Ele ergueu os olhos para o espelho. A água escorria entre as sobrancelhas e pela linha firme da mandíbula, mas não era isso que o deixava inquieto. Era a sensação de que algo estava deslocado dentro dele. Como se estivesse fora do próprio corpo, interpretando um papel.
E então, a lembrança veio.
A festa da faculdade. A música abafada pelo bar lotado. O calor dos corpos dançando, risadas, o cheiro de cerveja misturado a perfume barato. E Tom.
Tom, com o sorriso travesso e os olhos brilhando sob a luz fraca. Ele o puxou pela mão para um canto mais escuro, longe dos olhares curiosos. "Me escuta," disse, segurando os dois copos de plástico entre os dedos. "Eu não quero casar com outra pessoa. Só com você."
Andrius lembrava da risada que dera na época. "Você está bêbado."
"Não estou." Tom largou os copos no chão e tirou do bolso uma fita roxa, fina e macia. Segurou o pulso de Andrius com delicadeza, como se tocasse algo sagrado, e amarrou a fita ali. Depois, fez o mesmo no próprio pulso.
"Agora estamos ligados," sussurrou, olhando dentro dos olhos dele. "Promete que, não importa o que aconteça, vai lembrar disso?"
E então, Tom o beijou.
No espelho do banheiro, Andrius viu o reflexo daquele beijo como se estivesse acontecendo ali, naquele instante. Sentiu o gosto da juventude, da liberdade, da ilusão de que o mundo era deles.
Mas o mundo não era.
O mundo arrancou Tom de seus braços naquela mesma noite.
O telefone tocou na madrugada. O hospital. O acidente. O corpo irreconhecível. A fita roxa, suja de sangue, ainda amarrada no pulso de Tom quando Andrius o viu pela última vez.
A dor voltou como uma lâmina cortando seu peito. Andrius respirou fundo, mas não conseguiu conter as lágrimas que começaram a rolar silenciosamente. Apoiou as mãos na pia, os ombros tremendo levemente.
Na sala ao lado, Olivia dormia tranquila. O anel de noivado brilhava em seu dedo, o símbolo de um futuro estável, correto, seguro.
Mas Andrius sabia a verdade.
Parte dele ainda estava preso àquela noite, àquela promessa, àquela fita roxa. E nada que ele fizesse poderia mudar isso.
A sala dos professores estava silenciosa, preenchida apenas pelo leve ruído da cafeteira ao fundo. O cheiro forte de café se misturava ao aroma amadeirado dos móveis antigos, dando ao ambiente um ar de seriedade e tradição. Andrius estava sentado à mesa, revisando anotações para sua próxima aula, mas sua mente estava dispersa. A noite anterior ainda pesava sobre ele. O passado nunca lhe dava descanso.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando afastar aquela sensação estranha. Havia algo no ar, uma inquietação que não conseguia nomear.
E então, a porta se abriu.
Andrius levantou os olhos por reflexo, pronto para ignorar quem quer que fosse. Mas quando viu o jovem que entrava, seu corpo travou.
O tempo parou.
Era como ver um fantasma.
O rapaz era magro, usava óculos de armação fina, carregava um caderno apertado contra o peito e olhava ao redor com a hesitação de quem pisa em território desconhecido. Os cabelos castanhos levemente ondulados caíam sobre a testa, e havia algo nele – na maneira como seus olhos inquietos analisavam o ambiente, na postura insegura – que fez Andrius sentir o chão sumir por um segundo.
Era Tom. Não, não podia ser.
Tom estava morto.
E, ainda assim, ali estava aquele jovem, vivo, respirando, real. As semelhanças eram perturbadoras. O mesmo tipo físico. O mesmo jeito de morder levemente o lábio ao se sentir nervoso. Apenas os óculos e a postura retraída o diferenciavam.
- Com licença... - a voz do rapaz quebrou o silêncio. Ele olhava para Andrius, hesitante, sem saber se estava interrompendo algo.
Andrius piscou algumas vezes, sentindo o peito apertar. A mente lutava contra a realidade.