Ao abrir a porta do escritório, Rena avistou Jase entregando um convite a Elyse Marshall, a mulher que sempre teve um lugar no coração dele.
O que ela estava fazendo aqui?
"Meu Deus! Isso é realmente um convite para a Conferência Anual da Sanctus?" Uma risada alegre e doce escapou de Elyse ao pegar o envelope, enquanto ela lançava um olhar presunçoso para Rena, mal se dando ao trabalho de esconder o desafio.
Nesse instante, Jase ergueu a cabeça, seu olhar passando pela garrafa térmica nas mãos de Rena por um segundo antes de se desviar sem interesse.
"Coloque isso ali", disse ele.
A indiferença fria de Jase só fez Elyse brilhar com ainda mais satisfação e, enquanto virava o convite nas mãos repetidamente, praticamente o saboreando, disse: "Obrigada, Jase! Só os melhores especialistas médicos do mundo são convidados para uma conferência como essa. Não acredito que você pensou tanto em mim. Você até se lembrou de que estou prestes a concluir meu doutorado em medicina e preparou uma surpresa tão incrível."
Uma surpresa?
Parada na porta, Rena só pôde olhar com uma descrença fria, pois toda essa cena era tão ridícula que beirava o insulto.
A Sanctus havia enviado o convite com um único propósito: convidar Rena e sua mãe, Clara Shaw, como palestrantes para uma palestra médica.
Ela só havia pedido para Jase buscá-lo para ela, mas de alguma forma isso se transformou numa surpresinha atenciosa para outra mulher.
Sua mãe havia se dedicado de corpo e alma para encontrar a cura para uma doença genética rara e mortal. Quando sua pesquisa estava prestes a ter um avanço, alguém sabotou tudo, e sua mãe desapareceu, deixando para trás a mancha feia de uma acusação de fraude acadêmica.
Nos últimos cinco anos, Rena viveu sob a sombra de duas identidades distintas. Aos olhos da família Bailey, ela não passava de uma dona de casa que sabia cozinhar.
No entanto, no laboratório do porão escondido sob a casa, ela passava noites intermináveis sem dormir, com os olhos doloridos e vermelhos, testando fórmulas, verificando dados e dando continuidade à pesquisa inacabada da sua mãe.
Na semana passada, suas descobertas finalmente passaram pela verificação clínica duplo-cega da Associação Médica Internacional, um convite sendo sua única chance de limpar o nome da mãe. E mais do que isso, era uma chance de dar às pessoas que sofriam dessa doença genética uma última esperança de sobrevivência.
Dando um passo à frente, Rena fixou os olhos no envelope na mão de Elyse. "Me devolva."
No instante seguinte, os dedos de Elyse se apertaram em volta do envelope, se escondendo atrás de Jase com uma expressão frágil e magoada. "Rena, o que está fazendo? Jase me deu isso."
Uma sombra cruzou o rosto de Jase ao comentar: "Rena, isso seria um desperdício para você. Já entreguei para Elyse."
Rena bufou bruscamente, sua irritação evidente na voz: "Desperdício para mim? Desde quando você começou a decidir se minhas coisas têm valor, Jase?"
Ao lado, Brett Todd, assistente de Jase, riu com desprezo. "Rena, suas coisas? Tudo o que você tem veio da família Bailey. O que exatamente você acha que pertence a você? A senhorita Marshall acabou de voltar do exterior e está fazendo doutorado numa universidade de prestígio. Entregar esse convite a ela tem um propósito real. Quanto a você, é uma dona de casa que mal toca num livro. Acha mesmo que entenderia o que esse convite representa?"
Diante dessas palavras, uma leve ruga se formou entre as sobrancelhas de Jase, pois ele achou as palavras de Brett um pouco duras demais, mas não o corrigiu.
Na mente de Jase, Rena sempre foi a mesma mulher: alguém que passava os dias na cozinha, preparando refeições e esperando pela aprovação dele. A ideia de que ela pudesse entender qualquer coisa sobre medicina nunca passou pela sua cabeça.
Em sua opinião, o convite não passava de um objeto que ela havia conseguido de alguma forma, outra tentativa desajeitada de chamar sua atenção.
Após chegar a essa conclusão, a expressão de Jase se suavizou, e até sua voz ficou mais gentil. "Elyse está prestes a receber seu doutorado e precisa de uma forma de entrar no mundo da medicina. Com essa oportunidade, ela poderá conhecer os maiores especialistas do mundo. Se essa foi sua maneira de se provar e tentar fazer com que eu te notasse, agora entendi. Não precisa continuar fazendo isso."
Essas palavras foram profundas, o suficiente para fazer o peito de Rena se apertar.
Ao seu lado, seus dedos se cerraram lentamente.
Depois de cinco anos de casamento, era isso que ela significava para ele - nada mais do que um adereço ao seu lado, uma mulher tão insignificante que precisava recorrer a truques só para conseguir um pouco da atenção dele.
Com um movimento brusco, Rena bateu a garrafa térmica sobre a mesa, fazendo a tampa se soltar e cair no chão com um baque pesado e abafado.
O encarando com um olhar gélido, Rena retrucou: "O convite já pertence a mim, meu nome está nele. Mas você preferiu entregá-lo a outra mulher. Foi muito generoso da sua parte."
Em seguida, ela desviou o olhar para Elyse e continuou: "Já que você vai ser doutora e tem um futuro tão promissor pela frente, conseguir um convite como esse deveria ser fácil, não acha? Então por que se deu ao trabalho de roubar um de mim? Ou essa foi sua maneira de admitir que não consegue nem se igualar a uma dona de casa?"
"Como ousa dizer isso?" O rosto de Elyse se empalideceu, e seus olhos ficaram vermelhos quase que instantaneamente. "Jase, juro que não quis dizer nada com isso. Eu realmente não sabia que o convite era de Rena. Se eu soubesse, jamais o teria aceitado."
Enquanto falava, Elyse estendeu o envelope para Rena com os dedos trêmulos. "Rena, me desculpe. Aqui, pegue de volta."
Rena ergueu a mão para pegá-lo, mas antes que seus dedos pudessem tocar a borda, Elyse o soltou abruptamente.
Assim, o convite caiu direto na garrafa térmica aberta, se encharcando no líquido -
em segundos, o envelope vermelho-escuro, antes impecável, ficou encharcado com o tônico, completamente arruinado.
Com um suspiro assustado, Elyse levou a mão à boca. "Ah, não! Sinto muito. Ele simplesmente escorregou da minha mão. Não queria estragá-lo."
Rena olhou para o envelope arruinado, as palavras de Clara ecoando na sua cabeça. "Rena, espero que você realize meu sonho e se torne uma médica de renome mundial."
Esse era o desejo da sua mãe.
Com movimentos rígidos e trêmulos, Rena se agachou.
"Você não consegue nem segurar um simples pedaço de papel?", Jase repreendeu Rena com a testa franzida, lançando um olhar breve para o convite.
Ele pretendia pegá-lo com ela depois, mas agora que estava arruinado, teria que pensar em outra coisa. "É só um pedaço de papel. Se estiver manchado, que assim seja."
Usando um lenço de papel, Rena limpou cuidadosamente as manchas várias vezes, mas nada adiantou.
Por fim, ela se levantou e amassou o papel arruinado na palma da mão. As bordas afiadas cravavam na sua pele, e essa pequena dor era a única coisa que a impedia de desmoronar.
"Esqueça. Não vou discutir mais sobre esse convite." Erguendo o olhar, ela fixou os olhos em Jase com um olhar calmo e inabalável. "Meu pai voltará do exterior amanhã. Você prometeu que iria comigo buscá-lo. Amanhã à tarde, às três horas.
No porto."