Sofia Castellano
O despertador tocou, mas ignorei. Meu corpo implorava por mais algumas horas de descanso depois de um turno de 48 horas no pronto-socorro. Era o meu dia de folga, e eu precisava dormir. Mas, quando meu celular vibrou sobre o criado-mudo, soube que algo estava errado.
Atendi com a voz rouca de cansaço.
- Dra. Castellano, precisamos de você no hospital. Agora.
Reconheci a voz tensa do chefe da emergência. Sentei-me na cama, tentando afastar o torpor do sono.
- O que aconteceu? - perguntei, já me levantando.
A pausa do outro lado da linha fez meu estômago revirar.
- Ele voltou.
Minha respiração ficou presa na garganta. Por um segundo, desejei ter ouvido errado, mas sabia que não era o caso. Ruptura. A palavra que há vinte anos destruiu tudo o que conhecíamos. E agora, estava de volta.
Coloquei uma calça jeans e uma camiseta qualquer, amarrei os cabelos rapidamente e peguei a mochila com alguns itens médicos que sempre mantinha à mão. O hospital ficava a poucos minutos de carro, mas o trânsito já estava um caos. O pânico se espalhava pela cidade como um vírus, e sirenes ecoavam de todos os lados.
Ao chegar, vi a correria dos médicos e enfermeiros preparando tudo. Ninguém falava abertamente, mas os olhares diziam tudo. Tínhamos, no máximo, uma hora. Uma hora para organizar os leitos, garantir que o gerador estivesse pronto, reforçar as salas de atendimento e preparar os pacientes para o pior.
Os alertas oficiais soaram nos alto-falantes da cidade. As placas estavam se movendo mais rápido do que o esperado. A cidade inteira se preparava, mas sabíamos que era em vão.
Quando as primeiras ondas do tremor começaram, uma onda gelada percorreu minha espinha. Prendi a respiração.
E então, Ruptura nos atingiu.
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Rafael Castellano
A noite estava tranquila demais.
Eu deveria ter desconfiado.
Depois de um turno longo e exaustivo no corpo de bombeiros, finalmente estava me preparando para ir para casa. Tirava os equipamentos de proteção quando o rádio chiou, e uma mensagem urgente interrompeu qualquer pensamento sobre descanso.
- Todos os postos de emergência, atenção! Há uma movimentação anormal das placas. Repetindo: Ruptura pode estar de volta!
Engoli em seco. Meus colegas trocaram olhares tensos. Alguns nem estavam aqui há vinte anos para saber o que aquilo significava, mas eu sabia. Eu vi o que Ruptura fez da última vez.
Larguei o capacete e corri para o centro de operações. Em poucos minutos, a cidade entrou em alerta máximo. Equipes de resgate se preparavam, evacuações começaram. Eu tentava manter a calma, mas meu coração martelava contra o peito.
Liguei para Sofia, mas caiu direto na caixa postal. Ela devia estar no hospital, tão sobrecarregada quanto nós.
Os minutos passaram como facas cortando o tempo. O chão sob meus pés parecia vibrar antes mesmo do desastre começar.
Então, ele veio.
O estrondo foi ensurdecedor. O mundo tremeu, prédios começaram a ruir, o solo se abriu em fendas assustadoras. Gritos ecoaram por toda a cidade, e tudo virou poeira e caos.
Ruptura não apenas havia voltado. Ele estava determinado a acabar com o que restava de nós.
{...}