De repente, ela parou e levou a mão aos lábios, como se quisesse impedir que as palavras saíssem. Um olhar de pura pena passou pelo seu rosto antes de ela balançar a cabeça, soltar um suspiro pesado e se afastar em direção à cozinha.
Jasmine deixou o silêncio se instalar. Seu coração afundou lentamente, como uma pedra caindo em águas profundas. A casa da família Carlisle-Beaumont estava praticamente vazia na última semana. Todos foram para o hospital, cercando Seraphina Stone como se ela fosse o centro do universo. Inclusive o próprio marido de Jasmine. Lachlan mal saía do lado da mulher, sem ligar ou mandar mensagens. A indiferença era tão completa que parecia até artística.
Nesse momento, a porta da frente se abriu com um clique.
Quando Lachlan entrou na sala, a atmosfera se transformou instantaneamente. Ele estava animado de uma forma que Jasmine não via há anos, talvez nunca. A máscara fria e polida que ele usava em casa havia desaparecido, substituída por uma excitação juvenil que o fazia parecer mais jovem e gentil. Era uma versão dele que ela nunca teve permissão de conhecer.
"Sera teve o bebê. Ele pesa três quilos e duzentos gramas. Tem bochechas fofas e é lindo demais." Ele já estava falando antes mesmo de seu casaco atingir a cadeira, e as palavras saíram num turbilhão. "O garoto é teimoso para caramba e deu um trabalho e tanto para Sera. Quase tivemos que fazer uma cesariana, mas ela se recusou e insistiu em ter um parto normal. Você sabe o quanto ela é determinada."
Jasmine não disse nada.
"Vê-la com tanta dor... Deus, até a vovó e a mamãe estavam chorando. Foi intenso." Ele balançou a cabeça, com um sorriso carinhoso nos cantos da boca. Um sorriso que nunca fora direcionado a Jasmine nos três anos de casamento.
Ele falava de Seraphina Stone, herdeira do Grupo Stone e a mulher que havia se casado com a família Carlisle-Beaumont no mesmo dia que Jasmine, há três anos. Um casamento duplo que cativou a elite de Nova York, com fontes de champanhe, senadores presentes e um quarteto de cordas trazido de Viena. Jasmine se casou com o segundo filho, Lachlan Carlisle-Beaumont IV, e Seraphina com o primogênito, Alastair.
No entanto, isso não durou muito. Alastair, um homem viciado em velocidade, bateu sua McLaren num caminhão durante uma corrida de rua ilegal. O carro se dobrou como papel, o fazendo não sobreviver.
Jasmine ainda se lembrava dos votos de casamento. Alastair havia acrescentado uma frase pessoal, bem ali no altar, prometendo abandonar seus hobbies perigosos por Seraphina. Por ela, ele jurou que se afastaria de tudo isso. A pergunta sobre o que o levou àquela estrada naquela noite era algo que ninguém parecia disposto a fazer. A família se uniu, e a história oficial se tornou um fato: um trágico acidente, uma jovem viúva deixada para lamentar e uma família destruída pela dor.
Com isso, a preciosa filha dos Stones se tornou viúva. Os Carlisle-Beaumonts, afogados em culpa, a incentivaram a se casar novamente, mas ela recusou, dizendo que ficaria e honraria a memória de Alastair, permanecendo na família Carlisle-Beaumont.
A família recompensou essa devoção, encontrando uma maneira de dar a Seraphina o filho que ela dizia que precisava para superar sua dor. Como Alastair estava morto, o pai da criança era seu irmão gêmeo.
Jasmine olhou para suas mãos, delicadas e imóveis, antes de dizer: "Parabéns."
O sorriso de Lachlan se apagou. "O que isso significa?"
"Só significa exatamente o que eu disse. Parabéns."
Ele se aproximou, parando ao lado da cadeira dela. O calor na sua expressão se transformou em algo mais duro. "Jasmine, este é um dia feliz. Será que você pode deixar de lado essa atitude passivo-agressiva pelo menos uma vez?"
Jasmine ergueu o queixo e encontrou os olhos dele. "Ela deu à luz uma criança que você ajudou a conceber. Só estou te dando os parabéns. Não era isso que você queria?"
O ar ficou pesado, e o maxilar de Lachlan se contraiu. "Sera passou por um inferno para ter esse bebê porque amava Alastair e queria algo dele para se agarrar, uma razão para continuar vivendo. O que há de errado com isso?"
Soltando um suspiro tão suave que foi quase inaudível, Jasmine perguntou: "Você já pensou em me perguntar?"
De nada disso ela sabia. Quando a gravidez de Seraphina foi anunciada, ela pensou que fosse o filho póstumo de Alastair. Ela suportou as mudanças de humor de Seraphina com uma cortesia paciente, engolindo seu orgulho toda vez que a mulher exigia um tratamento especial. Foi só quando o prazo de gestação se tornou suspeito, impossivelmente suspeito, que Lachlan confessou.
Ele explicou que Seraphina estava grávida de um filho concebido por inseminação artificial, e que seu esperma congelado havia sido armazenado há anos na Clínica de Fertilidade St. Jude. Toda a família discutiu sobre isso e todos concordaram. Ele esperava que Jasmine pudesse entender.
A família Carlisle-Beaumont havia conspirado para mantê-la no escuro. Eles prepararam a refeição, a serviram e depois a convidaram para a mesa só para agradecer.
Lachlan se sentou no sofá à frente dela, pegou um cigarro de uma caixa prateada e o colocou entre os lábios antes de acender o isqueiro com um estalo afiado e hábil. A chama se acendeu, iluminando os traços rígidos do seu rosto por um momento.
"Eu não ia deixar você estragar isso. Sera precisava disso, e a família também. Minha contribuição foi meramente técnica e mínima. Não vejo por que está transformando isso em algo tão feio", disse ele calmamente.