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   Capítulo 3 O ministério

Diário de um Estranho Por everaldo Personagens: 5609

Atualizado: 2021-02-21 03:10


Por Everaldo Soares

Ao ser informado sobre um conselho realizado a 'portas fechadas' na Matriz, o vice tesoureiro queixava-se de fortes dores de cabeça enquanto se dirigia o mais rápido para lá. Ouviu falar do desaparecimento da quantia de dois milhões dos cofres do Templo.

- Dois-mi-lhões - berrava o presbítero delegado a presidir o ministério, uma vez que o Ministro estava acamado e febril com a malfadada notícia. Pouco mais de uma dezena de membros da cúpula ministerial, ouviam o tom pouco pastoral das palavras que reverberavam na sala de audiência. Um dos missionários fazia comentários de forma arrogante e pretensiosa. - Estamos longe de fazer algum juízo de valor, até que os fatos sejam apurados. - Disse o superintendente.

Naqueles dias, a matriz vinha recebendo a visita de homens importantes. Executivos... Contou o secretário. - O assunto merece interesse. - Disse o dirigente não menos sombrio do que seus colegas. Nada havia de novo, com o desaparecimento de verbas com superfaturamentos de manutenção, e serviços sociais. Com o correr do tempo, as coisas caiam no abismo do esquecimento, e não se falava mais no assunto. A notícia se espalhou com rapidez, os fiéis ficaram escandalizados e exigiam uma explicação. Dir-se-iam procurar até o fim do mundo.

Dias depois, abriram investigação no mais completo sigilo, planejavam descobrir quem foi. O fato aconteceu do nada, como acontece a maioria das maiores desgraças, e o templo inteiro ficou abalado. Alguns acreditavam que se tratava de uma conspiração para derrubar o ministério, e se ocupavam em pensar nisso o tempo inteiro, outros esperavam que o nevoeiro de dúvidas passasse, tão logo quanto surgiu. - Não chegaram a um denominador comum - comentou um professor dominical com um colega. Ostentava uma fisionomia triste, e pelejava afugentar a desconfiança que recaíra sobre o tesoureiro do templo. - Não chegaram... - disse. Depois saiu para refletir sobre o assunto, na mais completa solidão.

- Veja o caso, - dizia o dirigente para o ministro - contra o acaso falam as coincidências. Dizia a respeito de rumores de que alguns membros do ministério, cobiçavam a carreira política. Por algum tempo, discorreram sobre os perigos futuros que ameaçavam a administração do templo. As evidências eram tão impalpáveis, quanto o vento ao redor de suas cabeças. O assunto foi tão comentado que até virou piada nas páginas dos jornais, e para desgosto do ministro, o chefe da tesouraria, um antigo parente, há muito fora vice-prefeito numa cidadezinha interiorana do estado.

Auxiliares e cooperadores iam e vinham como formigas ocupadas, logo se levantaram contra o dirigente. - Quanto mais longe se vai... mais inalcançável e distante tudo fica... e a

verdade pode estar debaixo do próprio nariz. - Falou um deles. Alguns membros do ministério Perpetraram um plano: - Vamos pedir um sinal, - disseram - não nos é lícito questionar os sinais. Na terceira noite todos tiveram um sonho, e eles se puseram a falar deles... primeiro o ministro. Ele se pôs de pé, estava confuso com o sonho, deixou escapar um suspiro... diz ter sonhado com o presbítero despencando do alto da sacada do templo, junto ao corpo, uma carta explicara o motivo do suicídio. Mas foi incapaz de explicar o sentido simbólico do sonho.

Depois foi a vez do dirigente que, segundo, sonhara com o tesoureiro saindo para uma vigília no campo, e estava metido até as orelhas num poço de areia movediça, enquanto suplicava por ajuda. Também não pode traduzir o sonho. Um missionário relatou ter sonhado com Judas Iscariotes enforcando o ministro com a própria gravata, porque estava entediado com o ministério. Mas não deu garantias de seu sonho, nem tampouco sabia seu significado.

Um sonho sucedia outro sonho, e de sonho em sonho a realidade se mostrou indispensável. Embora ninguém pudesse explicar, esperava-se a qualquer momento um sinal. Alguns membros importantes, patrocinadores da causa do templo, vieram procurar o ministro, e não era outra coisa senão o assunto em questão. Dali foram ter com o presbítero, depois com o dirigente. - Talvez quem sabe tratar-se-ia de um oportunista, cuja a mão, a sorte afortunada veio apertar. - Dizia um deles. - Permita-me dizer que este templo tornou-se um instrumento diabólico. - Disse outro.

Naturalmente, umas quantas mais perguntas haveriam de ser feitas, o ministério estava na mira dos olhos atentos dos fiéis, que disparavam acusações contra todos. Um desentendimento instalou-se dentro da tesouraria do templo, levando o tesoureiro a ter um colapso nervoso. E eis o que seria de sua vida... morreu de morte repentina.

Com efeito, a morte causou perplexidade em todos, ainda mais quando boatos circulavam que Deus levara a alma do pobre infeliz, como um sinal de maldição que se abateu sobre o templo. Alguns se convenceram da malfadada história, enquanto outros presumiam uma maquinação dos sonhadores de plantão. Então deram por concluído o caso, convencidos por uma ideia distorcida da vida, onde ali, o sonho reina majestoso à quem lhe deseja pedir favor. Nem mesmo a consciência reclama seu sono, nada mais foi sonhado depois daquele dia, fora dito ali que não cabia a eles desprezarem os sinais, lembrou um Diácono. Tempos mais tarde só existia uma pálida lembrança do que havia acontecido. E, lá, continuam a vender esperança, com o correr do tempo as coisas cairiam no abismo do esquecimento, e não se falaria mais no assunto... nunca mais.

everaldo.uni@gmail.com

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