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   Capítulo 4 Todo Mundo Enlouqueceu

Ela problema X Ele solução Por gath_c Personagens: 13458

Atualizado: 2021-02-15 07:19


– Aiiiii… que fome! – Tentei disfarçar, encarei Stephenie que ria baixinho. O que aquela fofolete estava pensando?

– Eu vou pedir para os empregados servirem o jantar. – Carlos chamou uma de nossas empregadas que o atendeu prontamente.

Eu só conseguia pensar no chute que Stephenie me deu. O que ela queria afinal? Aproximei minha cadeira da dela e, sem nenhuma cerimônia, perguntei em um fio de voz que eu mesma quase não ouvi.

– O que foi?

– O que você pensa que está fazendo, sua terrorista da moda? –Ela sussurrou contrariada.

– Que?

– Que porra de roupa é essa? Tá querendo assustar os convidados? Se for isso, está conseguindo. Tenho certeza que vi aquele loirinho, o Mario, tremer um pouquinho quando você apareceu na escada.

Eu ri.

– Fofolete, fica na tua, que eu sei o que estou fazendo. – MENTIRA.

– OLHA SÓ PAI! ELE CURSA MEDICINA! – Lucy praticamente gritou.

– Eu sei, Lucy. Felipe, você estuda em Darthmont, não é? – interrogou Carlos.

– Oh, que ótimo! Você já pode idolatrá-lo. – Não resistir, falei sem pensar.

– Sim, eu gosto de Darthmont.

– O que você estuda, Mario? – Perguntou Stephenie. Espera! Me ignoraram?

– Estou no primeiro ano do curso de Artes, estou adorando.

– Eu curso administração, mas estou lá mesmo para jogar futebol americano. – Disse Vincent com um largo sorriso sem ninguém perguntar... babaca.

– Você deve ser bom jogando. – Puxou o saco Carlos, enquanto segurava a mão da sua namoradinha.

– O que você faz Stephenie? – Perguntou Felipe, após um gole de vinho.

– Acabei de ser aceita em Yale, estou animadíssima.

– Lucy, chegou uma coleção nova de lingerie, tenho certeza que você vai gostar.

Esme é dona de uma loja sofisticada de lingerie, isso é motivo suficiente para ela e Lucy serem grandes amigas, mas eu acho que é tudo falsidade das duas. Ri com meu pensamento.

– Vou sim, quero que você me dê umas dicas, estou pensando em abrir uma boutique de luxo com roupas desenhadas por mim. – Ela sorriu e fitou Felipe.

Sério, essa conversa está me deixando meio enjoada.

– E você, Helena, o que pretende fazer? – Perguntou Esme em uma tentativa estranha de me incluir na conversa chata.

– Resumindo… não estudo mais, não trabalho, não faço nada que interesse a vocês e só vivo para gastar a grana do papai. – Respondi irônica.

Juro que ouvi alguém sussurrar “que mala”, mas não consegui identificar a voz.

O jantar finalmente foi servido, eu não estava com fome, mas me forcei a provar um pouco da sopa. Não tirei os olhos de Carlos e Esme que conversavam baixinho. Eu conhecia meu pai e, pela sua expressão, ele parecia preocupado.

Carlos pigarreou e começou:

– Eu os convidei para esse jantar para comunicar uma decisão…

– Espera! Que palhaçada poderia ser pior que esse jantar? Só se você me disser que vai casar. – Brinquei colocando uma colherada de sopa na boca.

– Isso mesmo!

A sopa não desceu, coloquei tudo para fora em um engasgo. Mesmo atônita, vi Felipe limpar o olho esquerdo com um guardanapo. Poxa, não tive culpa! Quem mandou ele sentar de frente pra mim?

– Diga que está brincando, Carlos!

– Não, Hele. Eu pedi Esme em casamento e ela aceitou.

Paralisei totalmente olhando para Carlos e Esme, enquanto observava todos à minha volta, os parabenizar com abraços calorosos e sorrisos. Minha respiração estava ficando cada vez mais escassa, por dentro, eu estava aos berros, mas por fora, eu parecia uma perfeita estátua de museu.

– Quando vai ser o casório? – Perguntou Lucy.

– Após a viagem. – Esme respondeu animada.

– Que viagem, mãe? – Questionou Felipe.

– Por favor, tentem ser flexíveis. – Respirou Carlos antes de continuar.

– Esme e eu planejamos viajar para a Itália e provavelmente passar uns dias na Espanha também, pretendemos convencê-los a nos acompanhar. Seria ótimo se passássemos um tempo juntos, para nos familiarizar. Sei que não vamos morar juntos após essa viagem, pois a maioria de vocês está na universidade. Por isso mesmo que queremos aproveitar essa oportunidade.

– Em breve seremos uma grande família, mas não é fácil, já que vocês mal se conhecem, essa viagem seria um teste, uma tentativa de transição suave de duas famílias distintas para uma só. – Esme parecia confiante em seu discurso.

Será que eu estava tendo um pesadelo? Será que eu morri e fui para o inferno? Então, cadê o capeta? Porque eu ainda não tinha saído correndo com as mãos na cabeça? Eu estava entorpecida, talvez em choque.

– Parece uma idéia muito boa, hum, viagem, hum, quem resistiria? – Stephenie ia me pagar caro por aquele comentário. De que lado ela estava?

– Quanto tempo pretendem ficar na Europa? – Ótimo! Até o esquisito do Mario pareceu se interessar.

– Achamos que três meses é o suficiente. – Respondeu Carlos relaxando ao ver que a ideia estava agradando a alguns.

– Não sei se vou poder ir, agradeço desde já o convite. Tenho muitas coisas para resolver nestas férias, e três meses é tempo demais. – Felipe parecia relutante.

– Não quero nem saber... viagem? Tô dentro! – Esse tipo de afirmação só podia vir de alguém tão idiota quanto aquele Vincent.

Essa seria um boa hora para Stephenie me chutar. Eu precisava acordar! Eu precisava reagir.

SOCORRO!!! MEU PAI NÃO PODE CASAR COM ESSA MOSCA MORTA, EU NÃO QUERO UMA FAMÍLIA NOVA!!!

Eu queria gritar isso, mas minha voz não obedeceu.

– Helena? Você está bem? – Finalmente Stephenie notou meu estado de letargia. Ela pôs a mão em meu ombro e eu consegui reagir.

– TODO MUNDO ENLOQUECEU? ESSE CASAMENTO NÃO VAI ACONTECER! NUNCA! – Gritei usando todas as minhas forças para não chorar, afinal, eu não choro, nunca. Chorar é coisa de fracassado.

Saí correndo da sala de jantar, ouvi meu pai me chamar, mas não dei atenção. Tudo que eu queria era sair daquele lugar, senti que ia explodir e matar Esme. O meu mundo estava mudando e isso me deixava aterrorizada. De maneira alguma podia aceitar Esme Chang como madrasta.

Novamente as imagens de minha mãe Alice submergiam do meu inconsciente, me lembrando momentos felizes em que eu podia ver ela e Carlos juntos em um amor que provavelmente não existia mais nesse mundo. Podia lembrar o quanto Carlos era tolerante comigo antes de conhecer Esme, diferente do Carlos mandão que era agora.

Fui até a garagem onde estava a minha moto, uma Ducati 749, ela e minha guitarra Fender são meus únicos amigos e minhas paixões. Subi na moto, o ronco do motor me acalmaria, sabia que a velocidade me faria sentir livre e despreocupada. Suspirei, atravessei os portões de ferro cantando pneu.

Quatro dias se passaram desde aquele maldito jantar. Foram quatro dias sufocantes em que discuti várias vezes com Carlos. Bem, não se discutir é a palavra adequada para definir isso.

# Quarto de Carlos um dia atrás #

– Por fav

or, por favor Carlos, não case com aquela mosca morta.

– Já está decidido, Helena, você vai ter que aceitar. Acho melhor você ir arrumar suas malas. – Respondeu ele calmo enquanto lia o jornal sentado na cama.

– Não vou nessa viagem com os Changs, eles são muito idiotas e estranhos. Juro que aquele esquisito loiro, Mario (acho que é esse o nome) fuma maconha. Só pode ser, ninguém pode ser tão lesado assim. E aquele grandão? Carlos, ele pode ser um assassino em série! Ele sorrindo me dá calafrios na espinha. Já o tal de Felipe nem deve tomar banho, já viu aquele cabelo? Deve ser todo ensebado, meu Deus! – Eu gesticulava tentando ser persuasiva.

– Aposto que eles tiverem uma boa impressão de você também. – Carlos riu baixinho.

– Eu já comprei sua passagem, Helena, é melhor aceitar e aproveitar a viagem, é uma ótima oportunidade de aprender italiano.

– SEM CHANCE! – Comecei a soluçar, coloquei as mãos no rosto fingindo um choro ressentido. – Você agora só faz o que Esme quer, esqueceu que sou sua filha.

– Boa tentativa, Helena, eu não caio em chantagem emocional e eu sei que você não chora. – Falou meu pai, jogando o jornal na cama tranquilamente.

– Stephenie vai sentar ao seu lado no avião.

– Merda! – Gritei antes de sair do quarto batendo a porta.

(...)

Tudo bem, não foi uma discussão, é difícil discutir com alguém como Carlos, ele é muito calmo, seria mais fácil discutir com o Gandhi. Eu preferia que nós discutíssemos, seria um sinal de que ele se importa com a minha gritante rejeição a esse casamento, mas ele parece não se importar nem um pouco.

HORA DE BOLAR UM PLANO, E RÁPIDO!

Era noite e Carlos oferecia seu último jantar antes da viagem, eu não havia feito mala alguma, ainda esperava por um milagre ou um plano melhor, pois o meu único plano no momento era ficar aqui escondida, na escada, ouvindo os murmúrios da conversa entre minha família e os Changs na sala de jantar.

– Me desculpe pela ausência de Helena, ela está indisposta hoje. Tenho certeza que amanhã mesmo antes de embarcamos ela já estará totalmente recuperada. – Explicou Carlos.

Não é fácil fingir que está doente quando seu pai é um médico, mas consegui driblar Carlos e evitar aquele jantar horroroso com os Changs.

– O que ela tem? Está com dor de barriga?

– Vincent! Não seja inconveniente. – Esme chamou a atenção do filho.

Mesmo com vontade de chamar Vincent de “babaca” eu só consegui rir, pois foi exatamente isso que disse ao meu pai para fugir do jantar.

– Fico feliz que tenha aceitado o meu convite, Felipe, sua mãe ficou muito triste quando você confessou que não iria.

Carlos tinha que puxar tanto o saco dos filhos de Esme?

– Não se ofenda Carlos, eu apenas não estava muito empolgado com essa ideia de passar três meses morando com vocês, realmente não fazia parte dos meus planos.

Felipe pareceu sincero ao confessar aquilo.

– O que te fez mudar de ideia, Felipe? – Perguntou a intrometida da Lucy.

– Ele não quer deixar a mamãe sem a supervisão dele perto da Helena. – Falou Vincent em um tom alto demais.

Por alguns segundos a sala de jantar estava mergulhada em um silêncio que atiçou minha curiosidade.

– Que foi? – Perguntou o babaca do Vincent.

– Vincent fala sem pensar. – Riu Mario, o suposto maconheiro.

Não se preocupem, Helena não fará nada contra Esme. – assegurou Carlos.

– Desculpe Carlos, Vincent só quis dizer que sua filha é um pouco imprevisível.

– Helena irá se comportar melhor, não se preocupem. – Podia até imaginar a cara do meu pai dizendo aquilo, um sorriso mostrando confiança e uma dúvida estampada em seus olhos.

Ele que pensa que eu não farei nada. Hum, é bom saber que eles estão receosos quanto as minhas atitudes, provavelmente eles acham que eu vou destruir essa tentativazinha ridícula de unir as famílias. Que eles acham? Que vou enlouquecer Esme? Que vou infernizar tanto a vida deles nessa viagem que eles simplesmente não vão mais suportar ficar juntos?

ESPERA!OH, MEU DEUS!É ISSO!

Quase saí pulando de alegria. Finalmente uma ideia, finalmente um plano, algo que eu realmente adoraria fazer. Era como abrir a caixa de pandora, eu não iria parar, eu não iria me importar com as consequências. Apenas iria impedir aquele casamento a qualquer custo.

Estava distraída demais com o meu plano genial. Quando dei por mim, já ouvia passos vindo na direção da escada. Droga!

– Não se esqueça Felipe, o banheiro fica na segunda porta à direita! – Gritou Stephenie-fofolete.

Droga, droga!

Olhei de um lado para o outro, procurando um lugar para me esconder. Aquele maldito Chang não poderia ter escolhido hora pior para usar o banheiro. Em meio a aflição, empurrei a primeira porta que vi e entrei no cômodo. Quando olhei a minha volta, eu mal pude acreditar.

QUE SACANAGEM!

Estava justamente dentro do banheiro, tive vontade de gritar. Me virei em direção à porta, mas era tarde demais. Alguém já mexia na maçaneta. Me joguei dentro da banheira e fechei a cortina ficando deitada imóvel torcendo para ele não me encontrar ali, ia ser constrangedor demais.

Ouvi Felipe fechar a porta e abrir a tampa da privada.

Ai, meu Deus, por favor, não faça isso comigo. Eu prometo que vou ser boazinha, nunca mais vou mandar vírus por email pra ninguém, nunca mais vou fazer montagem colocando o rosto da Lucy no corpo do Michael Jackson. Eu prometo.

Fazia minhas orações em pensamento, esperando evitar aquela situação, no mínimo, bizarra.

Mesmo tampando os ouvidos, pude ouvir Felipe Chang fazendo xixi.

ECA, ECA, ECA!Alguém me mate! Sério, me matem agora!

Ele apertou o botão de descarga e abriu a torneira da pia. O som da água só me fazia relembrar do som de Felipe fazendo xixi. Saco!

Felipe bufou.– Não acredito que vou nessa viagem. Não acredito que deixei Mario me convencer!

Espiei um pouquinho através da cortina e o vi lavando o rosto. Em seguida, ele encarou o espelho.

Tragam uma camisa de força, o maluco fala sozinho. Ok, ok, eu sei que também faço isso, saco!

– Vai ser um inferno aturar aquela garota mimada. Tudo bem Felipe Chang, você consegue, sua mãe é mais importante. Você tem obrigação de cuidar de sua mãe e de seus irmãos. Se aquela pirralha fizer qualquer coisa contra Esme, eu não vou engolir fácil. – Ele bufou mais uma vez.

Enxugou o rosto em uma toalha pendurada próximo a pia e sussurrou para si mesmo, sorrindo:

– Ao menos as italianas são lindas, e aquela Lucy, hum, gostosa.

Revirei os olhos. Que homem idiota. Provavelmente outro Lucas Jang da vida.

Para o meu total alívio, ele saiu do banheiro. Abri a cortina e fui em direção ao espelho que a pouco ele havia encarado. Meu reflexo mostrava entusiasmo e convicção.

– Então, prepare-se Felipe Chang, você vai ter que engolir muita coisa nessa viagem.

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