O jantar, um filé ao molho de pimenta que ela mesma preparara seguindo a receita favorita de Estevão, esfriara horas atrás, perdendo o brilho e o aroma. As velas haviam derretido até se tornarem poças de cera deformada sobre a toalha de linho branco.
Íris estava sentada na cabeceira da mesa, com a coluna ereta, uma postura que aperfeiçoara durante três anos de casamento para não destoar da rigidez aristocrática da família de seu marido. Seus dedos, pálidos e finos, acariciavam mecanicamente a caixa de veludo azul-marinho que repousava ao lado do prato.
Dentro havia um Patek Philippe, uma peça de coleção que lhe custara meses para conseguir, usando contatos que uma simples dona de casa sem estudos supostamente não deveria ter. Era o presente de terceiro aniversário de casamento.
O celular vibrou sobre a mesa, quebrando o transe. A tela se iluminou com uma notificação de uma revista de fofocas local: "O presidente do Grupo Bragança visto no Hospital Particular São Judas altas horas da noite. Romance ou dever familiar?".
Íris sentiu o ar escapar de seus pulmões. Deslizou o dedo para desbloquear a tela e ampliou a fotografia anexada.
A imagem estava borrada, tirada através de uma janela sob a chuva, mas era inconfundível. Estevão de Bragança estava inclinado sobre um leito hospitalar, segurando a mão de uma mulher loira e frágil.
O olhar em seus olhos não era o do empresário implacável que o mundo conhecia, nem o do marido distante que dividia o teto com Íris. Era um olhar carregado de uma ternura devastadora.
A mulher na cama era Escarlate Nobre, sua própria irmã.
Uma segunda mensagem chegou. Era de Eveline, sua madrasta.
"Não espere por ele. Ele está onde deveria estar, com alguém que realmente importa. Você é apenas um móvel decorativo nessa casa, e um bem sem graça, por sinal. Vá dormir, garota."
Íris largou o telefone. Não chorou. Havia chorado o suficiente durante o primeiro ano, quando Estevão esquecia seus aniversários, ou quando a deixava sozinha nas festas corporativas para atender ligações de Escarlate. A dor já não era intensa; tinha se transformado em uma névoa constante e anestesiante.
Mas esta noite, algo mudou. Não foi um estouro dramático, mas um clique silencioso em seu cérebro, como o mecanismo de uma fechadura que finalmente cede.
Levantou-se, pegou as chaves de seu velho sedã, um carro que destoava vergonhosamente da frota de luxo na garagem dos Bragança, e saiu para a tempestade.
A chuva castigava o para-brisa com violência enquanto ela dirigia para o hospital. Suas mãos apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Uma parte dela, a parte patética e apaixonada que sobrevivera a três anos de negligência, ainda queria acreditar que havia uma explicação.
Talvez Escarlate estivesse grave. Talvez ele só estivesse sendo gentil.
Chegou ao hospital encharcada, com o presente no bolso de sua capa de chuva barata. O corredor da ala VIP estava silencioso. A porta do quarto 304 estava entreaberta.
Íris parou pouco antes de entrar, com a mão suspensa sobre a maçaneta de metal frio.
- Estevão, se minha irmã descobrir que você está aqui no aniversário de vocês, ela vai ficar histérica - disse a voz de Escarlate. Soava fraca, mas havia um tom de satisfação açucarada em suas palavras.
- Que ela fique como quiser - respondeu a voz de Estevão. Era uma voz de barítono, profunda e segura, a mesma voz que dissera "sim, aceito" no altar sem olhá-la nos olhos. - A Íris não precisa saber. E, francamente, não me importo se ela souber. Se não fosse pela pressão da minha avó e o acordo comercial com seu pai, jamais teria me casado com aquela mulher. Ela é insossa, inculta e entediante. Não tem nada a ver com você, Escarlate. Ela é apenas... um requisito burocrático.
Íris sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. A caixa de veludo em seu bolso de repente pesava toneladas.
Um requisito burocrático. Nem sequer uma pessoa. Um trâmite.
Sua mão caiu da maçaneta. Não entrou. Não gritou. Não fez um escândalo. A dignidade era a única coisa que lhe restava, e não ia perdê-la na frente deles.
Virou as costas e caminhou em direção ao elevador. Seus passos eram silenciosos sobre o linóleo asséptico.
Ao passar pela recepção vazia, tirou a caixa do relógio Patek Philippe. Não o jogou fora. Isso seria impulsivo. Em vez disso, deixou-o suavemente sobre o balcão das enfermeiras, junto a uma pilha de folhetos esquecidos, como quem abandona um peso morto que já não tem valor sentimental.
De volta ao carro, olhou-se no espelho retrovisor. O rímel não havia borrado. Seus olhos, normalmente de um castanho caloroso, pareciam agora dois poços de gelo escuro.
Discou um número em seu telefone de segurança, um que Estevão não sabia que existia.
- Cléo, preciso do melhor advogado de divórcios da cidade. Agora.
- Íris? Você está bem? São três da manhã. Aconteceu algo com o Estevão?
- Não existe mais Estevão - disse Íris, e sua própria voz soou estranha, desprovida de tremor. - Prepare a papelada. Quero que isso seja rápido e cirúrgico.
Voltou para a mansão. Não acendeu as luzes. Foi direto ao quarto principal e pegou uma mala pequena.
Só colocou seus jeans velhos, suas camisetas de algodão, seus livros de medicina escondidos e seu laptop criptografado. Deixou os vestidos de grife que ele a obrigara a comprar para as galas, as joias que usava para aparentar ser a esposa troféu perfeita, e os cartões de crédito.
Sobre a mesa de cabeceira, ao lado do abajur apagado, colocou a minuta do acordo de divórcio que imprimira meses atrás em um momento de fraqueza, e assinou com um traço firme.
Ouviu o motor do Aston Martin de Estevão se aproximando pela entrada de cascalho. Íris apagou a luz e deslizou para fora do quarto pela porta de serviço, invisível como um fantasma em sua própria casa.
Enquanto Estevão entrava pela porta principal, trazendo consigo o cheiro de chuva e o perfume floral de Escarlate, Íris já estava a quilômetros de distância.
Pegou um dispositivo móvel antigo, um modelo "tijolão" indetectável. Digitou uma única mensagem para um número não registrado.
"O paciente acordou. Iniciando protocolo de saída."
Não havia nomes. Não havia títulos grandiosos. Apenas o silêncio de quem volta para as sombras.