Cathy Carter permanecia à margem do incêndio, envolta em um vestido escarlate que parecia sangue envenenado. O sorriso em seu rosto era inconfundível, e o prazer sádico em seus olhos não deixava margem para dúvidas.
"Gracie..." Cathy a chamou. "A partir de agora, mamãe, papai, nossos irmãos são só meus. Até seu noivo é meu agora. Pode morrer em paz."
As palavras saíram baixas, mas eram tão dolorosas que ardiam mais que as chamas.
Através de uma visão distorcida, Gracie a encarava. O sangue transbordava em sua boca, reduzindo suas palavras a sons fracos e partidos.
Foi então que o ódio por Cathy a consumiu por inteiro.
O ressentimento dentro dela era tão profundo que nem o fogo ardente conseguiria reduzi-lo a cinzas.
Duas décadas antes, ela e Cathy foram trocadas ao nascer por engano.
Enquanto uma delas cresceu criada como a princesa da família Carter, a outra fora forçada a sobreviver longe dali, atravessando anos de pobreza, fome e privações.
Quando os Carter finalmente a encontraram, Gracie achou que seus anos dolorosos haviam acabado. Imaginava que finalmente teria pais amorosos, irmãos carinhosos e um lar onde realmente pertencesse.
Infelizmente, nunca esteve tão enganada.
Em vez do carinho que tanto ansiava, sua volta à família Carter foi recebida apenas com artimanhas e armadilhas sem fim.
Sempre que Cathy deixava escapar algumas lágrimas, os pais logo concluíam que Gracie era o problema.
Sempre que Cathy se fazia de vítima, os irmãos se convenciam de que Gracie era insensível.
E sempre que Cathy soltava algumas mentiras, até o homem que iria se casar com ela a encarava com puro desprezo.
Ninguém se dava ao trabalho de verificar os fatos, nem lhe dava a chance de se explicar.
Não importava o que Cathy dissesse, eles acreditavam piamente.
"Se você fosse pelo menos metade do que Cathy é, não envergonharia essa família dessa forma."
"Uma pessoa cruel como você não tem o direito de ser minha irmã."
"E alguém como você nunca será da família Phillips."
Essas vozes duras ecoavam na mente de Gracie, uma atrás da outra, desfazendo o último fio de esperança a que ainda se apegava.
O que importava se eles tinham o mesmo sangue?
Afinal, nada disso poderia competir com os vinte anos que Cathy passou ao lado deles.
As chamas ardiam cada vez mais forte, e o calor intenso engolia o pouco de consciência que Gracie ainda lhe restava.
De súbito, ouviram-se passos apressados do lado de fora.
Richard e Elaine Carter chegaram às pressas, com os filhos logo atrás.
Cathy correu de imediato para os braços de Elaine.
Com os olhos inchados de lágrimas e a voz trêmula, ela disse: "Pai, mãe... sinto muito. Tudo isso é por minha causa. Se eu tivesse conseguido impedir Gracie antes, isso nunca teria acontecido.
"Por que está se desculpando?", retrucou Jason Carter, o segundo irmão de Gracie, os dentes cerrados.
Sem conter a fúria, ele prosseguiu: "Foi ela que ateou fogo. Se ela morrer nisso tudo, será exatamente o que ela merece."
"Isso mesmo." Elaine abraçou Cathy com mais força, reservando toda a sua preocupação à filha que segurava. "Alguém tão desonrada como ela nunca deveria ter voltado para a família Carter."
Richard permanecia em silêncio por perto, o rosto fechado. Quando finalmente falou, seu tom foi firme e impiedoso: "Deixe ela. Quando o fogo terminar o serviço, ela não estará mais por perto para causar problemas a esta família."
Com o corpo tremendo como se não fosse conter as lágrimas, Cathy escondeu o rosto no ombro de Elaine.
Um instante depois, ergueu a cabeça devagar e olhou além de todos, encontrando os olhos de Gracie através das chamas.
Não havia o menor traço de tristeza em seu olhar, apenas vitória e uma provocação descarada.
Com a voz trêmula, Cathy sussurrou: "Mas... Gracie ainda é sua filha biológica..."
Jason soltou uma risada de escárnio antes de dizer: "E daí? De hoje em diante, mamãe e papai só têm uma filha, e essa filha é você."
Essas palavras destruíram o último resquício de esperança que sustentava Gracie.
Ela olhou para as pessoas à sua frente e, por algum motivo, quase teve vontade de rir.
Então essa era a família por cuja aceitação ela quase sacrificara tudo, mas, aos olhos deles, ela nunca valeu nada.
O fogo alcançou a barra de seu vestido e queimou sua pele, mas a dor já não a alcançava.
A única coisa que restava dentro dela era o ódio.
Se o destino um dia a deixasse viver de novo, ela nunca mais desperdiçaria um pingo de esperança com a família Carter.
Nunca mais.
...
De repente, Gracie abriu os olhos. Sua respiração vinha irregular, o peito subindo e descendo depressa, e gotas de suor frio lhe cobriam a testa.
Por instinto, ergueu o braço para se proteger do fogo - mas só encontrou ar vazio e frio.
As chamas haviam desaparecido - e o sangue também.
Ela ficou perfeitamente imóvel por alguns instantes antes de olhar ao redor do quarto com cautela.
Paredes cor de creme a cercavam, com cortinas cinza-claras penduradas à janela. No canto, repousava a mala gasta que trouxera ao chegar à residência dos Carter.
Este era o quarto de hóspedes onde a tinham colocado quando os Carter a trouxeram de volta.
Em sua vida anterior, Cathy logo encontrara um jeito de mandá-la para o depósito, que era úmido, gelado e em piores condições que os alojamentos dos empregados.
Gracie saltou da cama e foi para o banheiro, onde abriu a torneira e jogou água gelada no rosto repetidas vezes.
A água fria a fez despertar por completo.
A jovem refletida no espelho tinha o rosto pálido, e um leve medo ainda lhe assombrava os olhos - era, sem dúvida, a versão dela de um ano antes.
Ela seguiu com o olhar fixo no espelho, apertando a pia cada vez mais.
De repente, batidas fortes na porta quebraram o silêncio.
"Gracie! Saia daí agora mesmo!"
Era uma voz que ela conhecia muito bem, junto com a raiva que a carregava.
Era Jason, seu segundo irmão.
Ainda de frente para o espelho, Gracie ergueu os olhos devagar, e um sorriso sutil e gélido aflorou em seus lábios.
Esse momento era bem familiar para ela. Em sua vida anterior, tudo começara nesse mesmo dia.
Cathy caíra da escada de propósito, depois desatara a chorar, acusando Gracie de tê-la empurrado.
Jason chegara furioso, convencido de que a culpa era dela.
Gracie tentara explicar desesperadamente o que realmente acontecera, mas ninguém acreditou numa única palavra. Antes que o dia terminasse, fora atirada ao depósito.
Do outro lado da porta, a voz furiosa de Jason ecoou de novo. "Foi você que empurrou Cathy escada abaixo? Ficou louca?"
Por um breve instante, Gracie permaneceu imóvel. Então, com calma, prendeu o cabelo para trás com movimentos leves e precisos.
A imagem no espelho que a encarava já não carregava nenhum traço de submissão. Cada resquício de insegurança, medo e a ânsia por aprovação deles havia se desintegrado por completo.
Ela ganhara uma segunda chance de viver.
Se o destino lhe concedera a oportunidade de recomeçar, ela se recusava a fingir que os Carter eram a família amorosa e perfeita que diziam ser.
Desta vez, não nutriria mais qualquer laço com nenhum deles.
De agora em diante, a única pessoa que ela amaria e protegeria seria ela mesma.