A pobreza tem um cheiro muito específico: é uma mistura de mofo, sabão de barra e o metal das moedas que você conta repetidamente, esperando que elas se multipliquem magicamente.
- Clarice! Vai perder o ônibus! - a voz da minha tia ecoou da cozinha.
Ignorei. Eu estava ocupada terminando de passar meu único terno preto, comprado em um brechó, mas que, sob as luzes certas, ainda passava por algo sofisticado.
Aos dezesseis anos, eu já tinha o diploma do ensino médio em mãos. Enquanto meus colegas de classe ainda estavam preocupados com quem levaria quem ao baile, eu estava subindo ao palco para receber uma medalha de honra ao mérito.
Fui a primeira da minha linhagem de mulheres lavadeiras e homens ausentes a ter um papel que dizia que eu era "especial".
Foi esse mérito que me abriu a primeira porta. Um estágio em uma firma de contabilidade de bairro. Na época, os contadores mais velhos riam e me chamavam de "A Prodígio". Eles me testavam: mostravam uma planilha por trinta segundos e a fechavam.
- Qual o valor do passivo na linha quarenta e dois, menina? - perguntavam, zombando.
- Trinta e quatro mil, setecentos e doze reais com oitenta centavos. A nota fiscal de referência termina em zero-nove-quatro - respondia, sem piscar.
Eles chamavam aquilo de dom. Uma bênção. Uma memória fotográfica que eu usava para decorar receitas de família que ninguém mais escrevia, endereços de ruas que eu nunca visitei e as medidas exatas da pequena quitinete onde eu morava.
Mas o que eles não entendiam é que guardar tudo significa que você nunca descansa.
Eu guardava os olhares de desprezo, os números das contas atrasadas e o rosto de cada pessoa que me disse que eu nunca sairia da favela.
Sete anos depois, minha memória me levou para o lugar mais alto e perigoso da cidade: a presidência da Moretti Indústrias.
Eu era a estagiária assistente da secretária executiva de Vincenzo Moretti há dois anos. Eu sabia o número do sapato dele (42), a marca do café que ele tomava sem açúcar (Kopi Luwak), a placa de seus doze carros blindados e o código de acesso de todos os seus cofres.
O andar da presidência das Indústrias Moretti não era um lugar de barulho. Geralmente, o silêncio era tão espesso que se podia ouvir o tilintar do gelo no copo de uísque de Vincenzo. Mas hoje, o prédio parecia uma colmeia sob ataque.
Eu ainda era apenas a estagiária da contabilidade, a garota de terno barato que subia e descia com pilhas de notas fiscais. Ninguém me via. Eu era parte do mobiliário, até o momento em que o mundo digital deles ruiu.
- Como assim, tudo sumiu?! - O grito de Vincenzo Moretti atravessou as portas duplas de carvalho.
Eu estava parada no corredor, com a secretária sênior, Sra. Hastings, que tremia visivelmente. O sistema central havia sido invadido. Um ataque hacker de escala massiva não apenas sequestrou os fundos, mas executou um comando de "limpeza total". Em questão de segundos, a agenda de Vincenzo, um labirinto de reuniões globais e contatos da máfia desapareceu. Pior: as fórmulas químicas das duas maiores patentes de exportação da empresa, receitas que valiam bilhões e que nunca foram colocadas no papel por segurança, tinham sido apagadas do servidor criptografado.
Entramos na sala. O cenário era de guerra. Vincenzo estava de pé, as veias do pescoço saltadas, e ao lado dele, seu pai, o velho Don Moretti, cujos olhos frios prometiam a morte de quem quer que fosse o responsável.
- A agenda de seis meses... os contatos da Sicília... as fórmulas do Polímero X e da Liga 50... Tudo virou poeira - rosnou o velho Moretti. - Estamos perdidos.
O silêncio que se seguiu foi fúnebre. A Sra. Hastings gaguejou algo sobre backups que também foram corrompidos. Vincenzo socou a mesa, fazendo o notebook de última geração saltar.
Foi então que dei um passo à frente. Meu coração martelava contra as costelas, mas minha mente estava estranhamente límpida.
Eu via cada arquivo que tinha passado pela minha mão. Cada linha de código que espiei por cima do ombro de Vincenzo enquanto servia o café.
- Com licença... - minha voz saiu pequena, mas firme. - Eu posso ajudar.
Vincenzo virou-se para mim, o olhar carregado de um desprezo impaciente.
- Agora não é hora para café ou relatórios de estágio, garota. Saia.
- Eu não quero servir café - o encarei, sustentando o olhar que fazia homens feitos tremerem. - Eu tenho memória fotográfica, li os arquivos das fórmulas ontem, quando o senhor me pediu para organizar a pasta de patentes. E eu vi sua agenda aberta na tela às nove da manhã.
O pai de Vincenzo semicerrou os olhos, uma mão repousando no cabo de uma arma oculta sob o paletó.
- Memória fotográfica? Isso é um mito menina.
- O jantar com o ministro alemão é no dia 14, às 20h30, no restaurante L'Étoile. O código da conta na Suíça para o pagamento da logística é Alpha-Sete-Nove-Zero-Nove. - Comecei a falar, as palavras saindo como uma metralhadora. - A fórmula do Polímero X começa com uma base de polietileno de alta densidade a 140 graus Celsius, seguida pela adição de catalisador de Ziegler-Natta na proporção de 0,05% por tonelada... querem que eu ajude?
O queixo de Vincenzo não caiu, ele era controlado demais para isso, mas seus olhos se dilataram. Ele e o pai se entreolharam em um silêncio carregado de eletricidade.
- Todos fora - ordenou Vincenzo, sem desviar os olhos de mim. - Agora!
A Sra. Hastings e os técnicos de TI saíram tropeçando uns nos outros. A porta se fechou com um estalo seco. Eu estava sozinha com os dois homens mais perigosos do país.
- Faça - disse o velho Don, aproximando-se de mim como um lobo avaliando uma presa valiosa. - Repita cada número da fórmula. Se você conseguir terá um grande bônus depositado em sua conta.
Vincenzo caminhou até ficar a poucos centímetros de mim. O perfume de sândalo e perigo me envolveu. Ele pegou um bloco de notas físico e uma caneta de ouro, colocando-os na minha frente.
- Escreva - ele comandou, a voz agora baixa, quase um sussurro possessivo. - Se o que você diz é verdade, Clarice Lima, você acaba de se tornar a pessoa mais importante deste império. E a mais protegida.
Naquele momento, enquanto eu começava a transcrever bilhões de dólares de memória para o papel, eu vi o brilho nos olhos de Vincenzo. Não era mais apenas interesse profissional. Era a percepção de que ele tinha encontrado um tesouro. E Vincenzo Moretti nunca deixava seus tesouros irem embora.