O cenário era inconfundível. Era o sofá de couro italiano caro da sua sala privada, a mesma que eu o ajudara a mobiliar na primavera passada.
O colar de pedra da lua que ele me dera no meu aniversário estava no pescoço de Karri, o mesmo que ele tinha chamado de "símbolo do nosso futuro."
Ela enviou a foto às duas da manhã, esperando até o último segundo do prazo de cancelamento para me deixar vê-la. Depois, fingiu que foi um acidente.
"Ops, pessoa errada, irmãzinha. Não me leve a mal", disse ela, com um emoji de língua para fora.
Uma onda de náusea me invadiu, mas meus dedos permaneceram firmes enquanto eu tirava uma captura de tela de tudo - da foto, das mensagens e dos horários - e salvava numa pasta criptografada.
Sem responder ou bloqueá-la, apenas silenciei meu celular, o colocando sobre a mesa.
Fui até a janela e olhei para as luzes brilhantes da Cidade de Blackwood.
Nenhuma lágrima caiu, apenas um vazio frio e profundo se abriu no meu peito, se alastrando a cada respiração.
Esse noivado todo não tinha nada a ver com amor. Era um contrato assinado antes mesmo de eu saber ler.
"Pelo futuro da Matilha Garner", ele disse: "Meu pai, Delbert Garner, insistiu nisso desde o início."
Segurança. Poder. Uma aliança com os Snyders.
Eu nunca amei Jared, mas por seis anos tentei me conformar com a prisão que eles construíram para mim.
Seis anos desde que minha mãe morreu. Seis anos que deixei o território da Matilha Garner e nunca mais olhei para trás.
Jared Snyder. Futuro Alfa. Bonito. Poderoso. Um homem que nunca me perguntou o que eu queria.
Se tratava de um contrato, um acordo comercial. Mas até os acordos tinham regras.
Jared não só quebrou o contrato, como o fez com a pessoa que eu mais desprezava, da forma mais humilhante possível.
Meu colar. Meu sofá. Minha futura casa.
No fundo da minha mente, um rosnado baixo e gutural foi solto pela minha loba: a fera branca que eu mantinha acorrentada no fundo de mim, a que eu fora ensinada a reprimir, esconder e ter vergonha.
Não era mágoa, mas a violação do território, o desafio à honra. Algo antigo despertando de um sono profundo.
Peguei meu celular novamente e cancelei meu voo de volta para o território da Matilha Garner. Depois, reservei o voo mais próximo para a Cidade de Blackwood, mas não para a casa do meu pai, e sim para o aeroporto do outro lado da cidade, onde ninguém esperaria por mim.
Então, comecei a pensar em onde eles foram transar. Porque aquela foto não era apenas uma prova de traição, mas também indicava um local.
Eu conhecia Jared bem o suficiente para saber seus hábitos. Ele ainda estava sob o domínio do pai, que não havia renunciado totalmente ao poder.
Jared tinha dinheiro e gastava muito com ostentação, carros e presentes para Karri. Mas uma propriedade privada? Um ninho de amor secreto?
Os anciãos notariam esse tipo de compra, o que geraria muitas perguntas e atrairia muitos olhares.
Um hotel seria descuidado, pois haveria muito movimento de pessoas, muita burocracia e muito risco de ser visto.
Isso deixava apenas um lugar onde ele poderia levá-la sem levantar suspeitas: a Casa Pierce, a residência privada que a Matilha Snyder reservara para Jared e sua futura companheira. Eu havia recebido a chave dessa casa há três anos, quando todos ainda fingiam que esse casamento era real.
Foi um gesto de "boa fé", um símbolo do futuro que eles haviam traçado para mim.
Eu ainda tinha aquela chave.
Fui até a mala e tirei o disco rígido que havia preparado meses atrás, com projetos arquitetônicos, cronogramas de segurança e todos os pontos de entrada que eu havia mapeado.
Embora eu estivesse coletando informações para um dia que não tinha certeza se chegaria, e dissesse a mim mesma que era só uma forma de me preparar, em algum lugar, por trás da negação, eu já sabia.
Abri os esquemas.
A segurança da Casa Pierce era fraca, já que Jared era arrogante a ponto de acreditar que ninguém ousaria invadir. E por que alguém faria isso? Invadir a residência do futuro Alfa?
Eu já tinha a chave, as ferramentas, e três dias até o leilão de caridade anual da Matilha Snyder, o evento mais público da agenda deles.
Todas as principais matilhas da região estariam lá.
Alfas, anciãos, lunas, imprensa...
Essa era a plataforma perfeita para expor publicamente os podres desses dois.
Mas, primeiro, eu precisava das provas. Provas concretas, não apenas uma foto que eles poderiam alegar ser falsa, nem o "ops" arrogante de Karri.
Para pegá-los em flagrante, eu precisava colocar câmeras na Casa Pierce.
No quarto dele, no escritório, e na sala - bem ali, naquele sofá, onde ela havia se acomodado como se já fosse a dona.
E eu precisava fazer tudo isso antes do leilão.
Ao pensar nisso, meu pulso se acelerou. Não era medo, mas algo diferente. Algo que parecia perigosamente com excitação.
Passei seis anos agindo passivamente, esperando que alguém me salvasse, dizendo a mim mesma que, se eu fosse boa, quieta e paciente o suficiente, tudo daria certo.
Mas isso não aconteceria mais.
Após digitar um número de memória, eu disse: "Ferne, voltei. Preciso da sua ajuda."
Após um momento de pausa, sua voz surgiu do outro lado da linha, já em alerta: "Celina. Quanto tempo."
Ferne era a única amiga que fiz nesses seis anos que realmente se importava comigo.
Contei a ela sobre Jared Snyder e minha meia-irmã. "Jared e Karri... preciso de mais provas e de uma forma de entrar na Casa Pierce amanhã à noite."
Outra pausa, antes de a voz de Ferne baixar, sombria e letal: "Me diga que você tem um plano."
"Tenho sim", respondi, abrindo a data do leilão na minha agenda. "Três dias. Depois, o leilão de caridade da Matilha Snyder. Quando ele terminar, Jared Snyder vai desejar nunca ter ouvido meu nome."
Olhei para o meu reflexo na janela escura e vi meus olhos azuis, geralmente calmos, agora com um brilho frio e afiado, revelando algo que estava enterrado há muito tempo.