Mesmo com todos esses rostos familiares, ninguém sequer a avisou sobre o casamento.
A brisa carregava a fragrância de rosas frescas misturada com um profundo aroma amadeirado.
O perfume que enchia o ar se chamava Rendição, que Cheryl havia criado e pretendia dá-lo como presente de casamento para Jeremy.
Agora, essa mesma fragrância, que antes representava devoção e pertencimento, enchia o local do casamento dele com outra mulher.
No final do tapete vermelho, estava Jeremy - num terno branco feito sob medida, os olhos fixos em Danica Pearson, a mulher que ocupou o lugar de Cheryl na família Pearson por mais de duas décadas.
Cheryl era a filha biológica da família Pearson, reencontrada somente três anos atrás.
Anos atrás, os avôs de ambos lutaram lado a lado na guerra e selaram um acordo: seus netos se casariam.
Foi por isso que Cheryl se tornou esposa de Jeremy ao retornar à família Pearson.
O que ninguém sabia era que Cheryl amava Jeremy fazia sete longos anos, acreditando que o destino finalmente lhe havia sorrido e que passaria o resto da vida como a mulher mais feliz do mundo.
No entanto, a realidade destruiu esse sonho sem qualquer piedade.
Vestida de noiva, Danica segurava firmemente o braço de Jeremy, tão frágil que até uma brisa suave parecia capaz de derrubá-la.
As notas suaves da Marcha Nupcial foram interrompidas antes de se transformarem num estrondo estridente quando Cheryl entrou no local.
Um por um, todos os olhares se voltaram para ela, e os sorrisos nos rostos da família Pearson desapareceram.
"Como ela veio parar aqui?"
"Garantimos que ninguém contasse a ela."
"Quem deixou isso acontecer? Isso vai arruinar tudo."
Os murmúrios se espalhavam pela multidão.
Embora Cheryl fosse a esposa legítima de Jeremy, era tratada como uma intrusa no próprio casamento.
Por um breve momento, Jeremy pareceu surpreso ao vê-la, mas logo recuperou a habitual compostura.
Após sussurrar algumas palavras reconfortantes para Danica, ele colocou a mão dela na da madrinha e foi em direção a Cheryl.
Quando Jeremy se aproximou, o familiar cheiro de pinho envolveu Cheryl, trazendo de volta uma fragrância que, por anos, foi a sua preferida.
"O que está fazendo aqui?", ele perguntou, preferindo questioná-la ao invés de se explicar.
Os olhos de Cheryl se fixaram no homem que amava há sete anos, mas suas feições marcantes, o olhar profundo e os lábios frios de repente lhe pareceram estranhos.
Que irônico!
"Por que eu não deveria estar aqui?", disse Cheryl calmamente, como se estivessem falando sobre algo comum. "Meu marido está se casando com outra pessoa hoje. Não tenho todos os motivos para vir e dar meus parabéns?"
Uma carranca profunda se formou entre as sobrancelhas de Jeremy, revelando a impaciência que ele tentava esconder. Sem dizer mais nada, ele segurou o pulso dela e a levou para um corredor tranquilo, longe da multidão.
Após se certificar de que estavam fora da vista de todos, ele soltou a mão dela. "Cheryl, não complique as coisas."
Jeremy pegou um cigarro do estojo no bolso do terno. Ao invés de acendê-lo, o enrolou entre os dedos. "Danica não tem muito tempo de vida. Os médicos a diagnosticaram com câncer de fígado terminal. Disseram que ela não tem mais do que meio mês para viver."
Diante dessas palavras, a expressão de Cheryl permanecia inalterada. "E o que isso tem a ver comigo?"
"Tudo o que ela quer antes de morrer é vestir um vestido de noiva e se tornar minha esposa", disse Jeremy, a olhando com total convicção. "Este casamento não tem validade legal. É apenas uma encenação para realizar o último desejo dela, para que ela possa partir sem arrependimentos. Com certeza você entende isso."
Um momento depois, ele falou novamente num tom mais suave, que soava mais condescendente do que reconfortante: "Cheryl, isso não passa de uma cerimônia. Você realmente precisa guardar rancor de alguém que já está morrendo?"
Cheryl desviou sua atenção para o gramado atrás do ombro dele, onde os convidados riam e conversavam como se nada estivesse acontecendo.
Perto dali, sua mãe, Laura Pearson, segurava a mão de Danica enquanto enxugava suas lágrimas suavemente.
Não muito longe, seu pai, Walter Pearson, observava Danica com uma preocupação inconfundível.
Já seu irmão, Nicholas Pearson, estava perto de Danica e lhe oferecendo palavras de conforto.
Mesmo sendo do mesmo sangue de Cheryl, seus pais uniram-se secretamente à filha adotiva para consumar esse casamento absurdo com seu próprio marido, deixando Cheryl como a única excluída de toda essa situação.
Que hilário.
Embora seus olhos começassem a arder, ela segurou as lágrimas com teimosia.
Após um momento para se recompor, ela engoliu a dor no peito.
Então, ergueu os olhos para encontrar os de Jeremy e falou com uma compostura relutante: "Jeremy, se este casamento não passa de uma encenação, então por que escondeu isso de mim?"
Um traço de impaciência surgiu no rosto de Jeremy, seus lábios se contraindo. "Você teria aceitado se eu tivesse sido honesto com você? Não te contei porque não queria que você fizesse suposições desnecessárias. Além disso, Danica está muito frágil para lidar com qualquer abalo emocional. Eu não poderia deixar que nada a aborrecesse."
Ele se desdobrava para poupar Danica de qualquer aborrecimento, sem enxergar a menor contradição em enganar a própria esposa.
Na mente de Jeremy, casar-se com Danica em plena cerimônia era perfeitamente aceitável, mas Cheryl não era sequer digna de ouvir a verdade. Pelo contrário, ele via a própria esposa como uma bomba-relógio prestes a perder o controle e arruinar tudo.
Um sorriso frio surgiu nos lábios de Cheryl. "Jeremy, se eu não tivesse aparecido esta noite, quando pretendia me contar?"
"Depois que Danica se fosse", respondeu Jeremy sem a menor hesitação.
"E quanto a tudo isso? O que acontecerá depois do casamento?"
Sem mudar sua expressão, ele respondeu: "Ficarei ao lado dela como marido até o fim. Esse é o papel que prometi desempenhar. Mas não se preocupe. Sei onde estão os limites e não os ultrapassarei."
Por um longo momento, Cheryl apenas olhou para o belo homem diante dela. Então, uma risada silenciosa escapou, cheia de escárnio.
Ele estava disposto a desempenhar o papel de marido de outra mulher.
Então onde isso a deixava?
Que lugar restava para a mulher que era legalmente sua esposa?
"Quando ela se for, tudo voltará ao normal. Você continuará sendo a senhora Barrett, e seu lugar ao meu lado não mudará", disse Jeremy.
Essas palavras soaram ainda mais absurdas aos ouvidos de Cheryl.
Em silêncio, ela ergueu os olhos para o belo homem diante de si.
Nos últimos três anos, havia se desdobrado em sacrifícios, movida apenas pelo desejo de ser uma boa esposa.
Preocupada com o estômago sensível dele, passava os dias estudando receitas leves e nutritivas. E, ao saber de suas noites mal dormidas, vasculhou cada canto em busca de aromaterapias que lhe trouxessem descanso.
Sempre acreditou que sua sinceridade acabaria por alcançá-lo, e que mesmo diante de um coração frio como um iceberg, sua devoção inabalável seria capaz de derreter ao menos uma pequena parte dele.
Só agora Cheryl percebia que cada gesto de bondade e ternura que ele demonstrava sempre fora destinado a outra pessoa.
Para realizar o último desejo de uma mulher, ele havia descartado o orgulho da própria esposa como se não significasse absolutamente nada.
"Jeremy, você é mais egoísta do que eu jamais imaginei."
Um profundo cansaço tomou conta de Cheryl, deixando um vazio tão avassalador que até o simples ato de respirar pesava no peito.
Ao invés de chorar ou perder o controle, ela o encarou com uma compostura tranquila. "Quero o divórcio."
Os dedos de Jeremy pararam de se mover no instante em que essas palavras o atingiram, o cigarro permanecendo imóvel em sua mão.