Eu o conhecia bem, afinal, nos últimos seis meses, trabalhava para ele como sua assistente executiva, mas ele não dava a mínima para quem perdia o emprego, desde que ele ganhasse dinheiro.
E esse era Spade Kolby. O capitalista de coração frio, grosseiro e implacável, e cofundador da Zacc & Kross Ventures. Ele também dirigia a Emergence Capital como presidente e CEO, a empresa onde eu trabalhava.
"Você me ouviu ou vou ligar para o RH e pedir uma assistente mais competente?" Com uma intensidade assustadora, seu olhar estava tão cravado em mim que ele nem se movia, nem piscava.
Paralisada pelo pânico, assenti.
"Some da minha frente antes que eu mude de ideia." Ele se jogou na cadeira, pegando o café que eu havia deixado na sua mesa mais cedo.
"Obrigada, senhor." Me surpreendi com minha voz saindo mais firme do que eu esperava. Após colocar as pastas na sua mesa, me virei.
De fato, eu não podia me dar ao luxo de perder o emprego agora que tinha ainda mais contas para pagar. De qualquer forma, a culpa era minha, pois eu estava atrasada. Não importava se eram cinco minutos ou um minuto. Para Spade Kolby, que nunca havia se atrasado na vida, isso era um atraso e era inaceitável.
Eu nem tinha chegado à porta quando ele praguejou novamente: "Este não é o meu café." "Ah, merda", pensei. Como ele sabia? Eu não fazia ideia do que James, o barista, colocava no café dele, já que eu pedia o mesmo café preto todas as manhãs, da mesma cafeteria.
Endireitei a postura. "Foi isso que me atrasou, senhor." Embora não fosse verdade. "James teve uma emergência. Ele não estava lá quando cheguei. Eu esperei..."
"Você está mentindo. Não quero mais ouvir suas desculpas. Assuma seu erro, senhorita Sharpe. Você se atrasou, e ponto final." Ele jogou o copo de café no lixo sem o menor remorso.
Eu queria dar um sermão nele por desperdiçar comida quando milhões de pessoas dormiam com fome e não podiam pagar por um simples copo de café, mas ele era um babaca e não se importava nem um pouco.
"Vou ligar para saber se ele voltou e trago outro copo para o senhor."
"Não precisa." Ele pegou a pasta. Suas narinas ainda estavam dilatadas de raiva.
Felizmente, consegui sair da sua sala sem xingá-lo na cara. Atendi ligações, priorizei suas reuniões e compromissos, organizei suas viagens, detalhei roteiros para o mês seguinte e encaminhei os e-mails importantes para ele.
Se havia uma coisa que eu gostava no meu trabalho era que ele nunca me contatava nos fins de semana. Ele não exigia que eu buscasse sua roupa na lavanderia ou me mandava resolver seus assuntos pessoais. Alguém fazia isso por ele.
Eu nunca sequer fui chamada em sua cobertura. Se ele precisava de algo meu, pedia ao seu motorista e guarda-costas, Haddon Wave, para buscar comigo. Ele nunca me pediu para organizar seu almoço ou jantar pessoal, a menos que fosse relacionado a negócios.
No horário do almoço, Piper, minha colega de trabalho ruiva e melhor amiga, sentou-se comigo e colocou um taco na minha tigela. "Você precisa comer."
"Eu estou comendo", respondi com a boca cheia de salada.
"Você se atrasou de novo", disse ela entre uma mastigada e outra. "E está perdendo peso. Estou preocupada com você."
"Não estou, não." Dei uma mordida enorme no taco enquanto checava meu celular em busca de mensagens, mas não havia nenhuma. "E eu estou bem."
"Você sempre chegava vinte minutos antes de todo mundo, mas esta semana já se atrasou duas vezes. Como sua mãe está?"
Terminei o taco e Piper ainda esperava por uma resposta. No meio da salada, dei de ombros.
"Ei. Me liga se precisar de ajuda." Senti sua mão apertando meu pulso. "É sério, Rob. Não tenho experiência em cuidar de pessoas doentes, mas sei jogar roupa suja na máquina, aspirar o chão e lavar a louça, sabe?"
"Obrigada." Dei a ela um sorriso forçado e respirei fundo. "Mamãe teve febre ontem à noite. Tive que levantar no meio da noite e dirigir até a casa dela. Vim de lá hoje de manhã. Eu deveria ligar para saber como ela está, mas talvez ainda esteja dormindo."
"E a Barbra? Já faz dois meses e ela nunca mais voltou ou te ligou?" Ela estava falando da minha melhor amiga desde a faculdade, minha ex-colega de apartamento, Barbra Wilson, que me deixou com apenas um bilhete.
"Não. E espero que não volte. Aquela vadia." Respirei fundo enquanto meu peito se apertava de raiva. "Se ela estava com problemas, por que não podia se abrir comigo?"
"Você tem razão. Como ela pôde fazer isso com você, justo quando você está lidando com a saúde da sua mãe? Espero que ela não tenha fugido com outro cara. Meu Deus, que egoísta." Seus lábios se curvaram em nojo.
"Tudo bem. Meus problemas são meus problemas." Meu estômago se revirou. Mamãe e eu tínhamos conversado sobre isso. Ela sabia que eu tinha ficado para pagar o aluguel do apartamento sozinha. Como as coisas da Barbra ainda estavam lá, eu não podia simplesmente jogar tudo fora e procurar outra colega de quarto.
"Você tentou entrar em contato com ela?" Seus olhos verdes me observavam com atenção.
"Não. Foi ela quem foi embora. Por que eu deveria?"
"Talvez você devesse, Rob. Assim você pode jogar as coisas dela no lixo." Ela deu um sorriso malicioso.
"Talvez eu devesse mesmo jogar as coisas dela fora."
Voltei ao trabalho depois do almoço. Mal tinha tocado no mouse e o telefone tocou. O número era do meu chefe.
Atendi na mesma hora. "senhor Kolby."
"Na minha sala."
A sala dele tinha uma vista espetacular do horizonte de Manhattan, e ele estava parado junto à janela, com uma mão no bolso. Seu olhar estava fixo no arquivo em sua outra mão.
O que eu fiz dessa vez?
"Há quanto tempo você trabalha para mim, senhorita Sharpe?" Merda. Eu tinha um péssimo pressentimento sobre esse tipo de pergunta. Eu já podia ouvir as próximas palavras que sairiam de sua boca.
Apesar de seus olhos se estreitarem para mim, respondi educadamente porque não queria que ele me demitisse. Pelo menos, não agora. "Dois anos no marketing, seis meses como sua assistente, senhor."
"Então que porra é essa?" Ele ergueu o arquivo. "Você revisa o seu trabalho?"
"Sim, senhor."
Quando ele se virou para me encarar, prendi a respiração.
Spade era alto, com um físico incrivelmente em forma. Dizer que ele era lindo era pouco. Ele era deslumbrante. A cicatriz fina em sua sobrancelha esquerda o tornava extravagantemente belo. Ele era a definição de hostil e gostoso, e te deixava tensa de excitação. E quanto mais você o encarava, mais um calor subia pelo seu pescoço enquanto sua mente se demorava em pensamentos sujos e proibidos sobre o que aqueles lábios carnudos poderiam fazer com você.
Mas ele também era frio. Frio o suficiente para te fazer tremer e soltar fumaça pela boca.
"Mais um erro e você está na rua", disse ele, com os dentes cerrados. "Existem milhares de candidatas mais capazes, então o que a torna tão especial, senhorita Sharpe?"
Abri a boca para responder, mas ele me cortou.
"Nada." Nossos olhos se encontraram. Havia tanta escuridão em seu olhar... era assustador. "Então faça o seu trabalho ou está demitida!"
"Peço desculpas, senhor. Não vai acontecer de novo." Dei um passo à frente para pegar o arquivo dele. "Hum, minha..."
"Eu não me importo com as desculpas que você tem. Sua vida pessoal fica do lado de fora deste prédio. Isso aqui não é um grupo de apoio, e eu não sou psicólogo para ouvir suas baboseiras." Nossa, ele é frio, insensível e sem consideração. Mas ele tinha razão.
"Vou refazer até o final do dia, senhor." Saí correndo de sua sala antes que ele pudesse me lançar mais insultos.
Verifiquei o arquivo no meu computador e o revisei, o que me fez rir. Não era à toa que ele estava tão puto da vida.
"Mas que diabos?" Pisquei várias vezes. Havia uma linha em um parágrafo do relatório onde eu escrevi algo que fez minhas bochechas arderem de vergonha. "Meu chefe é um gostoso, mas um escroto egoísta? Não pode ser que eu realmente escrevi isso." Eu realmente escrevi isso?
Eu queria rir muito, mas ainda precisava do emprego.
Eu não fiz isso, fiz? Se gostar do chefe já não fosse clichê o suficiente, eu nem sei como chamar isso.