras se tornarem um borrão, seus olhos ficando mortos e vazios.
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