Mas quando abri os olhos, eu estava de volta ao balcão do cartório, com a certidão de casamento esperando.
Daniel batia o pé, impaciente, checando o celular.
"Anda logo, Laura. A Sofia ligou. Ela está tendo uma crise. Precisa de mim."
A antiga Laura teria tremido e obedecido, desesperada por sua aprovação.
Mas eu apenas sorri, uma expressão fria e calculada que ele não reconheceu.
"Vá até ela", eu disse, empurrando-o em direção à porta. "Eu cuido da papelada. A família vem em primeiro lugar, certo?"
Ele saiu correndo sem nem olhar para trás, aliviado por ser o herói mais uma vez.
Sozinha com o documento oficial, eu não escrevi meu próprio nome na linha da noiva.
Com a mão firme e um coração cheio de vingança, eu escrevi Sofia Rosales.
Parabéns, Daniel. Você está legalmente casado com o fardo que tanto ama.
E eu, finalmente, estou livre.
Capítulo 1
LAURA POV
A caneta pesava na minha mão. Mais pesada que qualquer fardo que eu já carreguei na vida passada. E olha que não foram poucos. Naquela vida, eu morri sozinha, esquecida, depois de anos sacrificando tudo pelo homem que agora batia o pé, impaciente, ao meu lado. Daniel Chagas, meu suposto noivo, olhou para mim, depois para o formulário de casamento semi-preenchido sobre o balcão frio do cartório. Sua impaciência era uma dor familiar, profunda na minha barriga.
"Laura, por que está demorando tanto?" Sua voz era um rosnado baixo, carregado com a mesma tensão que se tornara seu estado padrão sempre que Sofia estava envolvida. "Já estamos atrasados. A Sofia ligou de novo, ela está tendo uma daquelas... crises dela."
Meu olhar se demorou no espaço em branco rotulado 'Contratante 1: Nome Completo'. Em outra vida, exatamente cinco anos atrás, minha mão teria tremido de alegria, não com essa determinação fria e calculada. Aquela Laura teria gravado seu nome com reverência, vendo-o como o portal para um futuro compartilhado, um futuro que prometia calor e pertencimento. Aquela Laura teria ignorado os sinais de alerta e as dúvidas incômodas, apegando-se à ilusão do amor.
Mas aquela Laura estava morta. Ela morreu em uma cama de hospital estéril, com os bipes fracos de um monitor como sua única companhia, enquanto Daniel, seu marido, consolava sua irmã de criação divorciada, Sofia, durante um ataque de ansiedade inventado. A memória era uma ferida fresca e aberta, mesmo agora. A negligência fria espelhava o aço frio da maca, o arrepio se infiltrando em seus ossos muito antes de seu coração finalmente parar. Meus dedos, agora traçando a linha vazia, sentiam o frio fantasma daquela morte solitária.
"Laura?" A voz de Daniel cortou a memória, mais ríspida desta vez. Ele não notou o olhar distante em meus olhos, o fantasma de uma vida não vivida. Ele nunca notava nada que não estivesse diretamente relacionado ao seu próprio conforto ou à crise fabricada de Sofia. "Você está bem? Parece um pouco... pálida."
Sua preocupação era uma poça rasa, facilmente esvaziada. Não era por mim, não de verdade. Era pelo inconveniente que minha palidez representava para sua agenda, para sua necessidade de correr para o lado de Sofia. Eu lhe dei um murmúrio evasivo, uma sílaba desprovida de emoção. Meus dedos ainda pairavam sobre o formulário, a caneta ainda em posição.
Ele suspirou, uma lufada de ar dramática que bagunçou o cabelo ralo em sua testa. "Olha, eu sei que este é um grande passo, mas falamos sobre isso por anos. Você sabe o quão importante isso é para a mamãe e o papai, e para... bem, para a Sofia." Ele olhou para o celular, que acabara de vibrar com outra mensagem. Sua testa se franziu, seu rosto bonito marcado por uma tensão familiar. "Ela está realmente mal hoje. Talvez seja o estresse de nós nos casarmos. Ela se sente substituída, sabe? Ela sempre precisa de mim, Laura."
Suas palavras, destinadas a explicar, foram outro prego no caixão das esperanças da minha vida passada. Sofia, frágil e carente, uma flor delicada que exigia rega constante do poço de atenção de Daniel. Eu a vi em minha mente, seus olhos grandes e inocentes, seus lábios carnudos, sua mão perpetuamente agarrada ao braço dele. Uma "flor de lótus branca", como a internet chamava as mulheres manipuladoras que fingiam pureza. Daniel, o herói, sempre caindo pela donzela em perigo fabricado.
Um sorriso amargo, quase imperceptível, tocou meus lábios. Uma ideia, fria e brilhante, se solidificou em minha mente.
"Sabe", eu disse, minha voz surpreendentemente calma, "talvez você devesse ir ver como ela está."
A cabeça de Daniel se ergueu de repente. Seus olhos, geralmente tão rápidos em criticar minha falta de compreensão, agora continham um brilho de surpresa, depois alívio. Era como se eu tivesse acabado de lhe entregar um cartão de "Saída Livre da Prisão".
"Você acha mesmo?" Ele perguntou, um tom esperançoso em sua voz. "Mas a licença..."
"Pode esperar", eu disse, dando de ombros. A mentira tinha gosto de cinzas, mas era um ingrediente necessário na minha nova receita para a liberdade. "A Sofia precisa de você. Isso é importante também, mas a família vem em primeiro lugar, certo? Especialmente quando alguém está em apuros." Eu o observei, medindo sua reação. Ele estava praticamente vibrando com o desejo de ir embora.
"Você está certa! Você sempre entende, Laura." Ele estendeu a mão sobre o balcão, cobrindo brevemente a minha. O toque era uma concha vazia, desprovida do calor que eu um dia desejei. "Eu vou só acalmá-la. Prometo, volto em uma hora, duas no máximo. A gente termina isso, e então podemos comemorar direito hoje à noite. Só você e eu."
Suas palavras eram uma performance, um roteiro bem ensaiado que ele usara inúmeras vezes. Só você e eu. Sempre terminava com Sofia precisando mais dele.
"Não se preocupe com hoje à noite, Daniel", eu disse, minha voz mais suave do que eu pretendia. Uma estranha onda de pena, rapidamente suprimida, me invadiu. Pena do homem que caminharia de cabeça para a própria miséria. "Apenas certifique-se de que a Sofia está realmente bem. É isso que importa."
Ele assentiu, já meio virado para a saída. "Você é a melhor, Laura. Sério. Tão compreensiva." Ele fez uma pausa e acrescentou: "É por isso que eu te amo."
As palavras pairaram no ar, um eco familiar de uma melodia esquecida. Eu não disse nada. O que havia para dizer? Discutir com um fantasma? Lutar por um amor que nunca foi verdadeiramente meu? Eu fiz isso em outra vida, e isso me matou.
Então ele se foi, um turbilhão de passos apressados e o som distante de seu carro dando partida. A porta do cartório se fechou, deixando-me sozinha, a caneta ainda na mão. Respirei fundo, o ar viciado enchendo meus pulmões, e então soltei lentamente o peso sufocante que se instalara ali por anos. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida frenética de libertação.
A imagem daquele quarto de hospital brilhou, nítida e clara. As paredes brancas e estéreis. A conversa distante das enfermeiras. A dor constante e surda de um corpo desistindo. E a voz de Daniel ao telefone, baixa e preocupada, mas não por mim. "Sofia, meu bem, apenas respire. Estou chegando. A Laura pode cuidar das coisas aqui." Ele desligou sem nem mesmo um adeus, sem um único pensamento para a mulher que estava morrendo por ele.
Ele não estava lá quando o médico deu a notícia sobre as complicações da gravidez. Ele não estava lá quando nosso filho, uma vida minúscula e lutadora, não conseguiu sobreviver. Ele não estava lá para segurar minha mão quando a dor, física e emocional, ameaçou me despedaçar. Ele estava sempre com Sofia, consolando-a em sua última crise fabricada, enxugando suas lágrimas de crocodilo.
Lembrei-me do dia em que nosso filho, nosso primogênito, perguntou a ele: "Papai, por que a tia Sofia fica com todo o seu tempo? Por que não a mamãe?" Daniel apenas bagunçou o cabelo do menino, um gesto displicente. "Sua tia Sofia é delicada, filho. Ela precisa mais de mim." E então ele olhou para mim, uma acusação silenciosa em seus olhos, como se eu fosse a única a exigir demais. Eu apenas engoli o nó na garganta, o gosto amargo de saber que meu próprio filho via o quão pouco eu importava.
Não. De novo não. Esta vida, esta segunda chance, não era para isso.
Meu olhar voltou para a certidão de casamento. Com a mão firme, uma mão que não tremia mais de tristeza ou saudade, risquei meu próprio nome na seção 'Contratante 1'. Então, com um floreio desafiador, escrevi um diferente.
Sofia Rosales.
Empurrei o formulário pelo balcão para a funcionária que esperava, um sorriso discreto, quase imperceptível, brincando em meus lábios.
"Aqui está", eu disse. Minha voz estava calma, totalmente desprovida da tempestade que acabara de passar dentro de mim.
A funcionária, uma mulher entediada com olhos cansados, mal olhou para o papel. Ela o pegou, carimbou e me entregou um recibo. "Parabéns."
"Obrigada", respondi, a palavra com gosto de liberdade.
Saí do cartório, o ar fresco da manhã batendo no meu rosto como um tapa revigorante. O peso que se instalara em meu peito por anos, um fardo esmagador de queixas não ditas e esperanças não realizadas, havia se dissipado. Tinha sumido. Substituído por uma leveza que eu não sabia que existia. O mundo parecia mais brilhante, as cores mais nítidas, os sons mais claros. Era como se eu estivesse vivendo sob um filtro cinza perpétuo, e agora, de repente, a saturação tivesse sido aumentada ao máximo.
Sofia Rosales. O nome ainda parecia estranho, mesmo depois de todos esses anos. Ela entrou na minha vida quando eu tinha dez anos, um ano depois que meus pais morreram e fui adotada pelos Chagas. Ela era um ano mais nova, uma menina frágil com olhos enormes e cheios de lágrimas, agarrada a Sônia Chagas, a mãe de Daniel. Sônia, que dizia amar nós duas, mas cujo olhar sempre se suavizava para Sofia, cuja voz sempre assumia um tom açucarado quando falava com ela. Sofia sabia como interpretar o papel da vítima indefesa, da órfã grata, e Sônia engolia tudo. Eu, por outro lado, era a capaz, a que cozinhava, limpava, dava aulas particulares para Daniel e, mais tarde, fazia bicos para contribuir com a casa. Minha competência era minha maldição.
Lembrei-me do dia em que recebi minha carta de aceitação para a melhor faculdade de direito de São Paulo. Era um sonho, um farol de esperança em minha vida monótona. Mostrei a Daniel, a empolgação borbulhando em meu peito. Ele olhou para a carta, depois para mim, uma expressão indecifrável em seu rosto. Mais tarde naquela noite, Sofia teve um 'ataque de asma' particularmente violento, seu corpo pequeno sacudido por tosses teatrais, seu rosto pálido como um fantasma. Sônia e Daniel correram para o lado dela, seus rostos gravados de medo. Sofia, entre suspiros, sussurrou: "Não nos deixe, Laura. Precisamos de você. Quem vai cuidar do Daniel quando você for embora?"
Na manhã seguinte, Daniel me sentou, sua mão repousando em meu braço, seus olhos sérios. "Laura, eu sei que isso é difícil, mas... a Sofia realmente precisa de nós. E mamãe e papai, eles estão envelhecendo. Meu treinamento na academia de polícia é tão exigente. Você não pode... não pode adiar a faculdade de direito por um ano ou dois? Só até estarmos mais estáveis?" Suas palavras, revestidas de preocupação, pareciam um cobertor sufocante. Eu o amava então, tola e cegamente. Acreditei que o futuro dele era o meu futuro. Dobrei a carta de aceitação, coloquei-a de volta no envelope e nunca mais a olhei. Sofia se recuperou milagrosamente no dia seguinte. Seu sorriso, quando ela pensava que eu não estava olhando, era triunfante.
Bem, não desta vez. Sofia podia ficar com Daniel. Ela podia ter a vida que eu um dia pensei que queria. Eu ia para São Paulo. Eu ia para a faculdade de direito. E eu ia construir uma vida, minha própria vida, que fosse livre.