Meus sapatos de salto, aqueles que eu tinha comprado em uma promoção online e que claramente não foram feitos para sobreviver a uma tempestade tropical, afundavam em poças que mais pareciam pequenos lagos urbanos. A pasta com meus documentos estava encharcada, meu cabelo - que eu tinha alisado com tanto esforço naquela manhã - agora se transformava em cachos rebeldes e úmidos que grudavam no meu rosto.
Eu parecia um gato molhado. Um gato gordo, molhado e desesperado.
Não que eu tivesse problemas com a palavra "gorda". Eu tinha aprendido, aos vinte e quatro anos, a abraçar minhas curvas. Meu corpo plus size era parte de quem eu era, e eu me recusava a me envergonhar dele. Mas naquele momento, com a roupa colada no corpo e a maquiagem escorrendo, eu me sentia simplesmente ridícula.
O Moretti Group ficava a três quarteirões dali. Três quarteirões que, sob aquela chuva, pareciam três maratonas.
Olhei para o relógio de pulso. Quinze minutos para a entrevista.
Respirei fundo. Eu conseguia. Eu tinha sobrevivido a coisas piores. Sobrevivi a um voo de onze horas de São Paulo para Miami. Sobrevivi a três anos morando com meu irmão, Carlos, que tinha o dom especial de transformar qualquer situação em um desastre financeiro. Sobrevivi a empregos humilhantes, a chefes abusivos, a noites mal dormidas me perguntando se eu algum dia conseguiria sair do buraco.
Uma entrevista de emprego não ia me derrotar.
Eu. Conseguia.
Foi exatamente nesse momento de autoconfiança forçada que o universo decidiu me dar uma bofetada.
O carro surgiu do nada.
Bem, não exatamente do nada. Ele surgiu da esquina, rápido demais, potente demais, um Porsche preto que cortava a chuva como uma faca. Eu não tive tempo de reagir. Só senti o impacto da água suja da sarjeta explodindo sobre mim, me atingindo em cheio, me cobrindo da cabeça aos pés.
Fiquei paralisada.
A água escorria pelo meu rosto, pelo meu cabelo, pela minha roupa. Minha blusa branca, que eu tinha escolhido com tanto cuidado para parecer profissional, agora estava transparente e manchada de lama. Minha saia lápis parecia um pano molhado. Meus sapatos... bem, meus sapatos já estavam condenados antes.
Mas o choque durou apenas um segundo.
Porque a raiva veio logo em seguida.
- SEU FILHO DA PUTA! - gritei, sem pensar, sem medir as consequências, deixando que anos de frustração acumulada explodissem em palavras. - SEU CORNO DE MERDA! NÃO OLHA POR ONDE DIRIGE, NÃO? TÁ CEGO? SUA DESGRAÇA!
O Porsche parou.
O vidro traseiro começou a descer lentamente, como se o motorista tivesse todo o tempo do mundo. E quando o rosto apareceu, eu senti meu coração parar.
Não de medo. Não de vergonha.
De... algo que eu não soube nomear naquele momento.
Ele era italiano. Tinha que ser. Ninguém no mundo tinha aquele rosto sem ser italiano. O queixo forte, a mandíbula definida, os olhos escuros como café sem açúcar, o cabelo preto levemente ondulado, penteado para trás. Ele parecia ter saído de uma capa de revista, daquelas que faziam mulheres suspirarem em salas de espera de salão de beleza.
E ele estava me olhando com uma expressão que misturava tédio e desprezo.
- Você fala comigo? - perguntou ele, a voz carregada de sotaque, profunda e perigosa.
Eu deveria ter me desculpado. Deveria ter abaixado a cabeça e ido embora. Deveria ter feito qualquer coisa além de encarar aquele homem como se ele fosse o próprio diabo.
Mas eu era brasileira. E brasileira com raiva não foge de briga.
- Falo com você sim, seu motorista de merda! - respondi, gesticulando com as mãos. - Você acabou de me encharcar da cabeça aos pés! Olha o que você fez com a minha roupa! Eu tenho uma entrevista de emprego agora, seu idiota! E por sua causa, eu pareço um rato afogado!
Ele ergueu uma sobrancelha. Apenas uma. Aquele gesto arrogante, típico de quem está acostumado a ser servido, a ser obedecido, a nunca ser questionado.
- E eu deveria me importar... por quê?
A pergunta veio com uma frieza que me desarmou por um segundo. Ele não estava sendo sarcástico. Ele realmente não se importava.
- Porque... porque é o mínimo de decência humana! - balbuciei, sentindo a raiva se misturar com algo parecido com incredulidade. - Você me molhou e nem ao menos vai pedir desculpas?
- Desculpas - repetiu ele, como se estivesse saboreando a palavra pela primeira vez. - Não. Não vou pedir desculpas. Você estava no lugar errado, na hora errada. Talvez da próxima vez preste mais atenção por onde anda.
E antes que eu pudesse responder, o vidro subiu novamente.
O Porsche arrancou, me deixando ali, parada na calçada, encharcada, humilhada e com a boca aberta.
- CORNO! - gritei uma última vez, mesmo sabendo que ele não ouviria mais. - TOMARA QUE SUA ESPOSA TE TRAIA COM O PERSONAL TRAINER!
Respirei fundo, tentando recuperar o controle. Minhas mãos tremiam. Meu corpo inteiro tremia. Mas não era de frio, apesar da chuva gelada. Era de ódio.
Que homem desprezível. Que sujeito arrogante. Que...
Balancei a cabeça, tentando afastar a imagem daqueles olhos escuros da minha mente.
- Foco, Bianca. Foco.
A entrevista. Eu ainda tinha uma entrevista.
Olhei para o relógio. Oito minutos.
Corri.
Um silêncio pesado pairou no ar.
E então, para minha completa surpresa, ele riu.
Não uma risada alta ou escandalosa. Mas um som baixo, profundo, que pareceu reverberar no meu peito. Seus olhos brilharam com algo que eu não soube identificar.
- Sabe qual é o seu problema, senhorita Rossi? - perguntou ele, dando um passo para trás e voltando para a cadeira. - Você não tem filtro. Diz exatamente o que pensa.
- E isso é um problema?
- Para a maioria dos empregadores, sim. Para mim... - Ele fez uma pausa, ajeitando o paletó. - Para mim, é refrescante.
Senti uma pontada de esperança.
- Isso significa que... eu tenho uma chance?
Ele se sentou novamente, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os dedos.
- Significa que estou disposto a ignorar o fato de que você chegou parecendo um rato afogado e me insultou duas vezes em menos de uma hora.
- Três vezes - corrigi, sem pensar.
Ele ergueu a sobrancelha.
- Desculpe - murmurei, baixando os olhos. - Força do hábito.
- Vou levar isso em consideração - disse ele, a voz carregada de ironia. - Agora, sente-se, senhorita Rossi. E me conte por que eu deveria contratá-la.
Sentei-me na cadeira em frente à mesa dele, tentando não pensar na água que escorria da minha roupa para o estofado caro. Meu coração ainda batia acelerado, mas agora por um motivo diferente.
Aquela era a minha chance.
E eu não ia desperdiçá-la.
O Moretti Group ocupava um arranha-céu inteiro no coração de Brickell, o bairro financeiro de Miami. O prédio de vidro e aço refletia as nuvens cinzentas da tempestade, parecendo tocar o céu. Eu já tinha passado por ali dezenas de vezes, sempre olhando para cima com admiração e sonhando em trabalhar naquele lugar.
Agora, entrando pela porta giratória encharcada e tremendo, o sonho parecia mais um pesadelo.
O lobby era grandioso, com piso de mármore branco, um balcão de recepção que parecia ter saído de um filme de ficção científica e funcionários impecavelmente vestidos que me olhavam com uma mistura de pena e espanto.
Eu não podia culpá-los. Eu parecia um desastre.
- Posso ajudar? - perguntou a recepcionista, uma mulher loira e magra com um sorriso falso colado no rosto.
- Eu... eu vim para a entrevista - disse, tentando ajeitar o cabelo encharcado. - Bianca Rossi. Vaga de secretária executiva.
O sorriso da recepcionista vacilou por um instante, mas ela se recompôs rapidamente.
- Claro. O senhor Moretti a está esperando no trigésimo andar. O elevador é ali à esquerda.
Assenti, agradecendo com um aceno e me dirigindo ao elevador. Minhas mãos ainda tremiam, mas agora era por outro motivo.
Nervosismo.
Não era todo dia que se entrevistava para trabalhar diretamente para um dos homens mais poderosos de Miami. Dante Moretti era uma lenda no mundo dos negócios. Italiano, herdeiro de um império bilionário, conhecido por sua inteligência afiada e por seu temperamento... difícil.
Eu tinha lido tudo sobre ele. Sabia que ele era exigente, que demitia secretárias com uma frequência assustadora, que era considerado impossível de agradar. Mas também sabia que o salário era excelente, os benefícios eram incríveis e que trabalhar para ele poderia abrir portas que eu nunca imaginei.
E eu precisava desesperadamente daquele emprego.
As portas do elevador se fecharam, e eu me vi refletida no espelho.
Meu Deus.
Minha blusa branca estava manchada de lama. Meu cabelo, que deveria estar liso e profissional, agora era uma massa de cachos úmidos e rebeldes. Minha maquiagem tinha escorrido, deixando manchas escuras sob meus olhos. E meus sapatos... bem, meus sapatos estavam oficialmente mortos.
Eu parecia um desastre ambulante.
Mas eu não ia desistir. Não depois de tudo o que eu tinha passado para chegar até aqui.
Respirei fundo, tentando ajeitar a roupa com as mãos. Não adiantou muito. Mas eu era brasileira, e brasileira não desiste fácil.
- Você consegue, Bianca. Você consegue.
O elevador parou no trigésimo andar com um som suave.
As portas se abriram.
E eu me vi diante de um dos escritórios mais elegantes que já tinha visto. Paredes de vidro, móveis modernos, uma vista deslumbrante da baía de Miami. Tudo ali exalava poder e dinheiro.
Uma mulher elegante, de cabelos ruivos e óculos de armação fina, me recebeu com um sorriso profissional.
- Senhorita Rossi? - perguntou ela, a voz suave. - Eu sou a Amanda, assistente do senhor Moretti. Ele a está esperando. Por aqui, por favor.
Assenti, seguindo-a por um corredor silencioso, sentindo meu coração bater cada vez mais forte. Meus sapatos faziam um som desagradável a cada passo, um lembrete constante do meu estado lamentável.
Amanda parou diante de uma porta dupla de madeira escura e bateu suavemente.
- Senhor Moretti, a senhorita Rossi chegou.
Uma voz respondeu de dentro.
- Pode entrar.
Meu estômago se contorceu.
Aquela voz.
Eu conhecia aquela voz.
Era a mesma voz que tinha me perguntado, com tanto desprezo: "E eu deveria me importar... por quê?"
Não.
Não, não, não, não, não.
Deus, por favor, não.
Amanda abriu a porta, e eu entrei no escritório, sentindo minhas pernas falharem.
O escritório era gigantesco. Uma mesa de mogno imponente ocupava o centro do espaço, cercada por janelas do chão ao teto que ofereciam uma vista espetacular da cidade. Estantes de livros cobriam as paredes, e um sofá de couro preto estava posicionado em um canto.
Mas nada disso importava.
Porque sentado atrás da mesa, com aqueles mesmos olhos escuros e aquela mesma expressão arrogante, estava o homem do Porsche.
Ele usava um terno preto sob medida que devia custar mais do que meu aluguel mensal. O cabelo estava perfeitamente penteado, sem um fio fora do lugar, apesar da tempestade lá fora. E ele me olhava com... divertimento.
Ele estava se divertindo.
O desgraçado estava se divertindo.
- Senhorita Bianca Rossi - disse ele, a voz carregada de ironia, provando meu nome como se fosse um vinho caro. - Que... surpresa.
Fiquei paralisada.
Meu cérebro parecia ter travado. Minhas pernas se recusavam a se mover. Minha boca se abria e fechava sem emitir som algum.
Ele era Dante Moretti.
O carrasco que tinha me encharcado com o Porsche era o homem para quem eu estava prestes a trabalhar.
O homem que eu tinha chamado de corno, de filho da puta, de desgraçado.
O universo, definitivamente, me odiava.
- Eu... eu posso explicar - balbuciei finalmente, sentindo o calor subir pelo meu rosto.
- Explicar? - Ele ergueu uma sobrancelha, o mesmo gesto arrogante de antes. - Explicar que a candidata à vaga de secretária executiva tem o vocabulário de um estivador e o temperamento de uma cadelinha raivosa?
Aquilo me despertou da paralisia.
- Ei, quem começou foi você! - disparei, apontando o dedo para ele sem pensar. - Você me encharcou da cabeça aos pés e ainda foi grosso comigo!
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. O sorriso no rosto dele era de puro deboche.
- E você me chamou de... como foi mesmo? - Ele fingiu pensar. - Ah, sim. "Corno". "Filho da puta". "Desgraçado". E desejou que minha esposa me traísse com o personal trainer.
Senti meu rosto queimar ainda mais.
- Eu... eu estava nervosa - tentei justificar. - E molhada. E a senhora... o senhor foi insuportavelmente grosseiro.
- E continua me tratando por "você" e me interrompendo - observou ele, a voz cortante. - Está fazendo um trabalho excelente em sua entrevista, senhorita Rossi.
A palavra "entrevista" me atingiu como um balde de água fria.
A entrevista.
Meu Deus, a entrevista.
Tudo o que eu tinha planejado, todas as respostas ensaiadas, toda a postura profissional que eu pretendia manter... tudo tinha ido para o espaço no momento em que aquele homem tinha me encharcado com o carro.
- Senhor Moretti, eu... - comecei, tentando recuperar o controle.
- Silêncio.
A palavra veio seca, autoritária, carregada de um poder que me fez calar imediatamente.
Ele se levantou da cadeira, e pela primeira vez percebi o quão alto ele era. Alto e imponente, com ombros largos e uma presença que preenchia todo o espaço. Ele contornou a mesa lentamente, como um predador avaliando sua presa.
Eu me senti pequena. E não era só por causa dos meus sapatos destruídos.
- Sabe por que estou procurando uma nova secretária, senhorita Rossi? - perguntou ele, a voz baixa e perigosa.
Balancei a cabeça negativamente.
- Porque as últimas três não duraram mais do que um mês. Uma era incompetente. A outra era fofoqueira. E a terceira... bem, a terceira cometeu o erro de se apaixonar por mim.
Ele parou diante de mim, perto demais. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.
- Eu não tolero incompetência. Não tolero fofoca. E definitivamente não tolero sentimentos inadequados no ambiente de trabalho. - Ele inclinou a cabeça, estudando-me. - Você parece ser as três coisas ao mesmo tempo.
- Eu não sou nenhuma dessas coisas - respondi, encontrando forças que não sabia que tinha. - Sou competente. Sei guardar segredos. E a última coisa que eu faria seria me apaixonar por um homem como você.
Ele sorriu.
E aquele sorriso não era de deboche. Era de... interesse.
- Um homem como eu? - repetiu ele, aproximando-se mais um passo. - E que tipo de homem eu sou, senhorita Rossi?
Senti o cheiro dele naquele momento. Amadeirado, com notas de couro e algo mais escuro, mais profundo. Era intoxicante, e eu odiei o fato de perceber isso.
- Arrogante - respondi, sustentando o olhar dele. - Grosseiro. Insensível. Mimado. E aparentemente cruel.
Ele não piscou.
- E o que mais?
- E motorista de merda.
A entrevista durou quarenta minutos.
Quarenta minutos de perguntas afiadas, respostas ensaiadas e aquele olhar penetrante me analisando a cada palavra. Dante Moretti não era um entrevistador comum. Ele não se contentava com respostas superficiais. Ele queria detalhes, exemplos, provas de que eu era capaz.
E eu dei tudo de mim.
Falei sobre minha formação em administração, sobre meus anos de experiência como assistente em São Paulo, sobre minha fluência em português, inglês e espanhol. Falei sobre minha capacidade de organização, minha discrição, minha determinação.
E, para meu alívio, ele pareceu genuinamente impressionado.
- Você tem um currículo sólido - admitiu ele, folheando os documentos encharcados que eu havia tirado da pasta. - Melhor do que a maioria.
- Obrigada - respondi, tentando não sorrir.
- Mas há a questão do seu... temperamento.
Senti o sorriso morrer nos meus lábios.
- Eu não costumo xingar estranhos na rua - defendi-me. - O senhor... o senhor provocou uma reação extrema.
- E se um cliente me provocar? Você o xingará também?
- Claro que não. Eu sei separar as coisas.
- Hmm.
Ele me estudou por um longo momento. Eu sustentei o olhar, recusando-me a desviar. Podia estar encharcada, humilhada e com os sapatos destruídos, mas não ia deixá-lo me intimidar.
- O contrato será de período de experiência de três meses - disse ele finalmente, fechando a pasta. - Começa amanhã às oito. Se chegar atrasada, nem se dê ao trabalho de aparecer.
Pisquei, sem acreditar.
- Eu... eu fui contratada?
- Temporariamente - enfatizou ele. - Ainda não decidi se você serve para o cargo. Considere os próximos três meses um teste. Um longo, exaustivo e provavelmente frustrante teste.
Eu queria pular da cadeira e gritar de alegria. Queria agradecê-lo, apertar sua mão, fazer qualquer coisa que demonstrasse minha gratidão. Mas contive-me.
- Entendido - disse, assentindo. - Não vou decepcioná-lo.
Ele sorriu aquele sorriso novamente. O sorriso que não era de deboche, mas de algo mais.
- Veremos, senhorita Rossi. Veremos.
Levantei-me, pronta para sair, quando a voz dele me deteve.
- Senhorita Rossi.
Virei-me.
- Sim?
- Da próxima vez que me chamar de corno - disse ele, os olhos brilhando com perigo -, certifique-se de que está pronta para as consequências.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
E não era de frio.
- Entendido - sussurrei, sentindo o rosto queimar.
- Pode ir.
Saí do escritório com as pernas tremendo. Amanda me deu um sorriso simpático e me acompanhou até o elevador. Eu mal conseguia processar o que tinha acontecido.
Eu tinha sido contratada.
Por Dante Moretti.
O homem que me encharcou com o carro, que eu xinguei de corno, que parecia odiar tudo em mim... tinha me dado o emprego.
O que eu tinha acabado de fazer?
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O apartamento que eu dividia com Carlos ficava em Little Havana, um bairro modesto e cheio de vida, repleto de restaurantes cubanos e música alta. Quando cheguei, encharcada e exausta, encontrei meu irmão estirado no sofá, jogando videogame e comendo uma pizza fria.
Carlos era três anos mais velho do que eu, mas às vezes parecia dez anos mais novo. Bonito, charmoso e completamente irresponsável, ele vivia pulando de um emprego para outro, sempre com uma desculpa pronta para explicar por que as coisas não davam certo.
- E aí, mana? - cumprimentou ele, sem tirar os olhos da tela. - Como foi a entrevista?
- Horrível - respondi, jogando a bolsa no chão e me afundando no sofá ao lado dele. - E maravilhosa ao mesmo tempo.
Ele fez uma pausa no jogo e me olhou.
- Isso não faz sentido nenhum.
- Eu sei.
- Mas você conseguiu o emprego ou não?
- Consegui.
Ele soltou um grito de comemoração e me abraçou, derrubando a pizza no processo.
- É isso aí! Eu sabia que você conseguia! Minha irmã mais nova, secretária de um bilionário!
- Temporária - lembrei. - Três meses de experiência.
- Não interessa. Você vai brilhar, mana. Você sempre brilha.
Sorri, apesar do cansaço.
- Obrigada, Carlos.
Ele voltou ao jogo, e eu me levantei para ir ao banheiro. Precisava de um banho quente. Precisava tirar aquela roupa encharcada. Precisava parar de pensar nos olhos escuros de Dante Moretti.
Mas, enquanto a água quente caía sobre meu corpo, eu sabia que aquele era apenas o começo.
Amanhã começaria uma nova fase na minha vida.
E, de alguma forma, eu tinha a sensação de que nada nunca mais seria igual.
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Naquela noite, deitei na cama encarando o teto, incapaz de dormir.
A imagem de Dante Moretti não saía da minha cabeça. O jeito como ele me olhava, como se eu fosse um enigma que ele queria decifrar. A voz profunda, carregada de ameaça e promessa.
"Da próxima vez que me chamar de corno, certifique-se de que está pronta para as consequências."
Que tipo de consequências?, perguntei-me, sentindo o calor se espalhar pelo meu corpo.
Não. Não, não, não. Eu não podia pensar assim. Dante Moretti era meu chefe. Meu chefe arrogante, insuportável e completamente proibido.
E, além disso, um homem como ele nunca olharia para uma mulher como eu.
Uma mulher gordinha, cheia de curvas e inseguranças. Uma mulher que ainda era...
Fechei os olhos, afastando o pensamento.
Eu era virgem. Aos vinte e quatro anos, eu nunca tinha feito sexo. Não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade. E por medo. Medo de me abrir para alguém, de me mostrar vulnerável, de ser rejeitada.
Dante Moretti era o tipo de homem que poderia ter qualquer mulher do mundo. Modelos, atrizes, herdeiras. Por que ele olharia para uma secretária gordinha com um irmão vagabundo e um guarda-roupa de brechó?
Ele não olharia.
E era melhor assim.
Eu precisava daquele emprego. Precisava pagar as contas, ajudar Carlos, construir uma vida melhor para nós dois. Não podia me dar ao luxo de me apaixonar pelo chefe.
Não podia.
Mas, enquanto o sono finalmente me alcançava, eu não pude evitar um último pensamento antes de mergulhar na escuridão:
Dante Moretti era o homem mais lindo que eu já tinha visto.
E isso era um problema muito, muito grande.