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Meu amor por você

Meu amor por você

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  • Autor: Primeiras publicações: 2021-01-20
  • Categorias: Aventura Leituras: 1717
  • Palavras: 2743 Estado: Em curso
  • Nota: 5.0 (45)

Todo amor tem suas dificuldades Manoel e Pamela não era exceção ele cada um dia sua vida sua família Manoel era de uma família conservadora rígida que exige que Pamela que era um respiro livre seguisse mais ela era indiferente a tudo isso ela queria viver a vida da sua maneira como sempre desejou viajar brincar se divertir ela era uma pessoa moderna livre que não gostava de se sentir presa e n...

Todo amor tem suas dificuldades Manoel e Pamela não era exceção ele cada um dia sua vida sua família Manoel era de uma família conservadora rígida que exige que Pamela que era um respiro livre seguisse mais ela era indiferente a tudo isso ela queria viver a vida da sua maneira como sempre desejou viajar brincar se divertir ela era uma pessoa moderna livre que não gostava de se sentir presa e n...

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5 2021/2/21 8:08:15

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5 2021/2/20 2:35:49

cadê continuação dessa história só começa e não termina

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5 2021/2/17 0:12:58

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5 2021/2/17 0:12:50

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5 2021/2/13 1:23:02

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5 2021/2/12 4:13:18

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5 2021/2/10 1:33:21

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5 2021/2/10 1:33:16

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5 2021/2/5 3:38:53

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FOMOS OBRIGADOS MENTIR Em 1960, Gemma era a parteira do povoado de Dois Morrinhos situado no Triângulo Mineiro. Minerva, uma jovem de 18 anos, deveria dar à luz naquela semana, mas havia algo diferente na barriga da moça e logo ela foi encaminhada para ser examinada pelo Dr. Eduardo, médico que atendia aos moradores na cidade, sede da região. No hospital, após uma ultrassonografia, a futura mamãe foi conduzida à sala de partos onde Dr. Eduardo, com a ajuda de Márcia sua fiel enfermeira, realizou uma cesárea. Minerva ficou muito feliz ao ver seu lindo menino que embora pequeno, era muito saudável. Minerva e seu filho receberam altas três dias depois de seu parto e com seu marido Antônio Maria, registrou a criança no Cartório da cidade. O que ela não ficou sabendo é que Dr. Eduardo fizera o parto de gêmeos. A esposa do médico também havia parido dias antes um natimorto, mas isso lhe foi ocultado. Ela acreditava que seu filho estava em uma incubadora, ganhando peso. O doutor viu no nascimento dos gêmeos a possibilidade de levar um deles e apresentar à sua mulher como seu filho. Foi o que fez, registrou Francisco, nome escolhido pela sua esposa em homenagem ao santo, sendo ele criado com todo conforto. Sua verdadeira história, somente lhe seria revelada 20 anos depois, quando estudava muito para formar-se médico como “seu pai”. A alegria do jovem casal, partilhada com amigos e parentes, durou apenas uma semana. Minerva, sem que ninguém nada entendesse, tornou-se violenta, começou a ter alucinações e delírios, ignorava seu bebe e por vezes o deixava sem o alimentar. Na época as pessoas não conheciam o que hoje é conhecido como PSICOSE PÓS-PARTO, uma forma mais severa da depressão pós-parto. Doença pouco comum inclusive nos dias de hoje. Antônio Maria notou que ela estava tratando mal o próprio bebê. Receando que algo muito pior pudesse acontecer pois sua esposa não dominava seu comportamento e sem que ela soubesse, resolveu levar a criança para ser cuidada por seus familiares até que a esposa melhorasse, seria algo cruel com ela mas necessário. Para evitar ser visto levando apenas o bebe consigo ao andar pela cidade, seguiu por um caminho conhecido desde sua juventude, onde cruzaria um rio de águas normalmente calmas, mas na noite anterior havia chovido muito, essas águas estavam extremamente revoltas, perigosas além de muitos troncos de arvores; Mesmo assim, decidido levar a criança, Antônio Maria improvisou uma jangada com troncos de madeira e no escuro da noite iniciou a travessia do rio. No meio do percurso um roda moinho e a correnteza mais forte virou a pequena embarcação. O pai consegue chegar à outra margem do rio, e não consegue segurar a pequena embarcação e esta levando seu filho desaparece no turbilhão das águas. Desesperado, Antônio procura sem êxito o bebê, chora, se descontrola, arrependido mas temendo as consequências de seus atos, desiste de sua busca infrutífera e foge para bem longe. Ao amanhecer, Minerva nota a ausência de seu marido e do filho. Os vizinhos tentam achá-los em vão. Todos concluem que Antônio fugiu dali levando a criança. Ainda sob efeito da doença, a moça pouco se importou com o desaparecimento, na cabeça dela pelo menos o marido estaria cuidando de seu filho. Ela não se sentia uma boa mãe. Dois meses depois, curada, Minerva vai a uma quermesse no povoado. Durante a festa reencontra Ariovaldo, um antigo namorado que estava de passagem. Carente e inebriada pelo vinho quente do qual abusara, acabou a noite nos braços ardentes do rapaz, que lhe proporcionou momentos tórridos de prazer, quem a visse pensaria ser ela uma adolescente em sua primeira noite tal a felicidade estampada em seu rosto; Quando acordou pela manhã, ele havia partido sem deixar nenhum recado e para local ignorado, mas ela lembrando como fora a noitada, ainda acaricia suas partes intimas imaginando estar ainda com ele até atingir vários orgasmos. Porém, o que parecia ter sido apenas uma noite de amor, foi o início de uma nova gravidez, ela sabia que estava em período fértil mas se calou, nada disse para Ariovaldo que pretendia usar preservativo porem ela queria sentir o calor do membro do parceiro lhe penetrando. Passaram os nove meses de gestação, nesse tempo nem Ariovaldo muito menos seu marido deram noticias e desta vez, foi à parteira Joanna quem fez o parto de mais um menino. Minerva não apresentou problemas de saúde, mas resolveu mudar-se e começar vida nova em São Paulo. Uma cidade infinitamente maior que a sua, seria uma grande aventura mesmo assim se muda e vai morar com sua irmã mais velha que não via há anos. Emprega-se como cozinheira e está feliz, sozinha, em seus momentos de solidão segue se acariciando ora pensando estar com seu marido ora com Ariovaldo, estava decidida não namorar ninguém naquele momento. Carlos Alberto, nome dado a seu filho, vai crescendo e aos três anos de idade Minerva decide colocá-lo em uma creche. Ela jamais pensou ou se preocupou em registrar essa criança até por vergonha de não poder colocar um nome de pai na certidão, e só se dá conta disso no momento da matrícula, quando a certidão de nascimento é solicitada e exigida para tal. Promete entregar o documento no dia seguinte e de fato faz isso, mas apresenta a certidão do filho desaparecido, já que ela manteve esse documento consigo. Ninguém nada percebe, pois ambos se chamam Carlos, um Alberto e outro Eduardo. Já na creche Carlinhos mostrou seu lado risonho, brincalhão, amável, companheiro, era uma criança feliz. Mas nos estudos, nada lhe interessava. Bastava sua mãe ou professores se distrair para ele estar com uma bola nos pés. E assim foi crescendo. Durante as aulas de esporte na escola, destacava-se por sua incomparável habilidade. Era tão fenomenal que seu professor resolveu apresentá-lo ao treinador de um grande clube de futebol profissional. Chamou a atenção já na primeira “peneira” para garotos da sua idade. De imediato é contratado por um empresário conhecido por revelar jovens talentos super entusiasmado com o potencial de Carlinhos. Apostando no futuro do rapaz, passa a custeá-lo para que a família possa se manter numa boa condição. Minerva deixa seu emprego para acompanhá-lo aos treinos, e segue morando com sua irmã. Ao completar 15 anos de idade, é convocado para integrar a seleção brasileira de futebol sub 16 e conquista o seu primeiro título mundial, e ainda foi o artilheiro do campeonato. A imprensa esportiva já o coloca como futuro melhor jogador do mundo e ao ser convocado para a seleção brasileira sub 17, ganha todos os títulos que disputa. Estava confirmado, surgia ali um novo gênio do futebol. Poucos atletas no mundo chegam à seleção de seus países com tão pouca idade, mas Carlinhos, junto com seus companheiros, conquista a medalha de ouro olímpica de futebol e o Campeonato mundial de seleções. E é escolhido como o melhor jogador de futebol do mundo. No retorno ao Brasil, após a conquista de mais uma copa mundial, como de costume, toda delegação de jogadores é recebida em Brasília pelo Presidente da República, para serem homenageados. A imprensa consegue que Carlinhos de uma entrevista coletiva, que seria transmitida para todo o país, e nela um repórter pergunta: _Carlinhos, você já conquistou todos os títulos que um atleta poderia, tem uma situação financeira excelente, o que mais ainda pode querer nessa vida? Ele respondeu lacônico: _Gostaria de poder reencontrar meu pai Antônio Maria Menezes De Souza e Silva que desapareceu a muitos anos do povoado de Dois Morrinhos e meus avós Angelina Maria e José Maria. Ele tinha esses nomes na certidão que usou do irmão. Essa entrevista estava sendo acompanhada por Antônio Maria que ao ouvir seu nome e os nomes de sua mãe e de seu pai conclui aos gritos: _Meu filho não morreu naquele rio, ele não morreu! Antônio Maria morava numa pequena cidade em Tocantins, um estado muito distante de São Paulo e não possuía recursos para ir ao encontro de Carlinhos . Daí teve a ideia de contatar uma emissora de TV e conceder uma entrevista exclusiva em troca do pagamento de suas despesas de viagem. Comprovando com seus documentos ser realmente a pessoa que Carlinhos mencionara a maior rede de TV do pais aceita a proposta e assim foi feito Falou de seu passado do motivo de sua partida, mas omitiu o episódio do rio. Contou apenas que resolveu se afastar devido aos problemas de saúde de sua esposa. Na sequência o repórter pergunta: _ Então você só voltou agora porque seu filho está rico e famoso? Antônio Maria, constrangido responde: _Não amigo, eu não voltei por isso, o fato é que eu tenho leucemia, e ainda não achei nenhum doador compatível, minha esperança agora, é meu filho. A entrevista termina e Carlinhos já está no estúdio para conhecer a pessoa que ele acredita ser seu pai. Após um encontro emocionado e sem palavras, ambos seguem para a casa de Minerva, está sem alardes chama Antônio para um canto e lhe pergunta: _Que história é essa, você fugiu com meu outro filho, nunca deu nenhuma noticia e agora aparece para dizer ser o pai deste? Antônio tenta relatar o ocorrido no rio, mas Minerva sem pestanejar dispara: _Esse filho não é o seu, o pai dele é outro que também sumiu como você. Eu apenas usei a certidão do nosso filho para matricular esse na escola. Sem saída, Minerva, contudo pede a Antônio Maria que mantenha a versão de ser o pai de Carlinhos, já que ele desconhece seu passado e quer tanto ter um pai. Dias depois os exames efetuados para a doação da medula resultam incompatíveis, mas as pessoas entendem que essa compatibilidade realmente é difícil. Longe dali, Dr. Eduardo o medico que sequestrou um dos gêmeos, acompanhava pela TV ao desenrolar de todos os acontecimentos relativos ao meio irmão de Francisco, seu filho. Como sua esposa havia falecido no ano anterior, resolve revelar a ele toda a verdade. Conta ao rapaz os motivos de sua atitude e muito emocionado, Francisco ouviu toda a narrativa de seu pai e ainda com lágrimas nos olhos comentou: _Não o culpo, pode ter sido obra do destino, afinal vocês dois me deram educação, estudos e carinho, o que talvez meus pais legítimos não pudessem me dar. Os dois sabem que seu aparecimento agora traria sérios problemas para Dr. Eduardo, um sequestro de bebe seria um crime terrível e poucos entenderiam sua atitude. Pensa então em apresentar-se como um doador de medula, mas seu pai lhe diz: _Filho, passei todos esses anos de minha vida sabendo que chegaria o dia da verdade, errei, por melhor criação que lhe tenha proporcionado, cometi um crime, devo pagar por ele. Vá e salve seu verdadeiro pai, não se preocupe com o meu futuro e sim com o dele. Francisco segue para São Paulo, sem saber o endereço que procuraria seus verdadeiros pais mas facilmente descobre o telefone de Minerva, ela era muito conhecida por ser a mãe do craque Carlinhos e apresenta-se como um conterrâneo de Dois Morrinhos que gostaria de tentar ser o doador da medula. Ela não gosta da ideia, afinal aquela cidade só lhe traz más recordações, mas Antônio desesperado concorda em vê-lo. Quando o encontro acontece, sem rodeios, Francisco inicia a conversa dizendo: _Sou o verdadeiro filho de vocês dois. Antônio Maria não espera o rapaz concluir sua apresentação e aos gritos diz: _Minerva, ele não morreu naquele rio, ele está vivo! Vivo! Vivo! Usando a prudência de ouvir mais e falar menos, Francisco sorri alegremente e entre muitos abraços, pergunta: _Por que motivo achou que eu havia morrido em um rio? Antônio Maria conta toda a história da travessia desastrada com o bebê recém-nascido, imaginando sempre, estar diante daquela criança e complementa: _Passei toda minha vida, desde aquele momento, sentindo remorso de ter provocado a sua morte, vejo que o seu destino foi outro. Francisco, atônito diante de tais revelações, sente-se invadido por um turbilhão de pensamentos: Ao tomar a atitude de levar um dos gêmeos, meu pai também me salvou de um afogamento, o que fatalmente, teria acontecido se os dois bebês estivessem na jangada. Nesse emaranhado todo, consegue vislumbrar a possibilidade de livrar seu pai das consequências do rapto e comenta: _Sim, fui salvo por um pescador que me levou ao médico. Eu estava muito roxinho de frio e muito mal. Depois de muitos cuidados esse médico acabou me criando como seu próprio filho, inclusive me registrou como sendo legitimo. Minerva conta para Francisco que havia usado a sua certidão de nascimento, por esse motivo, Carlinhos chamava Antônio de pai. Ela não gostaria de ter que contar a ele seus momentos de amor do passado, assim, combinaram que ele seria apresentado a todos como um sobrinho distante que surgiu para tentar doar a medula. Carlinhos seguiria acreditando ser Antônio seu pai e seu meio irmão apenas um primo. Francisco é apresentado a Carlinhos, como um primo distante de Antônio Maria. E mesmo sem saber que está diante de um meio irmão, torna-se muito amigo dele. Dias depois, após vários exames, vem à confirmação da compatibilidade de Francisco para doação da medula. Todos comemoram, e Francisco se sente aliviado, emocionado e feliz O procedimento é realizado com sucesso e como era de se esperar, tem grande repercussão na mídia. Durante toda a fase de recuperação de Antônio, Francisco passa a admirar seus pais muito mais pela simplicidade de ambos, do que propriamente pelos laços sanguíneos. Carlinhos e ele são vistos sempre juntos e o afeto entre eles é enorme. Quando a equipe médica anuncia a cura de Antônio Maria, Francisco resolve voltar para sua casa no interior. As despedidas são emocionadas, mas o também futuro médico deve retornar para continuar seus estudos. Minerva e Antônio Maria, embora morando juntos na casa do craque Carlinhos, dormem em quartos separados, a união entre eles é apenas de fachada, mas vivem felizes. De volta ao lar e após narrar com detalhes toda à experiência vivida na viagem, Francisco analisa com seu pai de criação toda a situação. Tranquilos iniciam uma longa conversa, concluindo: Dr. Eduardo mentiu para sua esposa, desse modo, deu a ela a oportunidade de criar uma criança com todo amor que uma mãe tem por seu filho. Ao ser tirado de sua mãe biológica, além de ser criado com muito carinho e estudar nas melhores escolas, Francisco teve sua vida salva pelo pai adotivo, pois fatalmente seria outro seu destino se estivesse com seu irmão naquela jangada. Carlinhos encontrou em Antônio Maria um pai, a quem amaria por toda vida. Esse, por sua vez, sentia-se aliviado com a sobrevivência de Francisco que ele acreditava ser o filho perdido no rio. Com o reaparecimento do filho de quem usou a certidão, agora com outro nome, Minerva também estava aliviada, também cometera um crime. e por derradeiro, Francisco pergunta ao Dr. Eduardo: _ Pai, e meu irmão gêmeo? E se ele realmente foi salvo por alguém das águas do rio? Olhando o filho no fundo dos olhos, Dr. Eduardo arremata: _acredito que no mundo, muitas vezes, milhões de pessoas optaram por mentir, omitir ou enganar, como melhor alternativa. A menos que você, por ser gêmeo idêntico a ele, ou alguém do nosso conhecimento o encontre, ele jamais conhecerá a sua verdadeira história. Enquanto isso não acontecer, prevalecerão todas as MENTIRAS PIEDOSAS contadas. Somente alguns anos depois Dr. Eduardo e seu filho tomariam conhecimento do que passo a narrar. FOMOS OBRIGADOS MENTIR 2º CAPITULO Surreal, patético, mas acampados às margens do Rio da Prata no Triângulo Mineiro, viviam 05 casais de garimpeiros com seus filhos. Moravam precariamente, em casebres achamboados. Imaginavam que ainda poderiam encontrar um veio de ouro na mina já abandonada. Raramente encontravam algo e assim mal dava para comprar alimentos. Comiam o que era nativo como agárico, mandioca e algumas frutas como, murici, cajuzinho do campo, gabiroba. Caçavam, pescavam, a região era repleta de abelhas tataíras e sobrava mel para adoçar o leite tirado de uma velha cabra. As terras eram um carrascal e ruins para plantio. Na noite anterior havia chovido muito e ao crepúsculo, o leito do rio estava agitado. As famílias estavam reunidas em volta de uma fogueira, assando um caititu. Já era noite, as redes de pesca estavam instaladas de uma margem a outra do rio. Com sorte, na manhã seguinte encontrariam algum peixe preso nelas. As crianças brincavam, quando de repente uma delas veio correndo em direção aos adultos reunidos, gritando alto, apavorada: _ Pai, mãe, tem uma criança dentro de um caixote enroscado na rede. _ Ela chora muito! Seus pais riram afinal esse menino era cheio de fantasias e até por desídia nada fizeram, mas quando mais duas meninas vieram com a mesma notícia, ainda incrédulos, resolvem verificar. Estarrecidos e aparvalhados, os mineiros constatam que realmente havia uma criança que chorava a plenos pulmões. Estava dentro de uma caixa que já fora usada para guardar garrafas de cerveja, muito bem forrada, amarrada a um tronco de árvore que parecia fazer parte de uma jangada. Inicialmente o grupo todo ficou inerte, nem sabiam que providências tomar. Então Carmem, uma das mulheres, toma a frente e resolve soltar a caixa do tronco e retirar o bebê. Ele estava ensopado, abacinado, tremendo, parecia que não viveria mais uma hora naquelas condições. Imediatamente retiram as vestes da criança, estas visivelmente novas. Carmem era mãe de cinco meninas e tinha muita prática. Levou a criança para perto do fogo, trocou a sua roupa e acomodou o bebê que não deveria ter mais de 10 dias junto a seu peito. Logo já se notava a cor dos lábios voltarem ào normal. Muitas das mulheres do grupo haviam sido mães recentemente e brigavam pela primazia de amamentar o pequeno náufrago. A criança adormeceu e os demais fizeram o mesmo. Na manhã seguinte Carmem comenta com seu marido Joaquim: _Se não encontrarmos nenhum parente dessa criança, eu quero ele pra mim. Por ser tartamudo, era de poucas palavras, apenas concorda com um meneio de cabeça, afinal só tinham filhas. Ela acreditava que fora por vontade divina a criança estar em seus braços. Ao amanhecer, Carmem e Joaquim vão até Monjolinho para saber se havia alguém procurando pelo bebê recolhido das águas. Foi uma busca onde, visivelmente, nenhum deles queria encontrar ninguém. Na volta para o acampamento relatam aos companheiros que não descobriram parentes do nenê e que assim sendo, eles criariam Oswaldo, nome escolhido para dar ao recém-nascido. Pediram ao grupo que jamais revelassem esse segredo. No mês seguinte Joaquim iria até a cidade mais próxima para vender a pequena quantidade de ouro encontrada pelo grupo de garimpeiros. Era algo irrisório, mas daria para comprar sal, fósforos, e pequenos objetos usados para higiene pessoal. Assim, Joaquim, Carmem, as cinco filhas mais Oswaldo, seguiram para Prata, sede de todas as pequenas cidades da região. Após a venda, dirigiram-se para o cartório de registros e somente naquele dia tiraram os documentos de suas filhas e de Oswaldo. Os anos passam. Oswaldo e suas irmãs sempre tinham problemas de saúde devido à falta de higiene no local do acampamento, nenhuma delas havia estudado. Sem condições de continuar buscando ouro já que não restava quase nada dele, abandonam o garimpo. A família vai morar em Dois Morrinhos, um vilarejo próximo dali, onde as crianças teriam assistência médica e estudariam em escola pública. Os conhecimentos de Joaquim já haviam sido comprovados por todos, era um especialista em ervas e raízes com as quais preparava “garrafadas”, único remédio disponível. Mas esse conhecimento não era uma opção de trabalho na cidade. Foi quando encontraram Mauro. Ele fora garimpeiro em outros tempos naquela mesma mina, hoje abandonada. Conhecia a história daquela família e resolve ajudá-los. Emprega o casal e acomoda a todos nos fundos de seu armazém de secos e molhados. A família passa a morar ali, por muitos anos e como previsto ,estudaram muito para recuperar o tempo perdido Oswaldo, agora com 25 anos, também trabalha no armazém de Mauro. Havia estudado até o ensino médio, sempre bom aluno. Certo dia, na expectativa de conquistar uma garota, resolve fazer a barba e cortar os cabelos para melhorar a sua aparência, até então, não se preocupava com esses detalhes. Como em todas as barbearias existentes no mundo, lá havia uma pilha de revistas velhas. Enquanto aguarda para ser atendido, resolve folhear algumas. Lendo uma reportagem sobre uma pessoa que doara a medula para o pai do maior jogador de futebol do mundo, salvando-o da morte certa, depara-se repentinamente com uma foto. Sente um arrepio forte, seu coração acelera e pensa: Como somos iguais! Pede ao barbeiro para levar a revista para casa e mostra aos seus pais. Estes desconversam, embora saibam que pela semelhança absurda entre ambos, poderiam sim, serem irmãos, ou parentes, mas nada comentam. Oswaldo com o pouco interesse de seus pais de levar o caso adiante, esquece o assunto. No mês seguinte, Mauro, seu patrão, incumbe Oswaldo de resolver problemas com a receita estadual em Uberlândia, cidade que distava dali uns 80 km. Ele já tinha habilitação para dirigir, mas resolve ir de ônibus. Ao descer na rodoviária ouve do motorista: _Dr. Francisco, andando de coletivo? É um prazer transportá-lo, venha mais vezes! Mais adiante, o fato se repete ao cruzar com uma senhora que o cumprimenta: _Bom dia Dr. Francisco. Aquilo se repete muitas vezes, ele só abanava a cabeça. Retornando a Dois Morrinhos, Oswaldo resolve descobrir o motivo pelo qual tantas pessoas o haviam confundido com tal Dr. Francisco. Em busca de alguma pista, torna a folhear a revista que trouxe da barbearia e confirma, era a mesma pessoa, a foto era de Dr. Francisco. Naquela mesma tarde, Oswaldo tomava um refrigerante num bar, junto à calçada, quando é abordado por uma senhora bem idosa: _Dr. Francisco, que bom lhe encontrar. Fui enfermeira e trabalhei por muitos anos no Hospital de Prata com Dr. Eduardo, seu pai. Sou encarregada de pagar mensalmente as contas das propriedades dele aqui na cidade. Estava indo para o correio enviar os recibos, mas se o senhor estiver voltando pra lá, por favor, pode poupar tempo levando pessoalmente. Entrega o envelope e se despede. Oswaldo agora tinha um endereço, seria do Dr. Francisco também? Essa dúvida lhe atormentou por uma semana. Mauro pede que ele volte à Uberlândia para dar sequência à resolução de seus problemas com a receita. Agora resolvo isso tudo, pensa Oswaldo. Desta vez foi de carro. Lá chegando, vai direto ao endereço do envelope. Na entrada uma placa: Dr. Francisco Clínico Geral. Ele entra usando cachecol e um gorro na cabeça, tapando seu rosto. Dirige-se à recepcionista: _quero passar por consulta com Dr. Francisco. Ela entrega uma ficha para ele preencher. Após algum tempo de espera, Oswaldo é chamado pelo médico com o costumeiro: _ Pode entrar. No consultório Oswaldo retira o gorro e o cachecol e quando Dr. Francisco levanta os olhos para cumprimentar o paciente, fica parado, atônito. Começa a chorar copiosamente e diz emocionado: _Então você sobreviveu mano?! Segue chorando e abraça fortemente Oswaldo. O choro é de soluços e alegria. Oswaldo fica confuso por um instante, mas a palavra “mano” traz a confirmação de suas suspeitas, eles são irmãos. Dr. Francisco sai de sua sala e ainda com lágrimas nos olhos, diz para a recepcionista: _ Vou sair e não volto mais hoje. Leva Oswaldo até a sua casa e o apresenta ao seu pai, Dr. Eduardo: _ Pai, aqui está ele, meu irmão que se perdeu nas águas do rio da Prata. Até então Oswaldo se mantivera calado, queria ouvir mais que falar. Dr. Eduardo abraça o rapaz comovido e diz para o filho: _ Francisco, chegou a hora da verdade, vamos à biblioteca e que ninguém nos interrompa. Oswaldo argumenta que não poderia ficar muito tempo ali, pois tinha que resolver problemas do patrão. Dr. Eduardo se inteira do assunto e com um simples telefonema resolve a pendência de Mauro com a receita estadual. Dr. Eduardo não tinha mais de 60 anos de idade, no entanto aparentava ser muito mais velho. Foi o único médico na região por muitos anos e as pessoas contavam histórias tristes sobre ele. Gostava de um bom uísque e naquele momento tomou duas doses bem caprichadas. Sentou-se, pediu para Oswaldo não interromper suas palavras e prestar muita atenção nelas. Iniciou aquelas revelações de cabeça baixa e foi dizendo: _ eu era o médico do hospital de Prata onde você e seu irmão nasceu. Para de falar e dá um abraço em Francisco. Daí prossegue: _ Sua mãe se chamava Minerva, vocês vieram ao mundo num parto cesariano. Ela não sabia que dera à luz a gêmeos univitelinos, então eu coloquei Francisco no lugar do meu verdadeiro filho que havia nascido morto no dia anterior. Desse modo ela levou apenas um bebê para casa. A única diferença entre você e seu irmão é que você tem sindactilia em dois dedos de ambos os pés. Interrompe a narrativa e pede para que Oswaldo tire as botas: _ vê, você tem dois dedos grudados em cada pé. Seus pais verdadeiros eram pessoas muito simples e na época, estava claro para mim que eles não conseguiriam criar duas crianças minha mulher já estava numa idade perigosa para voltar a engravidar, então dessa forma, achei justo fazer a troca. Apenas minha fiel enfermeira foi testemunha disto. O corpo de meu verdadeiro filho está enterrado em minha fazenda, em local que só eu sei e que visito semanalmente, onde faço minhas preces por ele. Fiquei sabendo depois que sua mãe Minerva aproveitou a estadia na cidade para registrá-lo em cartório com o nome de Carlos. Durante horas seguidas Dr. Eduardo narra com os mínimos detalhes todos os acontecimentos que envolveram a família, os gêmeos e o meio irmão Carlinhos. Já era tarde da noite e Oswaldo é convidado a pernoitar na residência para poder refletir e decidir sobre o que fazer com todas aquelas novidades. No café da manhã ele diz ao seu irmão e ao Dr. Eduardo: _Vamos manter essas mentiras piedosas, mas eu quero conhecer meus verdadeiros pais, meu meio irmão Carlinhos, sem prejudicá-los. Ouvindo essas palavras, Dr. Francisco, pega o telefone para fazer uma ligação e pede para o irmão Oswaldo escutar: _Mãe, é o seu filho Francisco, quero vê-la na próxima semana, pode ser? Ao que ela responde: _Claro meu adorado, venha quando quiser! Como você está? Ele responde: _Mãe, passei uns dias pescando, estou mais moreno e com as mãos cheias de calos, sabe como é, falta de hábito. Só vou para um almoço, pois estou de viagem marcada para a o exterior. Desse modo, na primeira visita de Oswaldo, ficar apenas algumas horas, diminuiria o risco dele ser descoberto. Com o encontro marcado e Oswaldo devidamente instruído sobre detalhes dos hábitos de vida de seus pais e Carlinhos, lá foi ele para São Paulo. Ele se apresenta como Dr. Francisco, se apaixona pelos pais e pelo meio irmão. Como havia aprendido com Joaquim os segredos das ervas, pode ajudar na cura de sua mãe de uma solitária, com uma receita de sementes de abóboras. Nas despedidas, abraçando fortemente Antônio Maria, já com lágrimas nos olhos diz: _ Pai, não se torture com seus velhos pensamentos, lembre-se sempre de que eu realmente sobrevivi às águas daquele rio, eu sobrevivi e é essa alegria que deve ocupar seu coração! . Daquele dia em diante, mês a mês, os irmãos se alternavam na troca de identidade para visitar os pais. Oswaldo retorna a Dois Morrinhos e nada comenta com Carmem ou Joaquim, mas ajudado por Dr. Eduardo e por Francisco, monta um armazém de secos e molhados ainda maior que o de Mauro, onde vai morar com toda a sua família. Conhece sem se identificar seus avós paternos e finalmente, consegue namorar a garota por quem se encantara. Meses depois, já frequentando a casa de seu futuro sogro, em uma tarde de domingo, assiste pela televisão uma partida de futebol, onde Carlinhos era um dos jogadores. Ariovaldo, pai de sua namorada chama Oswaldo e comenta: _Esse rapaz é nascido aqui na cidade e eu namorei a mãe dele muitos anos atrás. Oswaldo arregala os olhos e pergunta: – Como é o nome dela? Ariovaldo sem entender direito a curiosidade do rapaz, responde: _ O nome dela é Minerva, eu até teria me casado com ela, mas ela mudou-se daqui e nunca mais a vi. Oswaldo concluiu que Ariovaldo era o verdadeiro pai de Carlinhos. Jamais se arrependeu de manter em segredo todas aquelas MENTIRAS PIEDOSAS contadas. FOMOS OBRIGADOS MENTIR 3º CAPITULO Mas, se o destino traçou caminhos tortuosos, estes certamente teriam que serem em algum momento liberados, as mentiras, omissões e enganos não poderia prevalecer, e para quem acredita, estava escrito que assim seria. E essas mentiras seriam descobertas com o passar do tempo. A amizade entre os gêmeos aumentava e eles procuravam se encontrar sempre que possível. Francisco que jamais havia participado de uma pescaria passou a visitar o irmão com esse objetivo. O Rio da Prata onde por pouco Oswaldo não perdeu a vida era abundante de peixes de várias espécies e os irmãos costumavam acampar as suas margens nos finais de semana. Queriam recuperar o tempo de convívio perdido, conhecer em detalhes o modo de ser, agir e pensar um do outro, tudo o que certamente teriam compartilhado se tivessem sido criados juntos, mas que o destino havia impedido. Na cidade, todos eram pescadores amadores, mas Oswaldo e Francisco os evitavam queriam estar a sós para poderem conversar sem interrupções, longe de perguntas e curiosidade alheias. Não pretendiam revelar que no passado alguns erros haviam sido cometidos, mas certa vez o anonimato de que ambos buscavam esteve ameaçado. Um morador que também pescava nas margens do rio, porem um pouco mais distante deles chegou apressado dizendo: _ Oswaldo minha filha levou um corte profundo na perna, ela está a uns 100 metros daqui, me ajude a encontrar uma erva para fazer um curativo e estancar o sangue. Por sorte ele estava falando com Francisco, Oswaldo estava cochilando dentro de uma barraca, assim, o médico pediu ao pai da criança para voltar e aguardar que rapidamente ele iria a seu encontro. Correu para a barraca, avisou o irmão o que estava acontecendo, pediu a ele para encontrar a erva, pegou sua maleta de primeiros socorros e foi em busca da acidentada. Rapidamente limpou o corte, deu três pontos para fechar o ferimento e completou o curativo com a planta por cima da perna lesionada. Todos estavam admirados, sabiam que Oswaldo conhecia o poder curativo das plantas, mas desconheciam essas outras habilidades. Para se justificar Francisco sorrindo diz:_ Fiz um curso de primeiros socorros, mas nunca divulguei isso para ninguém. O Acontecimento serviu para deixar os irmãos em estado de alerta. Durante anos a viagem entre Dois Morrinhos e Uberlândia exigia uma volta que aumentava a distância de 70 para 180 quilômetros, mas com a construção e pavimentação da estrada nova, o trajeto que antes levavam 3 horas, agora seria feito em apenas uma hora. O deslocamento de pessoas entre essas cidades aumentaria muito e eles precisariam tomar mais cuidado para não serem vistos juntos. Combinaram que Oswaldo passaria 15 dias em companhia de Dr. Eduardo para aprender como agir caso fosse confundido com Dr. Francisco enquanto este aprenderia tudo sobre plantas e garrafadas. E assim foi feito Eles sabiam que o uso de disfarces, lentes de contatos, bigodes ou barbas, só poderiam convencer as pessoas de Uberlândia já que em Dois Morrinhos viviam seus avós, os pais de Antônio Maria. De fato quando Antônio Maria resolve visitar seus pais as mentiras piedosas se mantiveram por detalhes. Durante a visita Antônio Maria telefona e convida Francisco para uma pescaria no Rio da Prata que aceita de imediato, mas previne o irmão Oswaldo para que não apareça por lá, ou seja, visto pelo pai. Na beira do rio o anzol de Antônio Maria se enrosca em um tronco de arvores e seu filho se prontifica entrar na água e soltá-lo. Já fora do rio enquanto calçava suas botas desperta a atenção de seu pai que nota que ele já não tem os dedos grudados e pergunta; _ Como conseguiu isso? Francisco, acostumado com esses momentos delicados não perde a tranquilidade e sem se abalar responde. _ É pai, esqueceu que quem me criou como filho é um médico? Ele me operou quando ainda eu era criança. A partir daquele momento a sindactilia de Oswaldo poderia se tornar um problema e acertam que na primeira oportunidade realmente os dedos de Oswaldo seriam separados cirurgicamente Mas o destino traçava outras linhas, a primeira mentira seria descoberta por acaso. E foi em uma das visitas em que os irmãos se revezavam para ver a mãe. Carlinhos havia mandado construir uma piscina olímpica na chácara que acabara de comprar. Para inaugurá-la convidou muitos amigos inclusive Francisco. Mas aquela seria a data de Oswaldo e era ele quem lá estava. Prudentemente Oswaldo evitou entrar na água, mantinha-se vestido, é quando um dos rapazes já alterado pela bebida pede por socorro e corria o risco de afogar-se ele sem medir consequências entra na piscina, salva o rapaz com respiração boca a boca, que havia aprendido com Dr. Eduardo, mas após, com todas as roupas molhadas lhe oferecem roupas secas, e neste momento ao tirar seu tênis Antônio Maria percebe que os dedos dele seguem grudados. Imediatamente chama seu filho para o lado e lhe diz. _Ha algo que eu não sei, dias atrás você me disse que Dr. Eduardo o havia operado dos dedos grudados, como explica isso? Oswaldo não dominava seus nervos como seu gêmeo, entrou em pânico o que logo foi notado pelo seu pai que procurou acalma-lo e quando isso ocorreu perguntou novamente. _ Como é possível seus dedos estarem grudados? Oswaldo simula um mal estar, queria ganhar tempo para encontrar alguma resposta, pede para descansar um pouco em uma das redes ali instaladas, mas na verdade quer e consegue relatar o acontecido via fone para Francisco. Minutos depois, chama seu pai para um canto e lhe pede para ter paciência e que sua pergunta seria respondida em uma visita a Dr. Eduardo em Uberlândia. Ainda muito inseguro e alegando seguir indisposto se despede de todos, mas antes combina já para o dia seguinte o encontro e que haja uma explicação para a descoberta de Antônio Maria. As linhas aéreas para seu destino são diárias, e constantes dessa forma logo pela manhã ele embarca e duas horas depois está na casa do Dr. Eduardo. Após as apresentações, e quem a fazia era Francisco, todos vão à mesma sala onde muito tempo atrás Dr. Eduardo revelou para Oswaldo que eles eram gêmeos. Desta feita e pela manhã não tomou bebida alguma, estava tranquilo, pediu para todos se acomodarem e contou nos mínimos detalhes a história que envolvia os irmãos. Antônio Maria, chocado, mas feliz chorava muito, mas ainda estava incrédulo, pois não entendia como jamais percebeu que eram duas pessoas que lhes visitava semanalmente. Dr. Eduardo o conforta dizendo _ A única diferença entre os irmãos gêmeos é exatamente a que você notou ontem, ou seja, os dedos grudados e com um gesto pede a Oswaldo para entrar na sala, Descalço ele mostra a seu pai os dedos grudados e Francisco mostra seus pés normais. Antônio Maria chora mais forte, a emoção o domina, abraça a ambos, ri, pula de alegria e repete suas frases ELE NÃO MORREU NAQUELE RIO, ELE NÃO MORREU. Quando a emoção de todos já está controlada, Dr. Eduardo concluiu. E então Antônio Maria o que fazemos agora que sabe de toda verdade? Este por um momento se cala, respira profundamente e comenta: _ O que vocês chamam de Mentiras Piedosas agora serão Segredos Não Revelados, e assim seguira. Quero agradecer ao Dr. Eduardo que mesmo arriscando ser preso exigiu que Francisco fosse até São Paulo para ser o doador de medula que me salvou de morte certa e também por ter criado um dos meus filhos e dado a ele a oportunidade de ser alguém importante na vida, pois eu não teria a menor possibilidade de fazer isso e finalmente ter evitado que meus dois filhos se perdessem nas águas do Rio da Prata. _Se alguém o acusar de falsidade por ter assumido ser o pai de Francisco eu também errei quando assumi ser o pai do craque Carlinhos, e Carmem e Joaquim que criaram Oswaldo fizeram o mesmo. Acredito ter sido alguma força superior que fez com que eu notasse os dedos grudados e afinal pude saber que tenho dois filhos, e isso é uma alegria maior que tudo. Ao se despedir prometendo segredo absoluto de tudo o que se inteirou Antônio Maria apenas reforça. Dr. Eduardo aproveite e opere os dedos de Oswaldo. Todos seguiam suas vidas com a maior tranquilidade, mas o que chamavam de mentiras piedosas e realmente eram mesmo, saberiam em pouco tempo que várias outras estavam para ser reveladas. Em Dois Morrinhos Oswaldo e Isolda pretendem marcar a data de seu casamento. Carmem e Joaquim, o casal que registrou e criou a rapaz de nada sabiam, para eles seria apenas a união do único filho varão deles. Mas o noivo sabendo que ao convidar Antônio Maria e Minerva, Francisco e Dr. Eduardo poderiam ocasionar outras revelações, inclusive que Minerva descobriria que Ariovaldo seu futuro sogro estava vivo e a paternidade verdadeira de Carlinhos poderia ser conhecida, imaginou e conseguiu a data certa para o evento. Naquela semana o craque Carlinhos havia conquistado mais uma vez o título de melhor jogador de futebol do mundo, a cerimônia de entrega seria dois meses depois, confirmam a data e hora que o jogador receberia o prêmio e sabendo que Minerva o acompanharia escolhem exatamente essa data. Já no dia do casamento apenas Antônio Maria está presente, e descobre que o sogro de Oswaldo fora seu amigo de infância e de grupo escolar. Francisco havia deixado sua barba e bigodes crescerem e usando lentes de contatos verdes e com os cabelos artificialmente descoloridos não foi reconhecido por ninguém e Dr. Eduardo fora convidado por ter sido ele ano atrás quem fez o parto de Isolda a noiva. Durante a festa bastante animada Francisco dança com Célia uma das irmãs de Oswaldo e não se desgrudam a noite inteira. Ficava claro que ali se iniciava um romance entre eles, mas que fatalmente no futuro poderia criar alguns embaraços, naquele momento Francisco não pensou nisso. Na volta para São Paulo Minerva pouco se interessou em saber do casamento, ela imaginava não conhecer os noivos e seguia detestando a ideia de voltar pisar em Dois Morrinhos. Por semanas só falou do prêmio e das homenagens que Carlinhos recebeu. Restavam ainda algumas mentiras para serem descobertas Francisco ao iniciar um romance com uma irmã de criação de Oswaldo poderia em qualquer momento ser descoberto já que não usaria disfarces o tempo todo diante dela. Oswaldo se casara com uma meia Irma de seu meio irmão Carlinhos, até quando seguiria sem que ela descobrisse isto? E Minerva, nunca descobrirá que tem dois filhos gêmeos? Passados dois meses do casamento de Oswaldo e Isolda, as viagens quinzenais dos gêmeos continuavam, e este sempre dizia que iria tratar de negócios em São Paulo, agora ele era um comerciante e poucos questionavam o fato, pois a visita à sua mãe era mesmo rápida. Contrariando os pensamentos do Dr. Eduardo, que dizia que as mentiras, e omissões podem se perpetuar, mais uma delas estava para ser revelada. Sabendo que Oswaldo iria naquele final de semana para São Paulo, seu pai de criação Joaquim pede para ir junto, pois pretende se consultar com um ortopedista famoso por curar joelhos, e esta seria sua intenção. Oswaldo concordou, não viu nisso nenhum risco e no dia marcado foram de carro para a metrópole. Diferente do costumeiro, pai e filho se hospedam em um luxuoso hotel, e a visita à sua mãe é mais rápida que a normal. Como a consulta já havia sido previamente marcada, lá estavam eles no hospital. O médico pede que apenas Joaquim entre em sua sala, alega privacidade com o paciente, mas durante os exames em conversa diz a ele. _Conheço seu filho Dr. Francisco há muito tempo e agradeço a ele a confiança em me indicar para um amigo. Mesmo sendo tartamudo, sabendo que poderia falar coisas indevidas e reveladoras Joaquim apenas pergunta: _ Dê onde o senhor o conhece? Oriswaldo, este era o nome do médico, sem se preocupar com nada revela. _ Sou o fisioterapeuta do primo dele o craque Carlinhos, por várias vezes durante os tratamentos eu o vi por lá, sei apenas que ele é médico clinico geral e tem seu consultório em Uberlândia. Joaquim se cala, mas sabe que o segredo que guardou por anos juntamente com sua mulher pode já ter sido descoberto. Medicado e com indicações de fisioterapias diárias, no hotel Joaquim indaga o. motivo pelo qual Dr. Oriswaldo o confundira com tal Dr. Francisco. Oswaldo pede para seu pai adotivo ouvir sua conversa com Francisco e depois com Isolda sua esposa, e que esta esteja em Uberlândia no dia seguinte em local e hora combinado. Joaquim não entende bem essas ligações, mas concorda. Na manhã seguinte Oswaldo e Joaquim encontram Isolda e todos seguem calados para o endereço de Dr. Francisco. São todos recebidos por Dr. Eduardo que leva a todos para a sua casa. Ainda sem nada entender do motivo dessa visita Isolda e Joaquim se mantêm calados quando ouvem as já usadas palavras. O que vou lhes revelar aconteceu há muitos anos quando do nascimento de Oswaldo e Francisco. E por horas conta as histórias do rapto, da perda nas águas de um dos bebes de como e porque Oswaldo era conhecido apenas por primo de Carlinhos e finalmente que este era meio irmão de Isolda. Neste momento a comoção era geral. Isolda feliz por saber que o craque que o pai tanto admirava era seu próprio filho, que tinha um meio irmão, abraça a todos, está chocada, mas muito alegre com as revelações. Já Joaquim, com maior dificuldade ainda em falar, pois ficará surpreso, emocionado e nervoso tenta culpar de todo ocorrido à Dr. Eduardo. É quando este comenta. _Sei que errei, mas você fez o mesmo, registrou Oswaldo como seu filho legitimo, esta será a hora da verdade, temos que decidir o que faremos. Um silencio sepulcral invade a sala. E a visita se encerra com todos combinando que apenas Carmen e Sally namorada de Francisco saberia através de seu marido o que ali fora revelado. Quando Carmem toma conhecimento dos fatos ainda comenta. _Anos atrás, quando Oswaldo nos mostrou a foto de seu irmão na revista que havia encontrado na barbearia deveríamos ter buscado a verdade, está só apareceu agora, mas estou de acordo, tudo seguira igual. Mas Sally se apavora, dizendo: Se Oswaldo e Francisco são irmãos eu não posso seguir meu namoro, também sou irmã dele. Neste momento cabe a Carmen contar para ela, que jamais soube ou se lembrou do salvamento no rio que eles haviam criado e registrado Oswaldo, mas não eram seus verdadeiros pais. A moça respira fundo aliviada, e comenta _Nunca imaginei uma coisa dessas, mas estou contente de não ser irmã de verdade de Oswaldo. Tempos depois, chegara a hora de Carlinhos parar de jogar, e seu clube, marca para a sua despedida um jogo em Uberlândia, ele queria fazer sua última partida no triangulo mineiro onde havia nascido. Toda delegação se hospeda em hotel no centro da cidade, uma multidão se aglomera a sua frente. E quando uma senhora já idosa tenta entrar para conversar com o craque. O porteiro a impede de suas intenções, e ela para justificar a sua entrada diz que ela foi a parteira em seu nascimento. O serviçal pede um tempo para conversar e ver se esse encontro seria possível, e vai até o quarto de Carlinhos. Diz a ele que a parteira que o trouxe ao mundo queria dar lhe um abraço. O rapaz curioso concorda. A conversa entre eles se inicia com ela dizendo: Sou Gemma, fui eu quem a pedido de sua mãe Minerva fez o seu parto em Dois Morrinhos. Carlinhos se espanta, e diz a ela: _ Senhora deve haver algum engano, eu nasci no Hospital de Prata. E ela inocentemente retruca: _ Não quem lá nasceu foi seu irmão mais velho que desapareceu nas águas do Rio da Prata. O craque imaginando que a senhora estaria com problemas mentais devido à idade, contorna o tema, lhe abraça tira fotos e se despede. Porém, o fato deixa Carlinhos bastante curioso, imagina então na volta para casa confirmar as suas dúvida. Minerva que nunca deixará de participar de nenhuma homenagem ao filho, desta vez alegando que iria se emocionar pela maravilhosa carreira dele ter chegado ao fim, ela preferia não sentir essas emoções, na verdade, ela temia mesmo era encontrar alguém de Dois Morrinhos. Quando de volta a casa, Carlinhos é indagado pela mãe, que acompanhara tudo pela TV como havia sido as despedidas e após revelar todos os detalhes, inicia a conversa que queria ter com ela. _Sabe mãe, uma senhora bem idosa, foi me visitar no hotel dizendo que ela não poderia deixar de dar um abraço na criança que pelas mãos dela havia entrado em nosso mundo. _Como era o nome dela? pergunta Minerva inocentemente _Joanna responde ele E sem pensar ela confirma _Como ela está de saúde, Joanna me ajudou muito. _Bem, para os 80 anos que tem. _ É quando você nasceu ela teria mesmo uns 45, mas ela ainda trabalha, pergunta Minerva. _Não, responde Carlinhos, mas vive em Dois Morrinhos com os filhos. E a conversa termina com a frase que confirmava o que Carlinhos ouvira no hotel. _Além do seu, Joanna deve ter sido a parteira de mais de 100 crianças nascidas em Dois Morrinhos. Daquele dia em diante Carlinhos passaria pesquisar então a história do irmão que morrera no rio da Prata, conforme descobrira. Na semana em que casualmente era mesmo Dr. Francisco quem visitava a mãe, Carlinhos em brincadeira diz a ele. _Você não foi me ver no jogo de despedida lá na sua cidade, e ouve como resposta_ Mas eu vou esperar a sua visita em minha casa, e que seja em breve. Carlinhos vê no convite uma enorme possibilidade de iniciar a busca pela verdade de seu passado, aceita o convite. No dia da viagem para Uberlândia, vai de carro e muda o caminho, seu destino inicial seria a cidade de Prata, onde a sua certidão de nascimento atestava ter sido lá que nascera. Vai direto ao hospital, e com a certidão de nascimento em mãos, na recepção argumenta que gostaria de ver os livros do hospital para saber se havia tomado algumas vacinas. A recepcionista o informa que um incêndio anos atrás havia destruído todos eles, e que ele poderia obter algumas informações com Márcia a enfermeira do Dr. Eduardo, única pessoa viva que trabalhava no hospital naquela época. Carlinhos anota seu endereço e ruma para ele. Lá chegando, desde logo percebe não ser a parteira que o visitou na noite de sua despedida. Esta ao abrir a porta abre um largo sorriso para o ex-atleta dizendo. Menino acompanhei sua carreira futebolística inteira. _Mas como sabe que sou eu o jogador? _Sempre vi a sua mãe ao seu lado em várias reportagens. _E onde a conheceu, pergunta Carlinhos. _Fui a enfermeira de Dr. Eduardo por muitos anos, fizemos uma centena de partos e a única que teve dois filhos homens gêmeos foi ela, como poderia me esquecer disso. Carlinhos disfarça, mas intimamente acredita estar perto da verdade que busca, pergunta sobre as vacinas e se despede. Sem saber a ex-enfermeira revela algo que poderia incriminar seu antigo chefe. Chegando a Uberlândia, vai até o endereço de Francisco, este era o de sua residência, mas quem atende a porta é Dr. Eduardo, em seguida chega o primo. Após as apresentações, Carlinhos, sem saber estar diante do médico que levara uma das crianças para cria-lo como seu filho, conta toda a história que descobrira. Sem se abalar Dr. Eduardo olhando para Francisco diz a ele. Filho o cerco se fechou, vamos para a sala, e lá inicia as revelações do passado de todos eles. Ao final destas, Carlinhos com lagrimas nos olhos comenta. Eu tenho dois meio irmãos, e um deles salvou seu próprio pai doando a medula a ele, agora entendo o motivo pelo qual a minha não foi compatível. Está feliz quer encontrar Oswaldo, pede a Francisco que peça a ele par ir encontra-los em Uberlândia. O encontro é emocionante, e o ex-jogador declara. _ Vocês são tão parecidos que mesmo os vendo todas as semanas nunca percebi que eram dois. Durante alguns dias, todos se reuniram para pescaria no Rio da Prata, a única dúvida seria. Como iremos revelar a nossa mãe que ela tem três filhos, e que Ariovaldo é sogro de um deles? Quando Carlinhos volta para sua casa em São Paulo, sua mãe o aguardava com muitas saudades e após os abraços, o ex-craque resolve contar parte da conversa que teve com Dr. Eduardo, inicia dizendo. _Mãe, além de estar com Francisco, encontrei também Dr. Eduardo, o médico que lhe atendeu em Prata. _Você pode agora revelar alguns segredos que guardou durante todo esse tempo, estou esperando por isso. Minerva chora, e nervosa ainda tenta desconversar. _O que ele pode ter lhe contado que você não soubesse? _ Que eu tenho um irmão vivo, e que eu usei a sua certidão de nascimento, por esse motivo sempre chamei Antônio Maria de pai. Ela se cala, minutos depois, inicia seus segredos. _Filho, antes de você, eu dei a luz a uma outra criança, Antônio Maria por receio que eu fizesse algo de errado, pois estava doente, levou o bebe para seus pais o criar, mas na travessia do Rio a jangadas virou e ele perdeu a criança. Nunca mais soubemos dela, até que surgiu na volta do campeonato mundial o caso dele estar buscando um doador de medula, pois estava com leucemia. Carlinhos interrompe e diz. _Mãe, isso tudo eu já sei. Agora quero conhecer meu verdadeiro pai, e para isso precisamos ir até Dois Morrinhos, ele vive lá. Minerva reluta dizendo _ Nunca mais voltei lá, tenho muitas magoas vivida naquela cidade. _ Precisamos fazer essa viagem, você terá ainda uma grande surpresa. Minerva concorda e marca o dia, Carlinhos avisa a todos para lá estarem. O encontro é na Igreja da cidade, único local onde poderiam se reunir várias pessoas. Ariovaldo também havia sido convidado, embora não soubesse os motivos, mas sabendo que seu ídolo do futebol lá estaria, foi bem como os demais. Assim quem inicia a conversa é Minerva, que vendo Ariovaldo, se comove dizendo. _Carlinhos, você no passado queria ter um pai, e durante anos imaginou ser ele Antônio Maria, quero lhe dizer que seu verdadeiro pai está aqui e agora. E inicia sua história. _Quando me curei da psicose pós-parto, fui até uma quermesse, lá encontrei um antigo namorado, passamos a noite juntos, você é o fruto daquela noite nos braços de. Vira-se, aponta para Ariovaldo e diz. _Esse é seu verdadeiro pai. Aos berros Ariovaldo pula de felicidade. _Tinha que haver algo mais, eu adorava o jogador de futebol, e tenho agora o presente de descobrir que ele é meu filho. Depois de muitos abraços Minerva continua. _Quero aproveitar, e agradecer Dr. Eduardo, por ter criado Francisco como seu próprio filho após resgata-lo das águas do rio da Prata. Nesse momento Dr. Eduardo interrompe e diz. _Não Minerva, Francisco não é o seu filho resgatado do rio. _Como não, ele salvou o pai dele doando a medula. Nesse momento Dr. Eduardo argumenta. _Não foi seu filho Francisco o salvo do Rio, mas sim Oswaldo, e com um sinal pede para ele entrar na igreja. Minerva desfalece, quando recuperada e atônita diz. _Alguém pode me dizer o que é tudo isso? Novamente cabe a Dr. Eduardo revelar todas as mentiras piedosas contadas. Já era noite e todos rumaram para Uberlândia, naquela cidade se hospedam no mesmo hotel que Carlinhos havia estado dias antes, este em um momento de reflexão agradece ao destino por ter cruzado com Gemma, que deu início a todas essas revelações. Ali ficaram por mais de uma semana, todos se inteirando de fatos que desconheciam de toda a família. Nenhum dos envolvidos chegou a se arrepender de terem usados de mentiras, omissões e enganos usados no passado, mas estavam felizes por todas as verdades terem sido reveladas. FIM , Será mesmo? Tito Cancian

A CONSEQUÊNCIA CRUEL DE UM SEGREDO

A CONSEQUÊNCIA CRUEL DE UM SEGREDO

TITO CANCIAN

A CONSEQUÊNCIA CRUEL DE UM SEGREDO

A CONSEQUENCIA CRUEL DE UM SEGREDO PORECATU, em indígena “Bonito Salto D’água” ainda era um distrito de Sertanópolis, cidade situada no norte do Paraná, e foi lá que em uma segunda feira do mês de janeiro de 1941 teve início o que vamos contar. Por muitos anos Dolores criou Adalgisa, filha de sua antiga patroa. Esta cresceu, e agora a baba permanecia na casa cuidando de Celso, filho recém-nascido dela. Naquela manhã, ela chegou apressada, pedalando sua velha bicicleta, entrou na casa em prantos com a noticia: _Minha filha faleceu ao dar à luz de seu primeiro bebe. Terei que deixar o emprego para cuidar desse meu neto. Adalgisa, criada por Dolores e sua atual patroa, não aceita o pedido de demissão e propõe que eles passem a morar em sua casa que além de enorme, ficava próxima de um posto de saúde, onde o seu neto teria um bom acompanhamento pediátrico e próxima de boas escolas, onde no futuro ele poderia seguir seus estudos. Dolores aliviada agradece e aceita a oferta dizendo: _Temos dois meninos com menos de um mês de diferença, darei conta de cuidar de ambos. E foi assim que Celso, filho de Adalgisa e Mario, neto de Dolores, foram criados. Havia contubérnio entre eles, estudavam na mesma escola, jogavam futebol juntos e realmente não havia nenhuma discriminação por parte de ninguém, eram ambos os meninos da casa. Apenas a genética os diferenciava, Celso, filho de uma mãe bem cuidada herdou dela a sua aparência saudável e bonita, Mario, cuja mãe deu a luz ainda muito jovem, e criada com poucos recursos, era menor na altura e com muitos problemas de saúde. Na escola ambos e mais dois amigos, “Anselmo”, e “Juliano” se destacavam formando o ataque do clube de futebol da escola e da cidade. 1960 - Três deles concluíam o curso cientifico, e Anselmo era do tipo de menino que não gostava de estudar, preferiu trabalhar tirando leite de vacas. Foi à época em que Celso conquistou sua primeira namorada. “Eva” que tinha 18 anos era filha de imigrantes Italianos e se ocupavam da criação de gado leiteiro em sua fazenda, como muitos faziam no Norte do Paraná. O namoro durou muito pouco, menos de um mês, mas os jovens movidos pela paixão se entregaram um ao outro, ambos pela primeira vez. O ciúme determinou o fim do relacionamento, pois, Celso, rapaz alto, bonito de família rica e tradicional, chamava a atenção das outras moças do pequeno município e enciumada, Eva causou vários atritos vindo à separação. Mas ela além da caturra tinha um gênio forte e não aceitou passivamente o fim do namoro. Tratou de conquistar Mario, queria assim provocar ciúmes em Celso, e também namorou e se entregou a esse por cerca de um mês. Mario sempre teve pouca saúde, mas ultimamente queixava-se com Celso por sentir que tinha muita sede, e fome. Urinava pouco e o ato lhe causava sangramento e dor. Celso pede a ele que vá buscar orientação médica, contudo, alegando que teria que usar dos recursos da sua avó já que ele sequer trabalhava, recusou a sugestão. Sendo seu grande amigo criados como irmãos, Celso não se dá por vencido e resolve ajudar Mario. Marca uma consulta com Dr. Alfredo, único médico na cidade. Como ele também não trabalhava, pagou a consulta com a mesada que recebia de sua mãe. No consultório, Celso relata ao médico todos os sintomas do amigo como se fossem seus. Ao final da consulta Dr. Alfredo informa que ele deveria efetuar diversos exames, mas em uma cidade maior, com mais recursos. Recomendou a Santa Casa de Londrina, onde não teria nenhum custo além, de os resultados muito confiáveis. Como era sem custo, Celso induz o amigo fazer os exames. Mario resistiu muito à ideia dizendo: _Amigo o que estamos fazendo é ilegal! Mas Celso retruca: _não prejudicaremos ninguém e não usaremos os resultados para burlar ou tirar proveito deles! Insiste reforçando o que Dr. Alfredo havia dito e Mario, cada vez pior de saúde, se convence dessa necessidade. Com o encaminhamento para exames em mãos, ambos vão até Londrina e dirigem-se ao laboratório do Hospital da Santa Casa indicada pelo médico. Lá chegando, Mario se encaminhou para a sala de espera que está lotada e Celso se dirige a recepção com a guia de encaminhamento e com seus documentos em mãos. A atendente anota todos os dados, solicita a assinatura de Celso na requisição, e pede para ele aguardar a chamada pelo nome, na sala ao lado. Mario já lá estava e assim que o alto falante mencionou o nome de Celso, ele se dirigiu à sala de coleta de sangue. Ninguém lhe pede mais nenhum comprovante de identificação. Dessa forma o material colhido é de Mario, em nome de Celso e o resultado é encaminhado diretamente para o médico que o solicitou. Decorridos alguns dias, Celso é avisado que os resultados dos exames já haviam chegado e retorna para a consulta médica. Dr. Alfredo estava na cidade há poucos anos, não havia acompanhado Celso em sua infância, por isso não sabia que o moço era um atleta que nunca havia ficado enfermo, vendo os exames lhe diz: _ Meu rapaz, você sente toda essa sede e fome porque é diabético e ainda teve varicocele, e caxumba mal curada. _Sinto informar que essas enfermidades o tornaram um homem infértil, não poderá engravidar nenhuma mulher. _Atualmente não há muito que fazer, quem sabe no futuro, com o avanço dos tratamentos, e suas dores e sangramento ao urinar são provenientes de pedras nos rins._ Vou prescrever medicamento para aliviar as dores, mas para tratamento da infertilidade, aconselho buscar centros maiores. A revelação chegou a abalar o ânimo de Celso que ficou arrasado pelo que o destino reservara para seu grande amigo, mas se refez para dar forças a ele. Levou a medicação indicada e passou todas as orientações médicas para Mario. Este seguiu o tratamento à risca e num curto prazo de tempo alcançou melhoras. Logo resolve mudar-se para Curitiba imaginando que em uma cidade maior poderia tratar-se e um dia reverter seu problema de infertilidade. Tempos depois passou no vestibular para Direito. Sempre mandava notícias por carta e seguia fazendo seus tratamentos médicos. Os rapazes seguiam suas vidas sem imaginar as implicações daquela troca de identidade nos exames. Marilda, a assistente do Dr. Alfredo, ouvira toda a conversa que seu patrão tivera com o paciente e quando este deixou o consultório, ela tratou certificar-se do que contaria para todas as amigas interessadas em namorar Celso. Conferiu os exames e concluiu: Não são bulícios eis as provas, ele é infértil. Celso, não soube na época, pois as “fofocas” não foram divulgadas por toda a cidade, apenas as moças interessadas no “bom partido”. Eva também tomou conhecimento. Naquela ocasião Eva havia namorado Celso e Mario e sua menstruação estava atrasada. Desnorteada, sem saber o que fazer, conta para sua mãe sobre sua situação que por sua vez conta para seu marido. Giovane, o italiano, pai de Eva, ficou furioso. Naquele tempo ser mãe solteira era uma grande desonra para a família. No dia seguinte ele leva Eva a um médico de uma cidade longe dali e a confirmação cai como uma bomba, realmente sua filha estava grávida. Religioso Giovane não teve dúvidas, essa criança iria nascer, mas ele tinha uma estratégia. Em seu retorno espalhou pela cidade que Eva ficaria meses fora para acompanhar Beatriz, a filha mais velha e que ela sim estava grávida. Ia ajudar a irmã com o enxoval do seu neto. Leva Eva para morar na fazenda com sua irmã casada, mas que não tinha filhos. Quando a barriga começou a aparecer, Giovane leva Eva, Beatriz e Ada, sua esposa, para morar em Cambé. Lá as irmãs passaram a usar vestes bem largas, tornando impossível de se notar a gestação. Mensalmente Eva é levada para fazer o pré-natal. Quando ela dá a luz, seu pai leva a criança para a fazenda, o bebe é registrado como filho de Beatriz e Clóvis, seu marido, e Giovane avisa aos amigos que seu neto nascera na fazenda. Sabendo por meio de Marilda que Celso era infértil, o pai de seu bebê só poderia ser Mario, um rapaz pobre e ela sabia como pensava Giovane, seu pai que dizia: De pobre, basta só nós! Então, Eva jamais contou o que ocorrera, ou quem era o pai de seu filho. Um ano depois Celso e Eva conseguem vaga na mesma faculdade, em Maringá, cidade onde ela havia dado à luz a seu filho Jorge. Por serem da mesma cidade, e sem conhecerem os demais colegas, voltam a conversar. Eva está mais amadurecida e meses depois estão namorando novamente. Quando ambos se formam, ela em Letras e ele em Ciências Contábeis, retornam a sua cidade. Eva passa a lecionar Inglês no curso ginasial e Celso abre um escritório de Contabilidade. Giovane, pai de Eva, é informado por Marilda da infertilidade de Celso, esta fazia empenho em acabar com o namoro de ambos, pois sempre fora apaixonada por ele, e alimentava esperanças de que um dia se casaria com Celso. Giovane tenta de todas as maneiras terminar com o namoro, pois quer ter mais netos e Beatriz sua outra filha não consegue engravidar, sua esperança é que Eva se case e seus sonhos se realizem. Mas, não tem nenhum argumento para impedir que namore o rapaz, ele é de boa família, e com boa cultura, assim tempos depois eles se casam. Eva sempre que podia ia rever o seu filho que lhe fora tirado dos braços e entregue para ser criado por sua irmã. Procura ir quando sabe que seu pai não estará ela ainda estava muito magoada com a atitude dele. Quando Eva e Celso comemoravam o primeiro aniversario das bodas, fazem uma grande festa, e reencontram Mario e sua esposa. Agora um advogado que cuidava de causas internacionais, e que não pode ficar muito tempo, assistiu apenas o início da festa, viajou para a França, onde ele tinha uma causa para defender. Os moradores de toda a cidade foram à festa, a carraspana foi geral. Chovia muito, a estrada de terra toda enlameada e na volta para fazenda Clovis, cunhado de Eva, derrapou seu carro na lama, perde a direção e cai num barranco. Giovane o italiano, sua esposa, sua filha e genro falecem. A criança havia ficado em sua casa, pois estava febril e isso a salvou da morte certa. Assim, Eva e Celso, passam a cuidar do menino, seus únicos parentes vivos. Ela sabendo ser ele seu filho verdadeiro e Celso sem saber de nada. Anos depois, Mario retorna a cidade, casado, e com uma filha adolescente, havia ele revertido com a medicina mais evoluída seu problema de infertilidade. A moça se interessa por Jorge, filho de Eva e estes iniciam um namoro. Eva se desespera, pois quer evitar que os irmãos namorem para ela seu filho seria de Mario, logo, os jovens seriam irmãos, e luta ferrenhamente para acabar o namoro. Meses depois, Celso já apaixonado pelo rapaz, diz à Eva:_ Se quando nos conhecemos você tivesse engravidado, nosso filho teria a mesma idade do seu sobrinho. E ela inocentemente arremata: _Mas você não é infértil?! Celso responde às gargalhadas: _não meu amor, foi uma trica, uma marosca que fizemos, eu e Mario! E conta toda a história dos exames trocados. Eva não resiste, chora copiosamente, seu marido não entende nada e quando ela para o choro ele pergunta: ¬_ por que essas lágrimas? Eva sem nada demonstrar diz_ casei-me com você imaginando que nunca poderia ser mãe, pois Marilda contou para todas nós que você era infértil. Agora Eva sabia que seu marido era o pai de seu filho. Mas teria que guardar seu segredo, mas aceita para espanto de todos o namoro do casal adolescente. Ironicamente Celso e Eva nunca tiveram outros filhos, realizaram vários exames, mesmo assim, Eva nunca mais engravidou. Jorge e Celso eram muito próximos. Eva tentava reunir coragem para revelar seu segredo ao marido, mas vendo essa grande amizade entre eles e temendo estragar a harmonia de seu lar, sempre adiava. No entanto, bastava estar sozinha para que Eva se perdesse em suas profundas reflexões e quem a visse imaginaria que ela estava numa espécie de transe. Ela sentia-se dividida entre a alegria da família unida e a amargura de não ter o desprendimento de contar tudo para Celso. Sofria muito, pois seu maior desejo seria ouvir Jorge chamá-la de mãe e não por Tia. O tempo vai passando e Jorge é diplomado em Veterinária. Escolhera a profissão para cuidar da fazenda de seu falecido avô. Casa-se com a filha de Mario e quando nasce o primeiro filho do casal, escolhe o nome de Celso para o garoto. Jorge queria prestar homenagem ao homem que amava como pai, ao carinho e amizade que havia entre eles. Muitos anos depois Eva adoece com problemas cardíacos, talvez reflexos do segredo que abafara no peito por toda sua vida. Seguia angustiada por jamais ter ouvido seu único filho chamando-a: "Mamãe" Por algum tempo é tratada em casa, mas sua saúde piora e é internada. O médico pede para os amigos e familiares esperarem o pior e reuniu a todos. Eva já não tinha forças para falar, mas pede através de gestos, para todos saírem do quarto e deixá-la a sós com seu marido. Com enorme esforço Eva enfia a mão dentro do avental que usava e retirou uma pulseirinha, a mesma que usou no hospital quando deu à luz a seu filho e a entrega para Celso e com uma última lágrima brotando de seus olhos falece. Celso entende que para fazer tanto esforço, aquele último gesto devia tem um significado muito importante. Na pulseirinha estavam escritos o nome dela e o da Maternidade onde dera à luz, e a data do nascimento. Surgiram em seus pensamentos muitas dúvidas. De repente ele começa a ligar os pontos das lembranças do passado. Por que Eva e sua irmã estiveram afastadas do convívio de todos no período da gravidez? Ele mesmo já dissera que se ela tivesse engravidado durante o namoro deles, eles teriam um filho da mesma idade. Será que meu sobrinho é na verdade meu filho? O velório é concorrido, os alunos de Eva prestam a ela uma homenagem de despedida muito linda. Celso Calado, sentado ao lado do esquife. Vez por outra emite um suspiro de tristeza. Ninguém nota, mas Celso tem em suas mãos a pulseirinha que lhe fora entregue por Eva em seu último gesto de vida. Quando chega à hora das despedidas finais todos se afastam e não percebem quando Celso prepara um lindo buquê de rosas usando a pulseirinha para prender as flores, disfarçada por debaixo de uma fita de seda. Gentilmente ajeita o arranjo nas mãos frias de Eva. Abaixa-se para um último beijo e diz a ela em pensamento: _ meu amor, você teve um filho e guardou esse segredo por toda a sua vida, seu último gesto indica que queria libertar-se do fardo desse silêncio. Siga em paz! Quanto a mim, o que mudaria saber disso agora? Sempre tive amor genuinamente de pai em meu coração! E como um pai, não fui eu quem, com muita alegria e dedicação, vivi para nutrir, educar, orientar e apoiar seu filho, para que ele crescesse e se tornasse um homem de bem? Para mim nunca fez diferença, sempre o amei como meu próprio filho. Nada mudará leve seu segredo para a vida eterna, pois sempre senti e disse:_ PAI é aquele que cria. Com esse pensamento, duas lágrimas brotam dos olhos de Celso indo derramarem-se sobre o rosto pálido de Eva. O caixão é fechado em seguida, e dentro do cemitério quando a tampa deste é aberta para as derradeiras despedidas, Eva estava com um semblante calmo e feliz, e notaram essas lágrimas, mas até hoje muitas pessoas que lá estavam, juram ter sido ela quem chorou. Cinco anos depois do falecimento de Eva, Jorge é solicitado para doar sangue a um amigo que sofrera um acidente de carro na estrada, o médico que estava cuidando do acidentado fora quem atendeu por muitos anos Beatriz e Clovis, sabia que ambos tinham o tipo de sangue universal, logo Jorge também o teria. Mas por prudência fazem um teste de sangue no rapaz e constatam que o dele não é o mesmo de seus supostos pais. Impedido de doar Jorge quer saber o motivo da incompatibilidade de que Beatriz e Clovis sejam efetivamente seus verdadeiros pais. Sem alarde, numa manhã, limpa cuidadosamente o pente que Celso usa e quando este ao se levantar se penteia, imediatamente recolhe os fios que saíram da cabeça dele. Jorge como lembrança de EVA, tinha uma corrente de ouro onde muitos anos atrás Giovane seu avô, havia mandado incrustar o primeiro dentinho dela. No dia seguinte vai a um laboratório, solicita que façam um exame de DNA comparando seu sangue com os cabelos de Celso e o dentinho. Dias depois a confirmação. Celso era o seu pai, e Eva a sua mãe. Ao retornar para casa, abraça Celso, chora feliz, contudo jamais contou para ele toda a verdade que descobrira, respeitando O SEGREDO DE EVA. Na manhã seguinte vai até o cemitério onde Eva está enterrada, ajoelha-se, chora muito, e murmura. Vim lhe visitar minha MÃE. O dia estava totalmente nublado, mas exatamente no momento em que Jorge pronuncia a palavra Mãe, uma das nuvens se abre deixando passar um raio de sol iluminar o rosto do rapaz. Pessoas que também lá estavam vendo esta cena comentam. _ A falecida está lhe agradecendo por alguma palavra que usou e pela sua visita. FIM

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