Parecia real o bastante para eu nunca questionar nosso relacionamento - ainda que jamais tivéssemos realizado uma cerimônia de acasalamento com a alcateia dele.
Até três dias atrás, Marcus rasgou a certidão em pedaços durante uma birra. Foi isso que me trouxe aqui: tirar uma segunda via da certidão.
Mas agora, parada ali, com as mãos trêmulas...
Como era possível que nossa certidão fosse falsa?!
Então meu celular vibrou. Baixei os olhos para a tela, ainda entorpecida. Número desconhecido. Normalmente teria ignorado, mas alguma coisa me fez atender.
"Sra. Smith? Aria Smith?"
"Sou eu." Minha voz soou distante, como se pertencesse a outra pessoa.
"Meu nome é Richard Castellano. Sou o advogado responsável pelo espólio de Vincent Smith. Peço desculpas pelo contato abrupto, mas é imprescindível que nos encontremos o quanto antes. A senhora é a única herdeira do patrimônio do seu pai."
Pisquei. "Desculpe, o quê? Eu não tenho pai. Meus pais me abandonaram quando nasci."
"Sra. Smith, Vincent Smith faleceu há duas semanas. O teste de DNA e o testamento dele são conclusivos. A senhora é sua única filha biológica legítima."
Meu queixo quase tocou o chão.
Vincent Smith - aquele nome era simplesmente lendário tanto na sociedade humana quanto no mundo dos lobisomens. Órfão ainda criança e acolhido por uma alcateia, demonstrara um gênio extraordinário para os negócios desde muito cedo. Já adulto, com o apoio do irmão adotivo Alfa, construiu um enorme império comercial que conectava perfeitamente os reinos humano e sobrenatural.
E agora alguém estava me dizendo que eu, como única filha dele, herdaria a maior parte da sua fortuna?
"O patrimônio é substancial, incluindo participações comerciais em vários territórios de alcateias. Precisamos iniciar o processo de herança imediatamente."
Claro. Ninguém ousava subestimar a extensão da riqueza de Vincent Smith. Meu cérebro parecia estar levando uma porrada atrás da outra com aquela notícia capaz de abalar o mundo.
"Preciso confirmar uma coisa primeiro", me ouvi dizer. "Retorno a ligação."
O mais importante agora era verificar minha situação matrimonial.
Se aquilo fosse real, Ethan e eu não precisaríamos mais nos preocupar com os olhares questionadores da alcateia. Eu poderia concluir a cerimônia final de acasalamento com ele com tranquilidade, tornar-me Luna de pleno direito e conduzi-los a uma prosperidade ainda maior.
A viagem até o prédio principal da Alcateia Silver Creek levou vinte minutos.
O corredor do terceiro andar estava incomumente silencioso. Quando me aproximei do escritório de Ethan, vozes escaparam pela porta entreaberta.
A voz de uma mulher.
"Ethan... sim... aí mesmo..."
A voz dele, rouca e crua: "Você é tão gostosa, Clara."
Clara. Minha melhor amiga.
Então, algo ainda pior do que a traição em si me atingiu como um trem em alta velocidade.
"Quando você vai se livrar dela, Ethan? Nosso filho já tem três anos. Estou cansada de fingir." A voz de Clara estava afiada de impaciência.
Marcus. O garotinho que Ethan disse que tínhamos adotado porque meu corpo humano supostamente não suportaria uma gravidez, e a alcateia precisava de um filhote para servir de herdeiro do Alfa.
Não conseguia respirar. O filhote que eu havia criado com tanto amor era filho biológico de Ethan e Clara. Meu coração sangrava - como eles ousavam?!
Dentro do escritório, Ethan suspirou, a voz fria. "Só mais um pouco. Ainda precisamos dela. As finanças da alcateia estão estáveis por causa do trabalho dela. Assim que garantirmos tudo, eu a corto fora."
"E o que eu faço até lá? Continuar bancando a vítima enquanto ela desfila por aí como Luna?"
"Você sabe que ela não significa nada pra mim. É só uma ferramenta. Assim que arrancarmos dela até a última gota de valor..."
Não esperei ouvir mais.
Empurrei a porta.
Clara estava empoleirada na mesa de Ethan, a blusa desabotoada, a saia levantada até a cintura. Ethan estava enterrado dentro dela, os quadris impulsionandose enquanto ela se arqueava contra a boca dele, as pernas firmemente enlaçadas ao redor dele.
Aquilo me deu vontade de vomitar.
"Desculpem interromper." Minha voz cortou o ar como uma lâmina.
Eles congelaram. Clara se atrapalhou para se cobrir, quase caindo da mesa. Ethan se endireitou de súbito, a boca molhada, os olhos arregalados de choque.
Encostei no batente da porta, de braços cruzados, com um sorriso frio nos lábios.
"Não parem por minha causa. Ia me sentir mal de estragar o clima."
"Aria. Você não deveria estar aqui", disse Ethan, com leve irritação.
"Não deveria?" Minha voz tremeu de raiva. "Acho que você me deve uma explicação. Me disse que eu era sua Companheira Verdadeira. Me perseguiu durante meses. Me convenceu de que a Deusa da Lua havia escolhido nós dois. Mas agora está transando com a minha melhor amiga?"
"Não tem nada a explicar." A voz de Ethan saiu sem a menor emoção. "Clara é minha companheira predestinada. Não vamos ficar dando voltas. O acordo com o Grupo V&A precisa das assinaturas finais. Precisamos de você para uma última reunião como Luna. Depois disso, você vai receber uma compensação razoável pelos seus... serviços."
"Compensação?" A palavra tinha gosto de veneno. "Você mentiu pra mim por dois anos. Me usou para construir o portfólio de negócios da sua alcateia. E agora quer me pagar para ir embora, como uma criada que já cumpriu a função?"
Clara caminhou na minha direção, ajustando a roupa com uma lentidão deliberada. "Sinceramente, você devia ser grata. Uma órfã humana sem família, sem alcateia? Onde mais você teria ido parar? Se for esperta, aceita o que ele oferecer e vai embora sem alarde. Caso contrário..."
Me movi.
Atravessei a sala antes que Clara pudesse terminar a ameaça, minha mão se fechando em punho nos cabelos dourados dela. Ela soltou um grito agudo, cambaleando para trás contra a mesa.
"Aria!" Ethan agarrou meu braço e torceu com força suficiente para me fazer arquejar. Depois me empurrou para trás. Com força.
Bati no chão, o impacto sacudindo minha coluna inteira. A dor explodiu no meu cóccix. Olhei para ele, atordoada.
Ethan me encarava de cima, os olhos azul-claros frios como gelo. "Toque nela de novo e eu quebro seu pulso."
As palavras doeram mais do que a queda.
Algo dentro do meu peito rachou. Não minhas costelas. Algo mais profundo.
Levantei com esforço, as mãos tremendo. Meu cóccix latejava onde tinha batido no chão. Tudo doía. Não só meu corpo.
"Vocês dois vão se arrepender disso", falei baixinho.
Virei e saí antes que qualquer um deles pudesse responder.
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De volta ao meu carro, disquei o número do advogado.
"Sr. Castellano. Sobre o espólio de Vincent Smith. Estou pronta para conversar."
"Ótimo. Preciso confirmar: a herança exige que a herdeira assine como indivíduo independente. Se for casada, o cônjuge precisa testemunhar o processo. Caso contrário..."
"Sou solteira", cortei. "Legalmente, sempre fui."
Dois segundos de silêncio.
"Entendido", disse Castellano, e algo no tom dele mudou, tornando-se mais formal. "Isso simplifica consideravelmente as coisas. Está disponível para uma reunião ainda hoje? Há vários detalhes no testamento que precisam ser discutidos pessoalmente."
"Quanto antes, melhor. Estou com bastante tempo livre por esses dias."
"Então no meu escritório. Hoje à tarde?"
"Às três estou lá."
Fiquei sentada no estacionamento por mais cinco minutos, olhando para o nada.
Dois anos. Dois anos de mentiras, manipulação e humilhação. Dois anos acreditando que estava lutando por algo real.
Mas agora tinha acabado.
Ethan estava prestes a descobrir exatamente como era a fúria de uma herdeira.